Sem promessas, sem compromissos

(Mind Over Matter)
Nora Roberts



Resumo:
Andrea teme que seus poderes a condenem  solido para sempre.
Assim que conhece David Brady, Andrea sabe o que os espera: mais cedo ou mais tarde se tornaro amantes, e faz de tudo para driblar o destino.
Mas a imagem dele a persegue. Nos sonhos, se v possuda por aquele homem forte, insinuante, e delira de prazer. 
De repente percebe que s h um meio de enfrentar o inevitvel: viver o presente, viver o desejo que a consome, sem pensar no passado, nem no amanh na certa tambm 
ser abandonada por David. Andrea est consciente  de que ningum quer conviver com uma mulher igual a ela.



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    CAPTULO 1
    
    David esperava encontrar uma bola de cristal sobre a mesa, incenso queimando a um canto, baralhos e folhas secas espalhadas pelo cho. Embora no admitisse aos 
colegas, intimamente torcia mesmo por encontrar um ambiente bastante misterioso.
    Como produtor de documentrios para a televiso, fazia questo de verificar pessoalmente tudo que fosse objeto de filmagem. Na verdade, esperava que uma tarde 
em companhia de uma cartomante lhe proporcionasse alguns momentos de descontrao, embora fosse ali a trabalho. Contudo, suas expectativas foram frustradas. Clarisse 
De Basse no usava nem mesmo um turbante.
    A bela senhora que o recebeu  porta da confortvel casa do bairro de Newport Beach mais parecia uma dama da sociedade, destas que freqentam desfiles de moda 
e chs da tarde.
    Seu perfume era doce e feminino, sem nada de misterioso ou oriental.
    - Ol - disse ela, estendendo-lhe a mo com um sorriso nos lbios. - Sou Clarisse De Basse. Por favor, entre, sr. Brady; chegou bem na hora marcada.
    - Muito prazer, sra. De Basse.
    Por um segundo, relutou em apertar-lhe a mo mas, reconsiderando, percebeu que agiria como um idiota. As pessoas dotadas de poderes paranormais comportavam-se 
exatamente como as demais,
    - Agradeo-lhe por me receber mas. . .   Como soube meu nome?
    Ao apertarem as mos, Clarisse concentrou-se nos fluidos que recebia de David para que pudesse analis-lo posteriormente.
    Por ora, baseando-se apenas na intuio, percebeu que ele era um homem honesto em quem poderia confiar; e isto lhe bastava.
    - Eu poderia lhe dizer que usei de premonio  mas, na verdade, no foi nada disso. O senhor estava sendo aguardado para as treze e trinta; minha empresria 
telefonara de manh para me lembrar. Caso contrrio, ainda estaria cuidando do meu jardim. O que acha de um cafezinho?
    - tima idia.
    A sala era bastante aconchegante. Nas janelas, cortinas azuis-claras e, a um canto, um sof j um tanto surrado e duas poltronas.
    - Sente-se, sr. Brady. Eu tinha acabado de trazer a bandeja quando a campainha tocou.
    Optando por uma poltrona, David esperou at que Clarisse sentasse  sua frente e lhe servisse uma xcara de caf.
    Clarisse De Basse tinha um aspecto maternal que inspirava carinho e calor humano. Baixa e ligeiramente rechonchuda, tinha um rosto angelical e bastante liso 
para seus presumveis cinqenta e poucos anos. O cabelo pintado de loiro ressaltava-lhe os olhos vivos e brilhantes.
    Ao aceitar a xcara que lhe era estendida, David notou as inmeras pulseiras que ela usava. Tratava-se, sem dvida, de uma mulher vaidosa.
    - Obrigado, sra. De Basse. Devo lhe confessar que no se parece em nada com a imagem que eu tinha em mente.
    Absolutamente  vontade, Clarisse recostou-se no sof.
    - J sei: esperava que eu o recebesse na porta com uma bola de cristal nas mos.
    Seus olhos eram incrivelmente belos e astutos.
    - , admito que sim - confessou, tomando um gole do caf, cuja nica qualidade era a de estar quente. - Li muito a seu respeito nestas ltimas semanas e vi uma 
gravao do Barrow Show no qual a senhora aparece. - Ento, escolhendo bem as palavras, afirmou: - Sua imagem no vdeo  bem. . . diferente.
    - Ora, aquilo faz parte do show business - ela disse de modo to casual que ele imaginou tratar-se de pura ironia. No entanto, seu olhar permanecia claro e amigvel. 
- Geralmente, no trato de negcios em minha casa mas, como me pareceu que o senhor tinha uma certa urgncia em me ver, resolvi que seria melhor receb-lo como sou 
na realidade. Sinto t-lo desapontado.
    - No, no, em absoluto - ele objetou, sincero.   Ento, apoiando a xcara sobre a mesa, disse: - Sra. De Basse...
    - Chame-me de Clarisse - pediu, sorrindo de maneira charmosa.
    - Clarisse, serei bastante franco com voc.
    - Que bom - concordou ela, apoiando as mos sobre o colo.
    David ficou fascinado com a espontaneidade de Clarisse. Caso ela fosse uma vigarista, sabia disfarar muito bem.
    - Sou um homem extremamente prtico, e fenmenos tais como telepatia, clarividncia e paranormalidade no fazem parte do meu dia-a-dia.
    Imvel, ela limitou-se a sorrir de modo compreensivo, mantendo um olhar absolutamente inexpressivo. Pouco  vontade, David mexeu-se na poltrona.
    - Confesso que resolvi fazer este documentrio sobre a parapsicologia meramente por seu aspecto curioso, visando apenas entreter o espectador.
    - Ora, no tem do que se desculpar. - No momento em que um gato preto pulou em seu colo, Clarisse levantou as mos e, sem desviar o olhar, comeou a acarici-lo. 
- David, uma pessoa na minha posio entende perfeitamente as dvidas e o fascnio que as pessoas tm com relao a... estas coisas. No sou nem um pouco radical. 
- O gato, agora, deitava-se confortavelmente em seu colo. - Sou apenas um ser humano agraciado com um presente do Criador e que, portanto, tem certas responsabilidades.
    - Responsabilidades?
    David procurou pelo mao de cigarros no bolso, mas notou que no havia cinzeiros por perto.
    - Claro - afirmou Clarisse, abrindo a gavetinha da mesa, de onde retirou um cinzeiro de loua azul. - Aqui est - disse, entregando-o a David. - Veja, um garoto, 
quando recebe uma caixa de ferramentas de presente, precisa optar: ele poder us-las para aprender, para consertar ou para serrar o p de uma mesa. Ou, ainda, guard-las 
no fundo do armrio. A maioria das pessoas opta pela ltima alternativa por achar as ferramentas muito complicadas ou assustadoras, at. Voc alguma vez j passou 
por uma experincia medinica ou paranormal, David?
    - No - respondeu ele, acendendo um cigarro.
    - No? - Poucas pessoas teriam negado com tanta convico. - Nenhuma vez teve a impresso de prever alguns acontecimentos?
    O assunto o interessava.
    - Creio que todos j tiveram esta sensao uma vez ou outra.
    - Trata-se de intuio.
    - E voc considera a intuio como um dom paranormal? - Claro que sim - afirmou, entusiasmada, os olhos muito brilhantes. - Mas depende muito do quanto a pessoa 
a desenvolve, como a canaliza, de que forma a utiliza. A maioria de ns usa apenas uma pequena parte da intuio, pois traz a mente sempre ocupada com outros assuntos.
    - Foi, ento, um fenmeno semelhante que a levou a descobrir Matthew Van Camp?
    Uma sombra cruzou o olhar de Clarisse.
    - No.
    Mais uma vez, ela o intrigava.
    Clarisse tornara-se famosa e respeitada pela opinio pblica exatamente por causa de sua ajuda no caso Van Camp. David imaginou que ela estivesse ansiosa por 
falar no assunto; no entanto, a simples meno do caso a fez retrair-se.
    Tragando o cigarro, percebeu que o gato o observava.
    - Clarisse, o caso Van Camp j vai completar dez anos e ainda  a mais controvertida de suas atuaes.
    - O garoto j vai fazer vinte anos de idade.  um lindo rapaz.    
    - Diversas pessoas acreditam que ele estaria morto a esta altura, caso a sra. Van Camp no tivesse ido contra a opinio da polcia e do marido e insistido em 
cham-la para ajud-los no seqestro.
    - E outras pessoas acreditam que tudo no passou de um golpe publicitrio muito bem armado - ela afirmou, serena, tomando mais um gole de caf. - O filme de 
Alice Van Camp, lanado aps o seqestro, foi um grande sucesso de bilheteria. Voc assistiu? Estava lindo.
    Astuto, David percebeu que Clarisse desviara o assunto. Entretanto, ele o retomou.
    - Clarisse, caso concorde em fazer parte de meu documentrio, gostaria que nos falasse sobre o caso Van Camp.
    Bastante sria, ela franziu as sobrancelhas e ps-se a agradar o gato.
    - Bem, no sei se poderei atender ao seu pedido. Foi uma experincia muito traumtica para a famlia Van Camp, traumtica mesmo. E eu no gostaria de trazer 
o assunto novamente  tona.
    Mas David no teria atingido uma posio de tanto prestgio dentro da profisso caso no soubesse negociar.
    - E se a famlia concordar?
    - Bem, nesse caso  diferente. - Enquanto ela considerava a possibilidade, o gato espreguiou-se em seu colo. - Sim. . .
    - Sabe, David, admiro muito seu trabalho. Vi seu documentrio sobre os espancamentos de crianas e fiquei espantada com a maneira sria que o assunto foi abordado.
    - Eu no brinco em servio, Clarisse.
    -  exatamente isto o que mais admiro em voc, sua seriedade. Mas me diga: o que pretende com este documentrio sobre a paranormalidade?
    - Pretendo fazer as pessoas pensarem com mais cuidado sobre o assunto - afirmou, apagando o cigarro. - Fazer o pblico encarar tais fenmenos com outros olhos.
    -  o que voc tambm pretende?
    - Claro, todos iremos aprender muito com este trabalho. A sinceridade da resposta a convenceu.
    - Gosto muito de voc, David, e creio que gostaria de ajud-lo.
    - Fico feliz com isso. Posso deixar o contrato para que. . .
    - No, no - ela interrompeu ao v-lo abrir a pasta. - Estes detalhes menores ficam por conta de minha empresria - afirmou, com um gesto de pouco-caso.
    - timo. Se me der o nome dela eu vou procur-la o mais breve possvel.
    - Trabalho com a Agncia Fields, de Los Angeles. Novamente ela o surpreendia: a bela senhora com ar maternal tinha uma das melhores empresrias de toda a regio.
    - Perfeito; encaminharei os papis para l ainda esta tarde. Ser um prazer para mim trabalhar com voc, Clarisse.
    - Posso ver sua mo?
    Mais uma atitude inesperada. David estendeu-lhe a mo e brincou:
    - Por acaso vou fazer um cruzeiro martimo?
    Mas Clarisse no se ofendeu e, embora segurasse a mo que ele lhe estendera, mal a observava. Mantinha, sim, os olhos fixos no rosto de David. Estudando-o, constatou-lhe 
os traos angulosos e os cabelos escuros. Devia estar com um pouco mais de trinta anos, era extremamente atraente e vestia-se com elegncia. As sobrancelhas grossas 
destacavam os olhos verdes incrivelmente tranqilos. A boca era fina e proporcional ao tamanho do rosto e a mo que David lhe estendera era larga, com dedos longos, 
tpicos de artista.
    Mas Clarisse viu mais do que isso.
    - Voc  um homem muito forte, sob todos os pontos de vista.
    - Obrigado.
    - No digo isso para ajud-lo, David. O que voc precisa  aprender a mesclar esta fora com um pouco de ternura, principalmente em seus relacionamentos amorosos. 
Acho que  por esse motivo que voc ainda no se casou.
    O comentrio dela chamou-lhe a ateno.
    - Minha explicao  mais simples: nunca encontrei a mulher certa.
    - Tem razo, precisa encontrar uma mulher to forte quanto voc. E vai encontr-la, mais cedo do que imagina. No ser um relacionamento fcil e vocs dois precisaro 
ter em mente esta ternura de que lhe falei.
    - Quer dizer que acharei a mulher ideal, casarei e viveremos felizes para sempre?
    - Eu nunca prevejo o futuro. - Sua expresso tornou-se plcida mas bastante sria. - E s leio a mo das pessoas que me interessam. Quer que eu lhe conte o que 
diz a minha intuio?
    - Sim, diga.
    - Sinto que o relacionamento entre ns dois ser longo e muito interessante. - Antes de soltar-lhe a mo, Clarisse deu-lhe uns tapinhas amistosos. - E vou gostar 
muito disso.
    - Eu tambm - afirmou ele, levantando-se. - At mais, Clarisse.
    - Gostei muito de conhec-lo, David.  Venha me visitar mais vezes.
    Ao chegar ao porto, David teve um estranho pressentimento de que voltaria ali muito breve.
    
    Andrea Fields andava de um lado para outro do amplo escritrio, como era seu costume quando ficava nervosa. Antes de voltar-se para seu scio, aprumou um quadro 
que pendia torto na parede.
    - Claro que ele  um excelente produtor, Abe. S no sei se dar certo com Clarisse.
    Como de hbito, Abe Ebbit estava sentado na poltrona com as mos cruzadas sobre a barriga volumosa. Paciente, observava Andrea por sobre os culos cados na 
ponta do nariz.
    - Andrea, a oferta dele  muito generosa.
    - Ela no precisa de dinheiro.
    Como empresrio ele no gostou daquele comentrio.
    - Pense na repercusso junto ao pblico, ento.
    - Seria o tipo certo de repercusso, Abe?
    - Voc a protege demais, Andrea.
    -  para isso que estou aqui - argumentou.
    De repente, Andrea parou de andar e sentou-se na beirada da mesa.
    Ao v-la sria, com as sobrancelhas franzidas, Abe manteve-se calado, pois sabia que, caso lhe perguntasse algo Andrea no responderia. A conhecia de longa data 
e a respeitava por este motivo que ele, um veterano empresrio de Hollywood, trabalhava para a Agncia Fields em vez de abrir seu prprio escritrio. Embora tivesse 
idade para ser pai dela, no se importava de serem scios e terem a mesma posio. "Junta-te aos bons e sers um deles", Abe costumava dizer.
    - Ela j se decidiu a aceitar a oferta - murmurou Andrea aps uma longa pausa. - Mas... Bem, espero que no estejamos cometendo um erro. Qualquer deslize e eles 
vo faz-la passar por boba perante o pblico. E isto eu no vou tolerar,
    Abe.
    - Calma Andrea. Deixe que Clarisse decida por si s. Alm do mais, voc sabe que no deve permitir que seu lado emocional interfira nos negcios,
    - Sim, eu sei.
    Cruzando os braos, Andrea lembrou-se de que aquele fora o principal motivo de seu sucesso profissional. Aprendera desde muito jovem a controlar suas emoes 
para poder sobreviver. Quando se perde o pai muito cedo e sua me no presta ateno a detalhes tais como a data de vencimento da hipoteca da casa, tem-se que aprender 
a lidar com os negcios de modo profissional. Andrea tornara-se empresria por vocao e era realmente muito competente no que fazia. A prova disto era o belo escritrio 
que adquirira numa das avenidas mais elegantes de Los Angeles.
    - Bem, s vou tomar uma deciso hoje  tarde, depois que me encontrar com Brady.
    Conhecendo-a bem, Abe sorriu e indagou:
    - Quanto mais voc vai pedir?
    - Acho que mais dez por cento - comentou, tamborilando um lpis sobre a mesa. - Mas, antes, pretendo descobrir o que exatamente ele vai mostrar nesse documentrio 
e qual a abordagem que dar ao assunto.
    - Dizem que David Brady  duro. Andrea dirigiu-lhe um riso significativo.
    - Eu tambm.
    Abe ficou de p num gesto bastante caracterstico dele, colocando o polegar no cinto da cala.
    - Bem, tenho uma reunio agora. Me avise depois como foram as negociaes.
    - Certo. At mais tarde.
    David Brady. O fato de Andrea admirar-lhe o trabalho iria, sem dvida, influenciar sua deciso. No entanto, desde que ele aceitasse pagar a quantia exigida, 
teria a participao de Clarisse no documentrio. Mas, antes, seria preciso no demonstrar muito interesse.
    Clarisse De Basse foi sua primeira cliente. E a nica durante os primeiros anos da Agncia Fields. Embora todos a criticassem por sua atitude excessivamente 
protectora com relao a ela, Andrea no mudava seu modo de agir. Brady podia ser um dos melhores produtores de documentrios, mas isto no lhe dava privilgio nenhum 
sobre Clarisse. Nenhum contrato seria assinado sem sua aprovao.
    A vida para Andrea no incio de sua carreira no tinha sido nada fcil. Para atingir o prestgio de que gozava hoje, escritrio prprio e quinze empregados, 
precisara passar por maus pedaos. H dez anos, quando entrara para o ramo, nem telefone prprio Andrea tinha. Alm do que, na poca, se viu obrigada a esconder 
sua verdadeira idade da maioria dos clientes, pois poucas celebridades confiariam sua carreira nas mos de uma garota de dezoito anos. Exceto Clarisse.
    Suspirando, Andrea recordou-se de como fora difcil o comeo: tantas responsabilidades, a concorrncia, tantos detalhes...
    Mas a infncia penosa lhe servira de escola. Desde cedo aprendera a verificar os tales de cheque para ver se as contas conferiam e cuidar de todos os pagamentos. 
Os papis entre ela e sua me haviam se invertido: era a filha quem cuidava da me.
    No entanto, hoje em dia, Andrea enxergava esta experincia pelo dado positivo, pois, caso no tivesse passado por tais dificuldades, talvez alcanar o sucesso 
tivesse sido impossvel. O destino tem seus meios. . . Sorrindo, Andrea contornou a mesa e sentou-se na enorme poltrona que ganhara de sua me. Ao contrrio da mesa, 
prtica e funcional, a cadeira era imensa e bastante desajeitada. Mes...
    Todo o escritrio seguia a linha da funcionalidade discreta. Nada de flores, fotos ou enfeites frvolos.
    Pensando em dar mais uma olhada no contrato antes de discuti-lo com David Brady, Andrea apanhou-o sobre a mesa. Pretendia estudar cuidadosamente cada clusula, 
cada frase, cada alternativa.
    No momento em que fazia uma anotao acerca do ltimo pargrafo, o interfone tocou. Sem deixar de escrever, ela o atendeu.
    - Sim, Diane?
    - O sr. Brady acaba de chegar, Andrea.
    - timo, Diga para ele entrar. Espere para trazer o cafezinho quando eu chamar, est bem?
    Voltando o bloco de anotaes para a primeira pgina, levantou-se no exato instante em que a porta se abria.
    - Ah, sr. Brady - cumprimentou-o, sem sair de trs da mesa.
    Ela aprendera h algum tempo num curso que tal atitude demonstrava poder e, ao mesmo tempo, dava-lhe a chance de estudar melhor a pessoa que chegava.
    Observando-o, concluiu que David Brady mais parecia um de seus clientes do que um produtor de renome. Tinha o andar macio e a elegncia displicente. Numa frao 
de segundo imaginara-o estrelando um policial para a televiso ou, ento, um destes filmes de cowboy. Pena que ele estivesse em outro ramo.
    David, por sua vez, tambm pde observ-la. Elegante e discreta, ela lhe pareceu a tpica mulher de negcios. Apenas a pouca idade o surpreendeu. O corpo esbelto 
chamava pouca ateno sob o tailleur cinza. Os cabelos loiros  altura do queixo formavam um belo contraste com o vermelho da blusa de seda e o azul dos olhos era 
ressaltado por uma maquilagem bastante suave, pouco perceptvel atravs dos culos.
    O aperto de mo foi firme e profissional.
    - Por favor, sente-se, sr. Brady.  Gostaria de tomar um cafezinho?
    - No, obrigado - disse ele, sentando-se aps Andrea, que mantinha o contrato aberto sobre a mesa.
    Ainda estudando-a, Brady constatou que ela no usava qualquer tipo de jias ou enfeites. Apenas um relgio social no pulso esquerdo.
    - Parece que temos muitos amigos em comum, srta. Fields. Incrvel que ainda no tivssemos nos conhecido.
    - De fato - ela afirmou sorrindo. - Mas, como empresria, prefiro me manter nos bastidores do mundo artstico. O senhor j se encontrou com Clarisse, no?
    - Sim, j - concordou, percebendo que iriam direto ao assunto. - Ela  uma pessoa encantadora, mas confesso que esperava encontrar uma mulher mais. . . excntrica.
    Andrea riu de maneira espontnea.
    - Ela sempre surpreende as pessoas. Sr. Brady, seu projeto me pareceu bastante interessante, mas preciso conhecer alguns detalhes. Gostaria que me dissesse exatamente 
o que pretende produzir.
    - Trata-se de um documentrio sobre a paranormalidade, incluindo fenmenos ligados  clarividncia,  parapsicologia, telepatia, etc.
    - E o que me diz de almas do outro mundo?
    O tom de desaprovao no lhe passou despercebido.
    - Para uma empresria que cuida dos interesses de uma cliente paranormal, a senhora me parece bastante irnica.
    - Minha cliente no l cartas nem fala com pessoas falecidas. - Andrea recostou-se na cadeira numa postura que transmitia autoconfiana e poder. - Por diversas 
vezes a sra. De Basse provou ser uma pessoa muito sensvel, mas nunca afirmou possuir poderes sobrenaturais.
    - fenmenos sobrenaturais, no. Mas paranormais, sim.
    - Ah, vejo que o senhor andou pesquisando o assunto.
    - Chame-me de David.  por isso que quero Clarisse De Basse em meu programa.
    - Prossiga, David. .
    - Estive conversando com mdiuns, cartomantes, quiromantes, ciganas. Nem imagina quantos vigaristas existem por a.
    - Imagino, sim - ela comentou, rindo. David resolveu ignorar o sarcasmo.
    - Conversei, tambm, com diversos chefes de departamentos de parapsicologia de muitas universidades e todos mencionaram o nome de Clarisse.
    - Clarisse tornou-se muito conhecida. Principalmente na rea da pesquisa.
    Novamente o tom de censura.
    - Nos cinco programas que farei, de uma hora cada um, pretendo propor questes, mostrar novos estudos na rea. O pblico poder enviar perguntas e terei  disposio 
dos participantes uma sala com cartas de tar, etc.
    - E onde  que Clarisse se encaixa nisso tudo? - ela indagou, tamborilando os dedos sobre a mesa.
    No ia ser nada fcil convenc-la, concluiu David. Mas, tambm, no cederia nem um centavo na negociao.
    - Como voc mesma j disse, Clarisse tornou-se famosa. Principalmente aps o caso Van Camp.
    - Isto foi h dez anos - ela comentou, num tom seco.
    - O filho de uma estrela de Hollywood  seqestrado enquanto brinca num parque da cidade. O resgate  fixado em meio milho de dlares. A me fica arrasada, 
a polcia, desorientada. Quarenta e oito horas se passam sem que nenhuma pista seja levantada, enquanto a famlia do garoto tenta conseguir o dinheiro. Ainda que 
contra a vontade do pai, a me telefona para uma amiga que faz mapas astrolgicos. A amiga chega, fica durante alguns minutos no quarto do garoto, segurando uma 
roupa dele, e, ao sair, descreve para a polcia o local para onde o levaram e fornece um retrato falado dos seqestradores. Naquela mesma noite o garoto  encontrado 
e levado para casa. - David acendeu um cigarro e deu uma tragada. - As pessoas no esquecem um fato desses nem mesmo depois de dez anos.
    Tentando ocultar a raiva que sentia, Andrea permaneceu imvel.
    - Muitos afirmam que o caso no passou de uma fraude. Traz-lo  tona agora, depois de tanto tempo, vai exaltar os nimos de novo.
    - Qualquer pessoa na posio de Clarisse deve aprender a lidar com a crtica.
    David viu um brilho intenso estampar-se nos olhos de Andrea e percebeu que, por detrs da aparncia tranqila, a raiva a consumia.
    - Tem razo, mas no permitirei que ela assine um contrato que a prejudique. No pretendo v-la exposta a um julgamento televisionado.
    - Espere um pouco - ele disse, tambm j irritado. - Ela  exposta a julgamento toda vez que aparece em pblico e, caso no consiga se defender verbalmente perante 
as cmeras, seria melhor abandonar a atividade. Como empresria, deveria ter mais confiana na competncia de sua cliente.
    - Isto no  de sua conta.
    Pretendendo livrar-se de David e do contrato o quanto antes, Andrea comeou a levantar-se quando o telefone tocou. Visivelmente contrariada, atendeu-o.
    - Por favor, Diane, no posso. . .  Ah...  Sim, ponha-a na linha.
    - Sinto muito incomod-la, querida.
    - No tem problema. Estou atendendo uma pessoa, portanto...
    - Sim, eu sei - afirmou Clarisse no seu tom calmo de sempre. - David Brady est a. Ele  muito simptico.
    - Isto  questo de opinio.
    - Logo imaginei que voc no fosse concordar. - Andrea, estive pensando muito na proposta de David e decidi assinar o contrato imediatamente. - Antes que Andrea 
pudesse protestar, ela continuou: - J sei o que voc est pensando. Bem, como empresria, espero que cuide dos detalhes que julgar necessrio, mas aviso-lhe que 
quero fazer esse documentrio.
    Andrea percebeu pelo tom de voz de Clarisse que se tratava de mais um pressentimento dela, e sabia que seria intil protestar.
    - Precisamos conversar sobre o assunto.
    - Claro, querida, como quiser.  Deixo os detalhes a seu cargo e de David, mas assinarei o contrato de qualquer forma.
    Tendo David bem  sua frente, Andrea teve que disfarar a revolta como pde.
    - Como queira, mas acho que deveramos discutir com mais calma.
    - Est bem. Venha jantar comigo, ento.
    Andrea no conteve um riso: Clarisse adorava discutir assuntos srios durante as refeies. Pena que fosse to m cozinheira.
    - No posso, tenho um compromisso.
    - Pode ser amanh?
    - Est certo. Ento at amanh.
    Aps desligar, Andrea respirou fundo e se voltou para David.
    - Me perdoe pela interrupo.
    - No se preocupe.
    - No consta do contrato nenhuma clusula referente ao caso Van Camp.
    - J conversei com ela a este respeito.
    - Entendo...  Mas gostaria que a participao da sra. De Basse nesse seu documentrio ficasse bem explicada e, para isto, teremos que fazer algumas modificaes.
    - Tudo bem, no me oponho a nenhuma modificao. "Ento, Clarisse vai mesmo assinar o contrato", ele pensou consigo enquanto ouvia mais algumas modificaes 
sugeridas por Andrea. Antes daquele telefonema, teve a ntida impresso de que ela estava para se livrar dele, mas depois. . . No era preciso ser clarividente para 
saber que o telefonema tinha sido de Clarisse. Andrea fora pega de surpresa.
    - Reescreverei a minuta do contrato e a enviarei amanh mesmo para voc - disse.
    "Todos parecem muito apressados", ela pensou.
    - Estou certa de que ento poderemos fazer negcio. Ah, s mais um detalhe.
    - Qual?
    - O cach da sra. De Basse. - Andrea folheou o contrato, arrumando os culos que usava para ler. - Esta quantia est bem abaixo do que Clarisse costuma cobrar. 
Queremos vinte por cento a mais.
    Surpreso, ele ergueu uma das sobrancelhas. David esperava que Andrea tivesse tocado no assunto bem antes.
    - Espero que compreenda que estamos trabalhando para a televiso estatal e, portanto, temos um oramento bastante restrito. Como produtor, posso lhe oferecer 
cinco por cento a mais. Vinte seria impossvel.
    - E cinco  irrisrio - comentou ela, tirando os culos. - Compreendo perfeitamente sua situao, mas o mnimo que posso pedir  quinze.
    "A tpica empresria", considerou, no muito surpreso. Acostumado a fechar negcios, David sabia que ela queria, na verdade, dez por cento, e era exatamente 
aonde pretendia chegar. Mas, no ia ser fcil.
    - A sra. De Basse vai receber o cach mais alto do programa.
    - Isto se deve ao fato de que ela ser, sem dvida, sua melhor atrao. Entendo de ndices de audincia tambm.
    - Sete por cento.
    - Doze.
    - Dez.
    - Negcio fechado -- afirmou Andrea, levantando-se. Caso no estivesse to furiosa, ficaria mais satisfeita por ter chegado aonde pretendia. - Vou esperar pela 
minuta, ento.
    - Eu a enviarei pelo mensageiro amanh. Ah, a respeito desse telefonema... - David levantou-se. - Ns no fecharamos negcio se no fosse por ele, no ?
    Enquanto o observava, Andrea mentalmente o amaldioou pela esperteza e astcia.
    - No, no fecharamos.
    - Agradea a Clarisse por mim - ele comentou, com um riso que a fez odi-lo.
    - Adeus...
    Desta vez, quando suas mos se tocaram, Andrea emudeceu. Sensaes estranhas e confusas apoderaram-se dela, fazendo com que suas pernas fraquejassem e a respirao 
se tornasse difcil. Apreenso, desejo, dio...  tudo a um s tempo.
    - Srta. Fields?
    Ela o encarava, pasma, como se estivesse frente a uma apario. David sentiu-lhe a mo gelada e, automaticamente, segurou-a pelo cotovelo. Andrea parecia prestes 
a desmaiar.
    -  melhor sentar...
    - O qu? - indagou ela, forando-se a reagir. - No, no. Eu estou bem...
    Enquanto falava, Andrea puxou o brao, para que ele parasse de toc-la.
    - Tenho dormido muito pouco, - "Afaste-se de mim", acrescentou mentalmente. - Fica satisfeita por termos fechado o negcio.
    Embora as faces de Andrea tivessem recuperado a cor e seus olhos voltassem a brilhar, David percebeu que ela ainda no estava bem.
    - Sente-se.
    - Por favor, eu...
    - Sente-se! - Segurando-a pelo brao, ele a forou a sentar-se. - Suas mos esto tremulas.
    Antes que pudesse evitar, David ajoelhava-se  sua frente.
    - Sugiro que cancele o tal compromisso e v dormir mais cedo.
    - No precisa se preocupar - ela comentou, apertando as mos sobre o colo para evitar que ele a tocasse de novo.
    - Sempre fico preocupado quando uma mulher quase desmaia a meus ps.
    O tom irnico inquietou-a mais uma vez.
    - Imagino. . .   - Ento, David segurou-lhe o rosto com ambas as mos. - Pare, sr. Brady.
    A pele alva era to macia quanto sugeria.
    - No tenha medo. Voc no faz o meu tipo.
    E, sem mais uma palavra, ele se retirou, deixando-a a ss. Ao ouvir a porta fechar, Andrea trouxe os joelhos para junto do peito e abraou-os. O que faria agora? 
Como escapar?
    
    
    CAPTULO 2
    
    Andrea pensou seriamente em parar numa lanchonete antes de ir jantar na casa de Clarisse mas, ento, reconsiderando, concluiu que talvez a fome a ajudasse a 
engolir com mais facilidade o que a dona da casa lhe servisse.
    Abrindo o teto solar, tratou de relaxar e aproveitar o passeio. Afinal, levaria no mnimo quarenta e. cinco minutos para ir do escritrio ao subrbio.
    Ao seu lado, no banco de passageiros, uma pasta de couro continha o novo contrato enviado pelo mensageiro de Brady. Todas as modificaes haviam sido feitas, 
no lhe deixando motivo para reclamao. Entretanto, um forte pressentimento a incomodava. No era nada de palpvel, concreto, apenas uma sensao estranha a lhe 
dizer que algo poderia acontecer caso Clarisse aceitasse trabalhar para David.
    Afastando tais pensamentos da mente, convenceu-se de que tudo no passava de falta de sono: a ameaa de desmaio no escritrio no dia anterior, o pressentimento, 
David Brady... No, ela no sentira nada por ele. Engano seu.
    Durante os vinte quilmetros seguintes, tratou de recuperar a calma e o autocontrole, antes que chegasse a Newport Beach. Afinal, no haveria como esconder tais 
sentimentos de Clarisse, caso ela notasse qualquer inquietao de sua parte. Teria que discutir o contrato e conversar a respeito de David com a maior naturalidade 
possvel, para no levantar suspeitas. Suspeitas? Que suspeitas?
    Por pouco no parou num telefone pblico cancelando o jantar, mas no teve coragem. Afinal, no era de seu feitio misturar vida pessoal com vida profissional. 
O interesse dos clientes vinha em primeiro lugar.
    Procurando se descontrair, ligou o rdio do carro bem alto at que estacionasse em frente  casa de Clarisse.
    Era com satisfao que Andrea admirava a casinha singela, porm confortvel, que to bem refletia a personalidade da dona. O gramado verdinho muito bem cuidado 
e as persianas brancas emprestavam uma aparncia alegre ao lugar.  verdade que com o sucesso de seus livros e seus cachs Clarisse poderia adquirir uma manso em 
Beverly Hills, mas era ali que ela se sentia  vontade. Alm do que, Clarisse gostava do sossego que s um bairro muito afastado poderia lhe proporcionar.
    Trocando de mo o pacote contendo as duas garrafas de vinho que trouxera para o jantar, Andrea empurrou a porta que, como de costume, estava aberta.
    - Ol! Algum em casa?
    - Oh, esqueci de fechar a porta outra vez? - Clarisse saiu da cozinha enxugando as mos no avental.
    - E se fosse um assaltante? Voc no aprende mesmo, no ? Encabulada, Clarisse ajudou-a com o pacote e a pasta, dando-lhe um beijo carinhoso.
    Respirando fundo, Andrea tentou adivinhar o que teriam para o jantar.
    - Hum... Torta de frango?
    - Acertou. Espere s at provar esta receita nova.
    - Ah...
    Ao recordar-se da ltima torta que Clarisse lhe servira, o riso desapareceu-lhe dos lbios. - Voc est linda, Clarisse. Aposto como tem feito um tratamento 
de pele num daqueles sales chiqurrimos.
    - Bem, devo confessar que sim. Afinal, so tantos problemas. . . No quero ficar toda enrugada. Lembre-se disso voc tambm!
    - Quer dizer que estou envelhecida? - disse Andrea em tom de brincadeira, ao colocar a bolsa sobre a mesa e livrar-se dos sapatos que a incomodavam.
    - Voc sabe que no quis dizer isso, mas estou notando que algo a preocupa.
    - Acho que  fome - afirmou, tentando despist-la. - Almocei apenas um sanduche.
    - Eu j lhe disse que deve procurar se alimentar direito. Mas, venha at a cozinha. Acho que a comida j est pronta para ser servida.
    Satisfeita por ter conseguido convenc-la, Andrea seguiu-a. Mas logo se assustou com as palavras de Clarisse:
    - A, ento, voc poder me contar a verdade.
    - Ora, voc  mesmo impossvel, no? - comentou Andrea no exato instante em que a campainha tocava,
    - Querida, se importa de atender a porta para mim? - indagou, um tanto aflita, por causa da janta que estava no fogo. - Preciso dar uma olhada no arroz. Tenho 
medo que grude.
    - J no bastava a torta e ainda, agora, o arroz... - comentou Andrea em voz baixa, caminhando em direo  porta com ares de desnimo.
    E foi assim que ela recebeu David Brady.
    - Puxa, que recepo!
    Ainda segurando o trinco, Andrea indagou, surpresa:
    - O que voc est fazendo aqui?
    - Vim jantar com Clarisse.
    E, sem esperar pelo convite, David atravessou a porta, parando ao lado de Andrea.
    - Voc  alta mesmo sem sapatos, no?
    Furiosa e confusa, Andrea fechou a porta com fora.
    - Ningum me disse que seria um jantar de negcios.
    - Talvez Clarisse o considere apenas uma reunio de carter social.
    Por que motivo ele no conseguira tir-la do pensamento desde que a conhecera? Talvez encontrasse uma resposta para sua dvida antes do final da noite.
    - Por que no o encara desta forma tambm, Andrea?
    - Est bem. S espero que goste de viver perigosamente - afirmou, com um riso divertido nos lbios.
    - Como assim?
    - Clarisse fez torta de frango.
    Esticando o brao, apanhou a garrafa de champanhe que ele tinha nas mos.
    - Bem, talvez isto ajude. Por acaso almoou hoje?
    Havia em seus olhos azuis um brilho vivo que ele no percebera quando a viu pela primeira vez. Um brilho vivo e muito atraente.
    - No entendo onde est querendo chegar.
    - Sinto no poder lhe adiantar mais detalhes. Voc s vai entender melhor quando sentarmos  mesa. Fique  vontade, David. Vou lhe preparar um drinque.
    - Andrea?
    - Sim?
    Ela j ia virar-se quando Clarisse surgiu na porta da cozinha.
    - Meu convidado j. . .? Ah, sim, era ele. Que timo.
    Detendo-se, a anfitri os examinou por um instante ali, parados, bem prximos um do outro. A aura que Clarisse via envolv-los era muito clara e brilhante.
    - timo mesmo - repetiu, mais para si mesma. - Estou feliz que tenha vindo, David.
    - Eu  que agradeo o convite.
    Ao caminhar at Clarisse, teve tempo de admir-la. Era uma mulher fabulosa.
    Aproximando-se, beijou-lhe a mo respeitosamente.
    Clarisse corou, lisonjeada.
    -Voc trouxe champanhe? Ora, quanta gentileza. Vamos abri-la assim que o contrato estiver assinado.
    Olhando por sobre o ombro de David, Clarisse deparou com a fisionomia contrada de Andrea.
    - Por que no prepara um drinque para vocs, Andrea?
    Vou servir o jantar daqui a pouco. A vodca  de confiana. Fui eu mesma que comprei - confessou a David e voltou para a cozinha.
    - Perfeito, aceito uma dose com gelo.
    Andrea foi at o bufe e apanhou os copos de cristal, reservados para ocasies especiais.
    - Puxa, que milagre! - exclamou. - Clarisse se lembrou de tirar o gelo.
    - A impresso que tenho  a de que vocs duas se conhecem muito bem.
    -  verdade - afirmou Andrea, aproximando-se com os drinques. - Para mim, ela  muito mais do que uma simples cliente.  por isso que me preocupo tanto com este 
documentrio, David.
    Ele, ento, aproximou-se para pegar o copo e, para sua surpresa, notou que Andrea usava um perfume muito suave que s se percebia ao chegar-se bem perto.
    - No entendo por que essa preocupao.
    J que iam tratar de negcios, a franqueza certamente devia imperar. Cuidadosa, Andrea deu uma olhada em direo  cozinha e, ento, comentou em voz baixa:
    - Clarisse  uma pessoa muito franca, muito aberta. Talvez at demais. Isto a torna vulnervel a todo tipo de problemas.
    - Est tentando proteg-la contra mim?
    - Ainda no sei se seria o caso - confessou, tomando um gole do drinque.
    - Gosto muito dela - comentou, pegando uma mecha dos cabelos de Andrea entre os dedos. O gesto foi to automtico que David nem teve tempo de refletir sobre 
o que fazia. Contudo, com a mesma rapidez, a soltou. - Clarisse  uma mulher adorvel - acrescentou, ao dar uma volta pela sala.
    Perturbado com sua prpria atitude, caminhou at a janela para ganhar distncia. Nunca agira daquela forma ao tratar de negcios com algum, muito menos com 
uma mulher que mal conhecia.
    No jardim, o gato estirado sobre o gramado aproveitava para aquecer-se sob os ltimos raios de sol, enquanto os pssaros vinham bebericar da gua com acar 
posta numa garrafinha prxima  janela.
    Procurando recompor-se, Andrea disse num tom profissional:
    - Fico satisfeita que se tenha dado to bem com minha cliente, mas suponho que o interesse pelo seu trabalho venha em primeiro lugar. Voc, naturalmente, far 
todo o possvel para garantir uma boa audincia.
    - Tem razo.
    "O que o teria levado a toc-la?", David se perguntava. Talvez fosse o fato de ela estar muito mais  vontade do que quando no escritrio. Andrea usava uma camisa 
de lingerie branca muito feminina e uma saia marrom. Alm de estar descala, os cabelos revoltos pelo vento acentuavam-lhe a aparncia descontrada. No se parecia 
em nada com a profissional compenetrada e sisuda que conhecera.
    David tomou mais um gole de vodca. Ainda assim, ela no fazia seu tipo.
    - Mas, se voc quer saber, no sou do tipo que tira vantagem das pessoas s para alcanar um objetivo. Apenas cumpro minha tarefa, Andrea, e espero o mesmo dos 
que trabalham para mim.
    - Nada mais justo - ela afirmou, terminando a bebida. - Mas quero deixar bem claro que minha tarefa  proteger minha cliente.
    - Entendo o que quer dizer e, de minha parte, no vejo problema nenhum quanto a isso.
    - O jantar est servido - comentou Clarisse, saindo da cozinha.
    Desta vez, no os encontrou prximos mas, sim, bastante afastados um do outro. No ar, pairava uma certa tenso, uma certa desconfiana que no lhe passou despercebida. 
Nada mais normal, concluiu, em se tratando de duas pessoas teimosas a defenderem pontos de vista diferentes. Curiosa, imaginou quanto tempo levariam para admitir 
a atrao que sentiam um pelo outro.
    - Espero que estejam com apetite. Andrea apoiou o copo vazio sobre o bufe.
    - David acabava de me dizer que est morto de fome. Acho bom voc servi-lo de um pedao generoso de torta.
    - Que bom - afirmou Clarisse, conduzindo-os  sala de jantar. - Adoro comer  luz de velas.
    Sobre a mesa, j aceso, um candelabro de duas velas emprestava ao ambiente uma atmosfera romntica que, segundo Andrea, melhorava a aparncia da torta.
    - Foi Andrea quem trouxe o vinho, portanto tenho certeza de que deve ser bom.
    - Sua torta est muito bonita - ele comentou, perguntando-se por que Andrea tentava disfarar um riso.
    - Obrigada. Me conte, David, voc nasceu aqui mesmo na Califrnia? - indagou, estendendo um prato para Andrea.
    - No, sou do Estado de Washington - ele respondeu, ao servir um copo de Beaujolas a Andrea.
    - O Estado de Washington  lindo - comentou a dona da casa, estendendo a travessa de arroz para que Andrea se servisse. - Mas faz muito frio por l.
    Com certa nostalgia, David recordou-se das tardes midas varridas pelo vento cortante.
    - Sim, mas logo me adaptei ao clima da Califrnia.
    - Fui criada na costa leste e vim para c com meu marido ha quase trinta anos, mas confesso que no outono ainda falta de Vermont. Andrea, voc ainda no comeu 
salada. Sabe como me preocupo com sua alimentao.
    Andrea serviu-se de algumas folhas de alface para no desapont-la, e sugeriu  anfitri:
    - Voc devia ir passar o Natal por l este ano.
    Aps a primeira garfada de torta, Andrea j recorreu ao vinho.
    - Tem razo - Clarisse disse. - J estive pensando nisso. Voc tem famlia, David?
    O primeiro bocado de torta que David provou quase o levou a nocaute. Como era possvel algum cozinhar to mal?
    - Perdo. O que foi que disse? - Perguntei se tinha famlia.
    - Sim - respondeu, olhando para Andrea, que o observava. - Tenho dois irmos e uma irm que moram no Oregon.
    - Eu tambm venho de uma famlia numerosa e tive uma infncia tima. - E, esticando o brao, tocou carinhosamente a mo de Andrea. - Ela foi filha nica.
    Sorrindo, Andrea retribuiu-lhe o carinho.
    - E tambm tive uma infncia maravilhosa.
    Ao v-lo servir-se de uma poro generosa de salada, Andrea percebeu o drama que David vivia. Ento, depois de uma breve pausa, indagou:
    - Por que este interesse por documentrios?
    - Sempre fui fascinado por curtas-metragens - comentou, fazendo uso generoso do saleiro.
    - E isto deixa voc realizado?
    V-lo fazer tanto sacrifcio para engolir o jantar era motivo de prazer para Andrea.
    - Plenamente.
    - Nunca teve vontade de tentar trabalhar com cinema?
    - No, gosto muito de televiso. - Bebeu mais um gole de vinho. - Pena que haja muita bobagem para se assistir hoje em dia.
    -Bobagem?
    -Sim; programas sem criatividade, que no instruem nem divertem.
    - Tem razo - concordou Andrea. - Mas acontece que estes so os que do as maiores audincias da televiso.
    - A  que est. Se este tipo de programa, com pouco contedo e muito brilho,  o que mantm um alto ndice durante tantos anos, significa que o pblico tem 
sido bombardeado com estas bobagens h muito tempo.
    - Mas nem todo mundo acha que um programa, para ser bom, tem que ter s um contedo muito elevado. O problema com a televiso governamental  que ela se coloca 
num pedestal, e se distancia muito do pblico. Resultado: sua audincia  das mais baixas. - Andrea tentava argumentar sem, no entanto, parecer rude. - Creio que 
uma pessoa que chega cansada do trabalho ou uma me de famlia que luta o dia todo tem o direito de assistir a algo que a divirta.
    - Concordo - ele afirmou, admirado com o entusiasmo com que ela defendia seu ponto de vista. Os olhos azuis brilhavam ainda mais, tornando-a muito atraente. 
- Mas esta pessoa pode se divertir assistindo a um programa que puxe pela inteligncia. A menos que esteja em busca de uma fuga da realidade.
    - Bem, creio que no assisto  televiso o bastante para fazer a distino - disse Clarisse, satisfeita ao v-los limpar o prato. - Andrea, voc no  empresria 
daquela atriz que trabalha no Imprio?
    - Audrey Cummings? Sim; uma atriz de muito talento. - Serviu-se de mais vinho. - J representou diversas peas de Shakespeare e agora acaba de assinar um contrato 
para representar o papel principal em Gata em Teto de Zinco Quente. Pousando o copo sobre a mesa, comentou irnica: -  incrvel que uma pea como essa ainda consiga 
fazer tanto sucesso, no acha?  Afinal, no poderia ser comparada a pera de Verdi, jogada no vdeo sem a mnima preocupao de explic-la ao grande pblico.
    Ela o provocara, mas David respondeu  altura:
    - Aposto como no assistiu  srie que retratou a vida e a carreira de Taylor Brooks - disse David. - Acho que foi o melhor programa que j vi sobre uma personalidade 
do rock.
    - Apanhando o copo, retribuiu a ironia: - Ele, por acaso, no  seu cliente, ?
    - No - disse Andrea, sem se deixar abater. - Fomos namorados e no costumo misturar assuntos pessoais com profissionais.
    - Faz bem - afirmou David, bebendo vinho. - Faz muito bem.
    - Mas gostaria que soubesse que no tenho preconceito com relao  televiso. Se fosse o caso, no estaria a ponto de contratar uma de minhas melhores clientes.
    - Mais torta? - interrompeu Clarisse, bem a tempo de evitar uma discusso.
    - Estou satisfeita - disse Andrea olhando para David. - Talvez nosso amigo aceite mais um pedao.
    - Sinto muito, Clarisse, mas j comi alm de meu limite.
    - E, levantando-se, ofereceu: - Me deixe ajud-la.
    - No, no - recusou Clarisse, pondo-se de p. - No se incomode; adoro o servio de casa. Andrea, creio que David ficou um pouco desapontado quando esteve aqui 
pela primeira vez. Por que no lhe mostra minha coleo?
    - Est bem. - E, virando-se para ele, disse: - Ela realmente simpatizou com voc. Clarisse no costuma mostrar sua coleo para estranhos.
    - Me sinto lisonjeado.
    Mas, ao caminharem por um corredor estreito, ele segurou Andrea pelo brao, detendo-a.
    - Voc preferia que meu relacionamento com Clarisse fosse estritamente profissional, no ?
    Levando o copo aos lbios, Andrea o observou por sobre a horda. Por razes que desconhecia, preferia que ele se afastasse de Clarisse. E dela tambm. - Clarisse 
 perfeitamente capaz de escolher seus prprios amigos. - E sua funo  proteg-la para que nenhum deles tire vantagem dela.
    -Exato. Por aqui, por favor. Virando-se, abriu uma porta do lado esquerdo do corredor.
    - Pena que no tenhamos trazido a vela. Criaria uma atmosfera mais propcia - ela comentou ao acender a luz, permitindo que David entrasse no pequeno aposento.
    Ali as janelas eram providas de cortinas pesadas e grossas que impediam a viso do jardim. Ele logo imaginou tratar-se de um artifcio para afastar os curiosos.
    Ao centro, sobre uma mesa, a bola de cristal que esperava ter visto quando de sua primeira ida  casa. No resistindo  curiosidade, aproximou-se para observar 
melhor o vidro translcido que refletia o azul profundo da toalha sobre a qual estavam colocadas, Cartas de taro, j bastante manuseadas, estavam espalhadas sobre 
a prateleira.
    Na parede, um pan tibetano representando uma divindade hindu. Numa mesinha de canto, prxima  janela, uma coleo de pirmides de todos os materiais e tamanhos 
imaginveis.
    - Era isto que voc esperava? - indagou Andrea aps alguns instantes.
    - No - comentou David, ao apanhar uma outra bola de cristal que, de to pequena, cabia na palma de sua mo. - Assim que conheci Clarisse soube que ela levava 
seus dons a srio.
    Procurando disfarar sua surpresa diante da resposta inteligente, Andrea tomou mais um gole de vinho.
    - Isso tudo aqui  um hobby de Clarisse. Ela adora colecionar estas coisas.
    - Ela nunca as utiliza?
    - No, s s vezes por brincadeira. Na verdade, tudo comeou h muitos anos quando uma amiga, em visita  Inglaterra, comprou este taro de presente para Clarisse. 
Dali em diante, ela comeou a colecionar objetos msticos. O cristal gelado o intrigava.
    - Voc desaprova?
    - Para mim,  indiferente - confessou, dando de ombros.
    - Alguma vez j experimentou ver o futuro na bola de cristal?
    - No, nunca.
    David percebeu que ela mentia.
    - Ento, no acredita em nada disso?
    - Acredito apenas em Clarisse; o resto  tapeao.
    Ele achava inacreditvel o poder de fascinao que esse tipo de assunto vinha exercendo sobre os homens atravs dos tempos.
    - Quer dizer que nunca pediu a ela que visse sua sorte?
    - Clarisse no precisa de bola de cristal; ela no prev o futuro.
    - Estranho - ele comentou, observando o objeto que tinha nas mos. -  de imaginar que com seus poderes ela pudesse ver o futuro.
    - Eu no disse que ela no pode; disse que no v.
    - Entendo.
    - Clarisse respeita muito o destino das pessoas, o futuro, e se recusa a fazer previses. J a vi rejeitar ofertas milionrias. 
    - Mas ela tem poderes para prever.
    - Tem, mas prefere no utiliz-los. Ela encara este dom como uma ddiva de Deus e raramente lana mo dele. Acho I que preferiria at perd-lo a us-lo de forma 
errada.
    O comentrio o fez recolocar o objeto sobre a estante e voltar-se para Andrea.
    - Perd-lo? Quer dizer que ela, como paranormal, poderia simplesmente deixar tais poderes de lado? Isto , bloque-los ou coisa assim?
    Andrea sentiu as mos suadas. - De certa forma, sim. A pessoa tem que estar receptiva aos fluidos que recebe e transmite. O grau de abertura depende unicamente 
da pessoa. __ Voc parece entender muito do assunto. Lembrou-se de como David era astuto e sorriu dando de ombros.
    - Conheo Clarisse muito bem e, se vocs conviverem bastante, ver que tambm vai ficar por dentro do assunto.
    Aproximando-se dela, David tomou-lhe o copo das mos e provou do vinho, j aquecido pelo toque de Andrea.
    -  impresso minha ou voc est pouco  vontade aqui nesta sala? Ou seria eu o motivo do desconforto?
    - Sua intuio pelo jeito no est funcionando muito bem.
    Caso se interesse, Clarisse pode lhe ensinar alguns exerccios para desenvolv-la.
    - Suas mos esto midas de suor.
    David segurou-as e, ento, deslizou a ponta dos dedos pelos pulsos delicados.
    - No preciso usar de intuio para saber que seu pulso est acelerado.
    Era vital para ela manter-se absolutamente calma. Encarando-o, conseguiu ensaiar um sorriso.
    - Acho que  por culpa da torta de frango.
    - Quando nos vimos pela primeira vez voc teve uma reao muito estranha.
    Andrea no poderia esquecer a noite que passara em claro pensando nele.
    - Eu j lhe expliquei.
    - Mas no me convenceu. Talvez seja por isso que tenha pensado tanto em voc.
    Tentando disfarar a inquietao, Andrea retomou o copo das mos de David e esvaziou-o, sempre evitando encar-lo.
    Contudo, logo constatou o engano que cometera. A colnia masculina que ele usava impregnara o copo. Procurando algo para dizer, comentou:
    - Lembre-se de que no fao seu tipo.
    - No, no faz - murmurou David, acariciando-lhe a nuca e os cabelos. - E isso importa?
    Ao v-lo curvar-se, Andrea percebeu que s teria duas opes: fugir ou manter-se absolutamente indiferente.
    Como a segunda lhe parecesse mais forte, resolveu aguard-lo, imvel.
    David sabia como provocar uma mulher, como persuadi-la. Pousando a boca bem de leve sobre seus lbios, continuou a acariciar-lhe a nuca.
    Andrea segurou o copo com mais fora, mas manteve-se imvel.
    Mais uma vez ele roou-lhe os lbios, tocando-os ligeiramente com a ponta da lngua, fazendo-a suspirar.
    Agitada, Andrea fechou os olhos enquanto ele deslizava a boca quente e sensual por seu pescoo. Nenhum dos dois notou quando o copo escapou-lhe das mos indo 
parar sobre o carpete.
    Uma fragrncia suave e feminina desprendia-se da pele de Andrea. Apoderando-se novamente dos lbios dela, percebeu que jamais esqueceria aquele aroma nem aquele 
momento.
    Desta vez, ela os tinha entreabertos, num convite, mas, ainda assim, David beijou-os com calma.
    Ao contrrio do que imaginara, Andrea era uma mulher sensual, ardente, vulnervel. Era preciso tempo at que se acostumasse  novidade. Ao se afastarem, embora 
tivessem apenas trocado um beijo ligeiro, ambos estavam visivelmente abalados.
    - Agora entendo melhor sua reao, Andrea.
    Andrea estremeceu. O sangue corria mais rpido em suas veias. No, no podia permitir-se tamanha fraqueza. Reunindo todas as suas foras, comentou:
    - Caso venhamos a fechar negcio. . .
    - E vamos.
    Bem, quero que saiba que no costumo dormir com qualquer um.  Nem com clientes, nem com scios.
    A notcia deixou-o satisfeito.
    - O que torna a escolha bastante restrita, no?
    - Isto  problema meu - respondeu num tom atrevido. - Minha vida pessoal s diz respeito a mim.
    -  de admirar que consiga isto numa cidade como Los Angeles,  mas. . . - David no resistiu ao impulso de tocar-lhe uma mecha de cabelo. - No lhe pedi que 
dormisse comigo.
    Andrea segurou-lhe o pulso com fora:
    - J que est avisado, estou certa de que no se arriscar a ser rejeitado.
    David deslizou um dedo por seu rosto.
    - Acha mesmo que eu no me arriscaria?
    - Pare!
    Ele limitou-se a balanar a cabea e observ-la com ateno. No; definitivamente ela no era s bonita, mas tambm bastante atraente.
    - O que existe entre ns, Andrea?
    - Hostilidade, David.
    Num gesto espontneo, ele deu uma sonora gargalhada que a deixou furiosa. E encantada com seu charme.
    - Talvez. Mas ns nos conhecemos h muito pouco tempo. H um minuto, eu imaginava qual seria a sensao de lev-la para a cama e fazer amor com voc. E, creia, 
isto no acontece com toda mulher que conheo.
    Novamente suas mos voltavam a suar.
    - Quer dizer que devo me sentir elogiada?
    - No. Acho apenas que o relacionamento entre ns ficaria mais fcil se nos entendssemos melhor.
    Andrea teve vontade de sair correndo, fugir dali.
    - Entenda uma coisa: sou empresria de Clarisse De Basse e cuido de todos os interesses dela. Caso tente desrespeitar seus dons ou exp-la ao ridculo, garanto 
que nunca mais voc chega perto dela. E Clarisse De Basse  o nico assunto que temos em comum.
    - O tempo  que vai dizer.
    Andrea deu um passo para trs, afastando-se.
    - Vamos tratar logo de assinar o contrato, sr. Brady disse, caminhando em direo  porta. - Tenho um compromisso amanh pela manh e no posso me demorar.
    
    
    CAPTULO 3
    
    Os inmeros detalhes tcnicos envolvidos na produo de programas foram discutidos entre David e sua equipe durante vrias reunies realizadas s vsperas da 
gravao.
    Elementos como iluminao, cenrios e maquilagem eram um verdadeiro desafio  criatividade do produtor e, exatamente, a parte do trabalho que David mais gostava 
de realizar.
    Sua reputao era a de um profissional competente, exigente e por vezes injusto. Como homem, o consideravam generoso e, de acordo com algumas mulheres, nem sempre 
terno.
    David costumava dar bastante liberdade de criao aos diretores com quem trabalhava. Desde que tal liberdade no afetasse seu ponto de vista pessoal sobre o 
assunto. Para isso, utilizava-se de sua habilidade nata de argumentar. Numa reunio de equipe, suas decises na maioria das vezes prevaleciam.
    Alis, este seu trao caracterstico tambm se mostrava uma constante nos relacionamentos pessoais.
    Tido como excelente amante, sabia exatamente como agradar a urna mulher. Sabia ser um perfeito companheiro nas horas difceis ou um namorado  antiga, presenteando 
a amada com buqus de rosas. Mas nenhuma mulher conseguia envolv-lo completamente, pois David fazia questo de impor os seus limites.
    Muitos diretores o consideravam intratvel mas, a um chamado seu, aceitariam com prazer uma oferta de trabalho num de seus documentrios. Muitas mulheres o consideravam 
frio e insensvel, mas aceitavam seus convites sem vacilar.
    Terminadas as reunies preliminares, acertados os detalhes, s lhe restava aguardar os resultados. Este documentrio sobre a paranormalidade tinha tudo para 
ser um sucesso: a equipe de profissionais fora escolhida a dedo e o empenho de todos superava as dificuldades econmicas.
    Aps haver conhecido Clarisse De Basse pessoalmente, o entusiasmo de David frente ao projeto redobrou e ficou decidido que o segmento do qual ela participaria 
seria o primeiro a ser gravado.                              
    Sua idia inicial de entrevist-la em sua prpria casa foi prontamente rebatida por um memorando de Andrea. A privacidade de Clarisse era algo sagrado.
    Evitando um confronto com a empresria, David providenciou a montagem de um cenrio que transmitisse ao pblico a mesma atmosfera acolhedora da casa de Newport 
Beach.
    Na tentativa de dar ainda mais credibilidade ao assunto abordado, o entrevistador escolhido foi o veterano Alex Marshall, cuja reputao e prestgio eram inabalveis. 
Alm do que sua figura carismtica e discreta h anos vinha sendo uma das preferidas do pblico.
    Tomadas as principais providncias, David deixou que sua equipe tomasse conta do resto. O diretor escolhido, um dos mais bem conceituados no ramo, por diversas 
vezes j trabalhara em parceria com David. Muitos dos documentrios produzidos por eles haviam sido premiados e, portanto, o relacionamento entre os dois no ofereceria 
problemas.
    - Ponham um filtro naquela luz - ordenou o diretor. - Sei que isto  apenas um cenrio, mas quero que o pblico sinta como se Clarisse estivesse em sua casa, 
na sala de visitas, conversando com cada um.
    Ento, voltando-se para Alex, pediu:
    Se estiver pronto, gostaria que ocupasse seu lugar e desse uma passada no texto de abertura enquanto checamos as luzes e o som.
    - Certo. - Relutante, Alex apagou o charuto cubano que fumava e ocupou o lugar indicado.
    Consultando o relgio, David constatou que Clarisse estava ligeiramente atrasada. Caso no aparecesse dentro de dez minutos, ele mesmo ligaria para Andrea. Afinal, 
era um timo pretexto para falar-lhe novamente.
    - David, por favor, me perdoe!
    Apressada Clarisse vinha pelo corredor em direo ao estdio. David saiu para encontr-la, Clarisse estava com a aparncia muito bem cuidada. O cabelo havia 
sido preso num coque alto que a rejuvenescia alguns anos. No pescoo, uma corrente de prata bastante moderna. O vestido azul ressaltava-lhe os olhos, do mesmo tom, 
muito bem maquilados. A mudana era inacreditvel.
    - Clarisse, voc est linda.
    - Obrigada, mas nem sei como consegui chegar a tempo. Confundi o dia da gravao e, se no fosse por Andrea, jamais me lembraria que tnhamos marcado para hoje.
    - Onde est ela? - David perguntou, olhando para o corredor.
    - Foi estacionar o carro.
    - Est pronta ou prefere tomar um caf antes de comearmos?
    - No, no. No gosto de estimulantes quando estou trabalhando; podem interferir na recepo dos fluidos.
    Ela ainda lhe apertava a mo quando comentou:
    - Voc me parece um tanto inquieto.
    David acabara de ver Andrea aproximando-se pelo corredor.
    - Isto sempre acontece em dias de gravao - disse, sem maiores explicaes.
    Por que nunca notara o andar de Andrea, to gracioso?
    - Tenho certeza de que no se trata disso - objetou Clarisse, apertando-lhe a mo de modo carinhoso. - Mas, no pretendo invadir sua privacidade. Ah, a est 
Andrea. Vamos comear?
    - Sim, vamos - comentou David, os olhos fixos na figura de Andra.
    - Bom-dia, David. Esperamos no t-lo atrapalhado com nosso atraso.
    Andrea mais uma vez adotava o mesmo ar profissional da primeira vez em que David a vira. Ele sentiu vontade de se aproximar para saber se usava a mesma fragrncia 
suave e marcante, mas, resistindo, segurou Clarisse pelo cotovelo c guiou-a at a porta do estdio.
    - No se preocupe. Voc vai assistir  gravao?
    - Claro.
    -  Por aqui, Clarisse - disse, abrindo a porta  prova de som. - Quero que conhea nosso diretor Sam Caldwell. Sam!
    David no parecia nem um pouco constrangido por interromper o trabalho do colega e Andrea notou que ele permaneceu onde estava, deixando que Sam viesse ao seu 
encontro. Ela mesma usara esta tcnica diversas vezes, numa demonstrao de poder.
    -  Esta  Clarisse De Basse.
    -  Muito prazer, sra. De Basse - disse, apertando-lhe a mo. - Li seus dois livros mais recentes para conhecer melhor o assunto.
    -   muita gentileza sua. Espero que tenha gostado.
    -  Sem dvida alguma; me fizeram pensar sobre coisas que jamais haviam passado por minha mente. So muito interessantes.
    -  A sra.  De Basse est pronta para comear -  David informou
    - timo.  Por favor, venha sentar. Vamos fazer os ltimos testes de luz e de som. Caldwell afastou-se levando Clarisse consigo. Sempre sob o olhar vigilante 
de Andrea. 
    -Costuma tomar conta de todos os  seus  clientes  desta forma? Satisfeita em ver Clarisse to bem, Andrea voltou-se para ele.
    - Sim. E aposto que  voc faz o mesmo com seus diretores.
    - Tem razo. Venha, teremos uma viso melhor daqui.
    Enquanto David a encaminhava para um cantinho  esquerda do estdio, Andrea observava Clarisse sendo apresentada a Alex Marshall.
    Alto e elegante, o simptico entrevistador estendeu-lhe a mo. Os cabelos grisalhos formavam um belo contraste com o bronzeado perfeito...
    - Excelente escolha - ela comentou com David.
    - Alex     uma   das   figuras  mais populares  da  televiso norte-americana.
    -  Sem dvida. Com sua inteligncia  capaz de fazer muito entrevistado passar por bobo.
    -  No se preocupe. Clarisse no  menos inteligente do que Alex e saber perfeitamente se defender.
    -   o que eu espero.
    -  Telefonei para o seu escritrio na semana passada - ele comentou.
    -  Eu soube. Minha assistente no entrou em contato com voc?
    -  No era com ela que eu queria falar.
    -  Tenho estado muito ocupada.  Vocs  fizeram um belo trabalho no cenrio. Ficou muito parecido com a sala de visita de Clarisse.
    -  A idia era exatamente esta. Por que est tentando me evitar, Andrea?
    Bloqueando-lhe a viso, ele obrigou-a a encar-lo.
    Contrariada, Andrea mediu-o dos ps  cabea com uma expresso fria no olhar.
    -  Simplesmente porque no estou interessada.
    -  Pena que Clarisse tenha atrapalhado um pouco seus planos ao assinar o contrato - disse David, deslizando um dedo pelo broche em forma de meia-lua que Andrea 
usava na gola da blusa.
    De antemo, ela j sabia o que teria que enfrentar ao encontr-lo de novo e inmeras vezes ensaiara suas respostas. Contudo, naquele instante, a situao no 
lhe parecia to fcil.
    -  David, voc no me parece ser do tipo que gosta de ser rejeitado.
    Ele continuava a deslizar o dedo pelo broche enquanto a encarava.
    -  Nem voc me parece do tipo que mente. Sei que est atrada por mim; por que fingir o contrrio?
    -  Voc  muito pretensioso - mentiu, disfarando a emoo. - E agora, por favor, saia da minha frente, pois est atrapalhando minha viso.
    Sem uma palavra, David sorriu com malcia e afastou-se.
    Mais quarenta e cinco minutos se passaram antes que as gravaes comeassem. Inmeros detalhes de ltima hora iam sendo resolvidos  medida que apareciam.
    Como estivesse s, Andrea esperou com calma. David ajudava o diretor junto ao cenrio.
    Clarisse, sentada confortavelmente no sof, aguardava o incio das filmagens bebericando um copo de gua. Contudo, conhecendo-a bem, Andrea percebeu que sua 
calma era apenas aparente, pois de vez em quando Clarisse olhava em sua direo com uma expresso um tanto aflita. Felizmente resolvera acompanh-la, pois, embora 
estivesse ali como mera espectadora, sua presena transmitia-lhe alguma segurana.
    A gravao comeou muito bem, com Alex fazendo perguntas s quais Clarisse respondia com objetividade. A conversa  em torno de premonio, clarividncia e astrologia.
    Um dos motivos que a tornavam to solicitada para entrevistas a sua capacidade de traduzir em linguagem leiga os termos usados para descrever fenmenos paranormais. 
Quanto a este aspecto, Andrea estava despreocupada, pois sabia que Clarisse no teria dificuldades.
    
    O trabalho j durava horas. Um mesmo assunto chegava a ser regravado trs ou quatro vezes a pedido do diretor que sempre tinha um detalhe a corrigir.
    Como empresria, Andrea ficou muito satisfeita com o empenho da equipe na busca da perfeio. Contudo, sua satisfao durou pouco. Na verdade, acabou-se no instante 
em que um dos assistentes apareceu com um baralho.
    Ao v-lo, Andrea quase deu um passo  frente, porm, Clarisse fez-lhe um sinal discreto indicando que tudo estava bem. Sem que ela percebesse, David havia se 
aproximado. - Algum problema? - ele perguntou quase sussurrando. Andrea lanou-lhe um olhar letal e voltou a se concentrar na gravao.
    -  Voc no mencionou nada disso no contrato - ela falou.
    -  Est se referindo s cartas? - indagou surpreso, olhando em direo ao cenrio. - Mas eu discuti com Clarisse a esse respeito.
    - Da prxima vez, discuta comigo, Brady.
    David j ia responder-lhe  altura quando a voz possante de Alex ecoou pelo estdio.
    - Sra, De Basse, o uso de cartas para testar poderes extra-sensoriais  algo bastante comum, no?
    - Sim, embora constituam um teste muito elementar. Elas so usadas, tambm, na averiguao do grau de telepatia.
    - Soubemos que a senhora j foi submetida a este tipo de teste em diversas universidades norte-americanas e, tambm, em vrias instituies britnicas.
    - Sim,  verdade.
    - Poderia, ento, nos explicar qual o processo utilizado nestas experincias?
    - Pois no.   As cartas usadas nos laboratrios no so como as do baralho comum. Geralmente so de duas cores e com desenhos diferentes: quadrados, crculos, 
linhas onduladas, etc. Atravs destes elementos  possvel determinar at que ponto a adivinhao aconteceu por causa da probabilidade e at que ponto existe algo 
mais, algo especial na pessoa examinada.
    Todos no estdio prestavam muita ateno no que Clarisse dizia. Ela continuou:
    - Veja: havendo duas cores h uma possibilidade de cinqenta por cento de acerto.  Caso a pessoa acerte a cor da carta, digamos, sessenta por cento das vezes 
 sinal de que  dotada de um certo poder extra-sensorial.
    - A coisa me parece bem simples.
    - Seria, caso as cartas fossem lisas, mas os desenhos dificultam muito o teste. Numa seqncia de vinte e cinco cartas o examinador pode determinar, atravs 
do nmero de acertos, at que ponto a pessoa testada  um paranormal. Quinze acertos numa seqncia de vinte e cinco  considerado um resultado excelente, o que 
comprovaria a paranormalidade do examinado,
    - Ela  tima - comentou David em voz baixa.
    - Claro que sim - retrucou Andrea, disfarando a irritao.
    - Poderia nos dizer como  que o processo funciona, no seu caso, por exemplo? - pediu Alex, segurando o baralho nas mos. - A senhora tem algum pressentimento 
quando a carta  apanhada?
    - Pressentimento, no - ela corrigiu. - A pessoa v uma imagem.
    - Mas, trata-se de uma imagem verdadeira da carta? Clarisse sorriu com pacincia.
    - Sim. O senhor  um homem que l muito, no, sr. Marshall?
    - Sim, leio.
    - Pois ento. Quando uma pessoa l um livro, vai criando certas imagens na mente. O processo  o mesmo com as cartas.
    - Entendo - comentou o entrevistador, visivelmente intrigado, assim como os demais presentes. - Quer dizer que envolve um pouco de imaginao.
    - Para se desenvolver os poderes extra-sensoriais  preciso controlar a imaginao e aguar a concentrao.
    - Ento, est ao alcance de qualquer indivduo?
    - Ainda no se tem certeza; pesquisas tm sido feitas a este respeito. H os que crem que os poderes extra-sensoriais podem ser adquiridos e h os que defendem 
a tese de que certas pessoas j nascem com este dom.
    - E qual a sua opinio particular?
    - Acredito que todos ns nasamos com estes poderes, s que poucos os desenvolvem. Muitos preferem ignor-los, por ser mais cmodo.
    - Seus dons j foram confirmados por diversas instituies, mas gostaramos, se possvel, de uma demonstrao.
    - Claro.
    - Aqui est um baralho comum, adquirido esta manh por um membro de nossa equipe. A senhora ainda no o manuseou, certo?
    - No, ainda no. Na verdade, detesto jogar cartas - disse Clarisse com um riso nos lbios. O diretor ficou encantado com sua naturalidade.
    - Agora vejamos.  Se eu apanhar uma carta e segur-la assim. - Alex apanhou uma do meio do baralho e segurou-a de frente para si. - Pode me dizer qual ?
    - No - afirmou Clarisse, sempre sorrindo. Assustado, o diretor quase mandou que suspendesse a gravao quando ela, ento, explicou:
    - O senhor tem que olhar para a carta, sr. Marshall, concentrar-se nela e projet-la em sua mente.
    Alex seguiu as instrues.
    - Creio que o senhor no est se concentrando muito. Mas, como todos esto vendo, trata-se de uma carta vermelha. - O estdio inteiro no conteve o riso. Ento, 
com o olhar fixo no apresentador, afirmou decisiva: - Nove de ouros.
    A cmara focalizou a fisionomia surpresa de Alex antes que virasse a carta de frente para a lente. Nove de ouros.
    Escolhendo mais uma carta, repetiram o mesmo processo at que, na terceira, Clarisse fez uma pausa.
    - O senhor est tentando me confundir pensando numa carta diferente da que tem na mo. Isto me atrapalha um pouco, mas, me parece que  um dez de paus.
    - Incrvel! - afirmou Alex ao virar o dez de paus para a cmera. - Simplesmente incrvel.
    Ainda admirado com o teste, Alex deixou o baralho de lado e prosseguiu com a entrevista.
    - A senhora comeou sua carreira como quiromante, no foi?
    - Sim, h muito tempo. Tecnicamente qualquer pessoa pode fazer a leitura de mos, basta estudar e interpretar as linhas.
    Sorrindo, estendeu as mos para que o entrevistador as visse.
    - Cada linha representa um aspecto da vida: financeiro, emocional, intelectual. Um bom livro destes que esto  venda nas livrarias indica exatamente como interpret-las. 
Uma pessoa sensitiva na verdade no as l mas, sim, absorve os fluidos da pessoa que tem diante de si.
    Curioso, Alex estendeu-lhe suas mos.
    - No entendo como a senhora poderia captar meus fluidos simplesmente olhando para minhas mos.
    - A pessoa os transmite da mesma forma que o faz com as emoes: tristeza, alegria, entusiasmo. Olhando para as linhas de sua mo, posso afirmar que o senhor 
tem uma capacidade incrvel de comunicao e uma situao financeira bastante slida, mas isso no seria novidade para ningum. No entanto, se me permite. . .
    Clarisse segurou-lhe uma das mos entre as suas.
    - Segurando-a posso dizer que. . . - Imediatamente ela se calou, assustada e, arregalando os olhos, encarou-o. - Oh...
    Seguindo um impulso, Andrea levantou-se mas David a deteve.
    - Deixe-a a vontade - disse. - Lembre-se de que isto  um documentrio e, como tal, no pode parecer que foi ensaiado. Caso ela nos pea, eliminaremos esta parte.
    - Est bem.
    As mos de Clarisse estavam geladas sob a de Alex que, tentando disfarar a apreenso, indagou num tom divertido:
    -  algo assim to grave?
    - No, no.
    Pigarreando, Clarisse voltou a sorrir.
    -  que o senhor emana vibraes muito fortes, sr. Marshall.
    - No sei se isto  bom, mas agradeo. Recobrando a calma, ela prosseguiu.
    - O senhor  vivo h quinze ou dezesseis anos e foi excelente marido para sua esposa. E muito bom pai, tambm. Pode se orgulhar disto.
    - Aprecio muito, sra. De Basse, mas nada do que disse  novidade.
    Indiferente ao comentrio, Clarisse continuou:
    - Seus dois filhos j esto formados, o que o deixa mais tranqilo. Eles nunca lhe deram preocupaes, a no ser durante a adolescncia do mais velho, quando 
surgiram pequenas desavenas. Mas isto  comum.
    Alex j no sorria mais. Atnito, observava-a com muita ateno.
    - Sim,  verdade.
    - O senhor  um perfeccionista, tanto na vida profissional quanto em casa. Isto criou uma srie de dificuldades para o rapaz, que nunca conseguia satisfaz-lo. 
Mas, agora que ele est para se tornar pai, as coisas melhoraram bastante. O espanto do entrevistador era indisfarvel.
    - A idia de ser av o agrada, embora o faa pensar mais seriamente sobre o futuro. Mas deixe de pensar em se aposentar; o senhor est no auge da carreira e, 
ativo como , no vai se contentar em levar uma vidinha pacata, pescando no seu barquinho.
    Ento, receando tornar-se indiscreta, desculpou-se.
    - Perdo. Sempre me entusiasmo quando encontro algum com mos to interessantes.
    - No precisa se desculpar; a senhora  mesmo fantstica.
    - Corta!
    Caldwell ficou encantado e satisfeitssimo com o desempenho e a desenvoltura de Clarisse frente s cmeras. Quem poderia imaginar que Alex estivesse pensando 
em se aposentar?
    - Quero ver esta gravao dentro de meia hora.   Alex, muito obrigado. Comeamos muito bem, sra. De Basse. - Um tanto relutante, estendeu-lhe a mo. - A senhora 
esteve sensacional.
    Antes que terminassem os cumprimentos, Andrea j previa o que ia acontecer. Alis, como sempre. Em questo de segundos Clarisse estaria cercada por diversos 
elementos da equipe, pedindo-lhe que lesse suas mos ou lhes dissesse quando iriam ganhar na loteria.
    - Se j tiver sido dispensada, posso lhe dar uma carona at sua casa - Andrea se ofereceu, aproximando-se.
    - No, no quero que se incomode comigo - disse Clarisse, olhando  sua volta para descobrir onde havia deixado a bolsa. - Newport Beach fica completamente fora 
de mo para voc.
    - Faz parte do meu trabalho - afirmou, entregando-lhe a bolsa que guardara consigo durante toda a gravao.
    - Oh, obrigada, querida. Ando to distrada. . .  Pode deixar que eu apanho um txi.
    - Temos um motorista  sua disposio. - David no precisou olhar para Andra para saber que estava aflita para sair dali. - No teria cabimento deix-la voltar 
de txi.
    - Muito obrigada,  muita gentileza.
    - Mas, no ser necessrio - acrescentou Andra.
    - Concordo - retrucou Alex, segurando as mos de Clarisse. - Espero que a sra. De Basse me d a honra de sua companhia para um jantar. Depois, ento, eu a deixarei 
em casa.
    - Eu adoraria - respondeu Clarisse antes que Andrea pudesse abrir a boca. - Espero no t-lo constrangido, sr. Marshall.
    - Nem um pouco. Para ser sincero, fiquei fascinado.
    - Que timo. Bem, obrigada por me acompanhar, querida - disse a Andrea, beijando-a carinhosamente. - Fico mais tranqila tendo-a por perto. Boa-noite, David.
    - Boa-noite, Clarisse. Alex, at amanh.
    Parado ao lado de Andrea observou-os afastarem-se de braos dados.
    - Formam um belo par, no acha?
    Furiosa, Andrea voltou-se para ele com vontade de esgan-lo.
    - Ora, no me amole!
    Ela j ia a meio caminho da porta quando David a deteve.
    - Ei, o que houve? - indagou-lhe, sorrindo.
    - Quero ver aqueles ltimos quinze minutos de gravao, e, caso no me agradem, vo ser cortados!
    - No me recordo de nenhuma clusula do contrato que lhe desse o direito de opinar sobre a edio do documentrio.
    - Nem eu me lembro de alguma que se referisse ao fato de Clarisse ser submetida a um teste.
    - Est bem. Mas qual o problema?
    - Ora, voc assistiu  gravao!
    Sentindo necessidade de extravasar sua raiva, Andrea saiu depressa pela porta de vidro;
    - Sim, assisti - disse, detendo-a mais uma vez. - Mas no vi nada de errado.
    - Ela estava apenas disfarando, David. - Nervosa, passou a mo pelos cabelos. - Clarisse teve algum pressentimento assim que segurou na mo de Alex. Assistindo 
ao teipe voc vai notar,
    - E da? D mais veracidade  gravao.
    - Ora, o que me interessa a veracidade? - explodiu. - No gosto de v-la sofrer emoes muito fortes. Preocupo-me com ela enquanto pessoa e no apenas como cliente.
    Sem esperar que ele dissesse algo, Andrea andou depressa pelo corredor, transpondo a porta externa.
    - Est bem, est bem - concordou David, alcanando-a. - Mas ela me pareceu perfeitamente bem ao sair daqui.
    - Mas no gosto disso - insistiu Andrea, descendo os degraus que levavam ao estacionamento. - Como se no bastassem as cartas. . . Detesto v-la sendo testada.
    - Andrea, isto  natural. Clarisse j fez este mesmo teste em inmeros institutos do mundo inteiro.
    - Sei disso. E fico furiosa com o fato de ter que ficar constantemente comprovando seus poderes. Alm do mais, tenho certeza de que algo a impressionou ao ler 
a mo do entrevistador. - Sem se deter, continuava a caminhar em direo ao carro. - Droga! Nem tive tempo de perguntar a ela o que houve e aquele grandalho j 
a levou para jantar.
    - Alex? - No podendo conter o riso, David explodiu numa gargalhada sonora. - Andrea, voc  tima. Nunca ouvi ningum se referir a ele como "grandalho".
    O fato de David estar se divertindo  sua custa aumentou-lhe o dio.
    - Ah, ento voc acha engraado, no ? Uma mulher inocente, ingnua, sai para jantar com um estranho e isso  motivo de riso. Se algo lhe acontecer...
    - Acontecer? Deus meu! Andrea, Alex Marshall no  um manaco.    um homem muito srio, respeitado por todos.
    Quanto a Clarisse, creio que j tenha idade suficiente para escolher as prprias companhias. No precisa de ningum que lhe d conselhos. Que mal pode haver 
neste encontro?
    - Encontro? Aquilo no foi um encontro.
    - A mim, pareceu.
    Andrea deteve-se, comeou a dizer algo, mas mudou de idia e continuou a caminhar.
    - Olhe, espere um pouco. Eu disse espere, Andra! - Segurando-a pelos braos, ele a obrigou a parar, encostando-a contra um carro estacionado. - No pretendo 
correr atrs de voc pela cidade inteira.
    - Ento, volte para o estdio e d uma olhada naquele teipe. Quero assisti-lo amanh pela manh.
    - Tudo bem, vai mandar uma cpia para voc amanh. Mas gostaria que soubesse que no costumo receber ordens nem de empresrios nem de ningum. Vamos esclarecer 
isto j: no sei o que est havendo, mas no creio que possa estar to preocupada s pelo fato de uma cliente ter sado para jantar.
    - Acontece que ela no  s minha cliente! - Erguendo o rosto, encarou-o e confessou: -  minha me!
    A confisso deixou-os atnitos por alguns segundos. David continuava a segur-la pelos braos enquanto ela tentava recuperar a calma.
    "Como no percebera antes?", indagou-se ele. O rosto, os mesmos olhos azuis. Sim, principalmente os olhos...
    -  Puxa... Nem sei o que dizer.
    - Nem eu. Oua, ningum deve saber disso, est bem?
    - Por qu?
    - Porque ns decidimos que seria melhor assim. Nosso relacionamento  algo que s diz respeito a ns duas.
    -  Tudo bem. - David preferiu no interferir na privacidade de Andrea. - Isto explica seu interesse por Clarisse, mas acho que voc exagera um pouco.
    - No me importa o que voc pensa! - Sua cabea comeava a latejar. - Me perdoe. Preciso ir embora.
    - No - ele protestou, impedindo-a de afastar-se. - Muitas pessoas podem estranhar esse interesse todo por ela.
    - Isso no  da sua conta.
    Andrea estava plida e muito agitada.
    - Claro que . Gosto de Clarisse e tenho o direito de me preocupar com a vida dela.
    - Voc no compreende - murmurou Andrea.
    - Compreende o qu?
    - E se Alex Marshall pression-la a conceder-lhe uma entrevista durante o jantar? E se ele quiser ficar a ss com ela para poder convenc-la?
    - E se ele estiver interessado apenas na companhia de uma mulher fascinante e atraente? Clarisse  uma mulher adulta.
    - No quero que se decepcione - comentou, cruzando os braos.
    David podia argumentar e tentar convenc-la, mas percebeu que seria intil.
    - Vamos dar uma volta de carro.
    - O qu?    .
    - Vamos dar uma volta, voc e eu. Este carro em que est encostada  meu.
    - Ah, me desculpe. Tenho que voltar ao escritrio - alegou, afastando-se do carro. - Preciso cuidar de uns negcios pendentes.
    - Isto pode esperar at amanh, j  tarde - disse David ao tirar as chaves do bolso e abrir a porta. - Um passeio pela praia  muito relaxante.
    Sem dvida, um pouco de ar fresco lhe faria bem. Talvez no fosse boa idia ir acompanhada por ele, mas resolveu arriscar.
    - Est bem, vamos.
    
    Realmente o passeio lhe fez bem. O vento morno, o cheiro do mar. David manteve-se calado o caminho todo dando-lhe a chance de desfrutar aqueles minutos de silncio 
e tranqilidade.
    H quanto tempo no se dava ao luxo de sair de carro pela praia, sem hora para voltar, sem compromisso? Andrea no se recordava. Fechando os olhos, reclinou 
a cabea contra o encosto do banco e procurou no pensar em mais nada.
    ''Quem era ela, afinal?", indagava-se David, ao observ-la relaxar no banco a seu lado. Seria a profissional competente que lhe extraiu dez por cento a mais 
do bolso? Ou a filha zelosa, preocupada com o bem-estar da me? Ele no saberia dizer.
    David estava acostumado a julgar as pessoas, e o fazia com freqncia em sua profisso. Como cercar-se de bons profissionais se no soubesse distingui-los? No 
entanto, ao beij-la pela primeira vez, deparou-se com uma surpresa. Esperando encontrar uma mulher fria e indiferente com quem pensava estar lidando, descobrira 
outra, sensvel e amorosa. A impresso que tinha era a de que Andrea tentava desesperadamente passar uma falsa imagem de si mesma. Talvez no quisesse que as pessoas 
a vissem como uma mulher vulnervel. O mistrio aguou-lhe a curiosidade.
    - Com fome?
    Sonolenta, Andrea abriu os olhos e virou-se para fit-lo.
    Os olhos dela mais uma vez lembraram os de Clarisse. Como foi que no percebera antes? Talvez tambm tivesse os mesmos. . . No, no.
    - Perdo. O que disse?
    - Perguntei se est com fome, Andrea.
    - Sim, muita - admitiu, endireitando-se no assento.  - Onde estamos?
    - A uns trinta quilmetros do estdio. Agora, vou deixar a seu cargo a deciso: prefere comer um hambrguer naquela lanchonete ali adiante ou prefere jantar 
neste restaurante?
    - Prefiro comer um hambrguer sentada na praia.
    - timo.
    David estacionou o carro e, ao descerem, perguntou:
    - O que vai querer?
    - Um hambrguer, uma poro grande de batatas fritas e um milk-shake,
    - Uau! S isso?
    Enquanto aguardavam o pedido, observaram algumas pessoas que passeavam pela areia.
    - Onde vamos sentar? - ele quis saber.
    - Ali adiante. Acho que  um bom lugar.
    Sem constrangimento, Andrea tirou os sapatos de salto e caminhou pela areia at o local escolhido, onde sentou-se.
    - Raramente venho  praia - comentou.
    De p, David observou a saia de linho justa subir-lhe at a coxa. Ento, sentou-se ao lado dela.
    - Nem eu - afirmou, imaginando-a num biquni minsculo. Ento, Andrea mudou de assunto.
    - Creio que exagerei um pouco, l no estdio, no?
    - Creio que sim - concordou, entregando-lhe o sanduche e as batatas.
    - Detesto agir assim - confessou, mordendo o hambrguer. - No sei por que, mas isto s acontece quando Clarisse est envolvida.   Nunca me comporto assim com 
os outros clientes.
    - Quando o relacionamento envolve emoo, fica difcil manter a objetividade.
    - Ela  uma pessoa to boa - comentou, mordiscando uma batata. - E muito fcil mago-la, pois Clarisse  muito aberta, muito generosa.
    - Por este motivo voc gosta de proteg-la.
    - Isso mesmo.
    - Gostaria de saber o que faz voc se sentir responsvel por sua me.
    Andrea lanou um olhar perdido em direo ao mar e sorriu.
    - Minha infncia foi muito difcil.
    Andrea nunca discutira o assunto com estranhos. Mas, tambm, nunca sentara na praia para comer um hambrguer. Por que no tentar?
    - Clarisse sempre foi uma me maravilhosa: carinhosa, compreensiva.
    - E seu pai?
    - Morreu quando eu tinha oito anos. Ele era vendedor e raramente passava mais de uma semana em casa. - Ento, recordando-se daqueles tempos, explicou: - Ele 
ganhava bem, tnhamos uma boa reserva, mas as contas nunca eram pagas. Clarisse no se lembrava. Inmeras vezes tivemos o telefone cortado por falta de pagamento. 
Acho que foi ento que comecei a tomar conta dela.
    - Mas voc era muito jovem, no?
    - Sim, mas no me importava. Eu sabia administrar a casa muito melhor do que ela. Quando Clarisse comeou a usar seus poderes, utilizando a quiromancia como 
pretexto para fazer as consultas, nosso oramento melhorou um pouco e ela, ento, abandonou os afazeres domsticos. Foram tempos estranhos para mim. Muitos vizinhos 
estavam sempre l em casa, consultando mame, mas, quando nos encontravam na rua, era como se no nos conhecessem.
    - Imagino como deve ter sido difcil para voc.
    - Sim. Era como se as pessoas tivessem medo de se aproximar de algum com poderes paranormais. Mas, Clarisse parece que nunca percebeu o que acontecia. At que 
um dia, atravs de um conhecido, ela foi apresentada  famlia Van Camp. Nesta poca eu devia ter uns doze ou treze anos. A primeira vez que uma artista entrou l 
em casa, eu fiquei pasma. Depois de um ano, passou a fazer parte da rotina.
    Aps beber um pouco do milk-shake, ela prosseguiu:
    - Conheci diversos atores que no aceitavam um papel sem consult-la. Mas Clarisse nunca tomou uma deciso por ningum e sempre aconselhava as pessoas a seguirem 
a prpria intuio. Ento, aconteceu o rapto de Matthew Van Camp e no tivemos mais sossego: a imprensa acampou em frente  nossa casa e o telefone no parava de 
tocar. Depois disso, ela resolveu mudar-se para Newport Beach, onde pde viver em paz.
    - E quanto ao caso Ridehour?
    Andrea levantou-se subitamente e caminhou at bem perto do mar. David acompanhou-a.
    - Voc no faz idia de como ela sofreu naquela poca. - Com a voz embargada pela emoo, Andrea cruzou os braos em torno dos ombros. - Eu queria det-la, mas 
no pude.
    Quando a viu fechar os olhos, David tocou-lhe de leve no ombro.
    - Por que det-la se ela podia ajudar?
    - Porque ela sofria demais. Clarisse viveu o drama muito antes de ser chamada a ajudar, - Ento, abrindo os olhos, acrescentou: - Entende o que quero dizer?
    - No, acho que no...
    - Nem conseguiria. S quem passa por tudo isso pode saber como . Cinco jovens assassinadas... Clarisse nunca comentou nada a respeito, mas tenho certeza de 
que ela previu tudo, um por um dos assassinatos.
    Balanando a cabea, Andrea tratou de afastar tais pensamentos.
    - Ela considera este dom como um presente de Deus, mas s vezes se torna um fardo difcil de carregar.
    - Voc gostaria que ela bloqueasse este poder, se  que isto  possvel?
    Andrea sorriu e ajeitou os cabelos despenteados pelo vento.
    - Sim, mas sinto que o fato de ajudar as pessoas  vital para ela. Portanto, j desisti da idia. S cuido para que no se envolva com as pessoas erradas.
    - E quanto a voc? - ele quis saber. David podia jurar que a pergunta pegou-a de surpresa, - Tornou-se empresria s para proteg-la?
    - Em parte - confessou, j mais  vontade. - Mas gosto muito do que fao e sei que cumpro bem o meu papel.
    - E por acaso sabe se proteger to bem quanto Clarisse?
    - Sim, sei.
    Novamente ele percebeu que Andrea se inquietava, mas continuou com o assunto.
    - E do que  que voc se defende?
    - J est ficando tarde, David.
    - Tem razo.
    Estendendo o brao, ele deslizou a mo pelo pescoo delicado. A pele alva convidava ao toque.
    - Eu nunca cheguei a beij-la de fato, no , Andrea? As mos de David deixaram-na arrepiada.
    -  melhor assim.
    - Talvez seja mesmo. S no entendo por que tenho tanta vontade de beij-la.
    - Isto passa com o tempo.
    - Por que no fazemos uma experincia? - ele sugeriu, olhando-a com um brilho divertido nos olhos. - Estamos num local pblico; eu no poderia tentar tirar proveito 
da situao. Talvez consigamos descobrir o que nos deixa to inquietos toda vez que estamos juntos.
    Abraando-a pela cintura, David a trouxe para junto de si. Andrea estremeceu.
    - Est com medo?
    - Nem um pouco.
    Decidida a no deix-lo perceber o quanto estava agitada, Andrea resolveu representar uma cena. Num gesto sbito, enlaou-o pelo pescoo e, ao v-lo surpreso, 
pressionou os lbios contra os dele.
    David podia jurar que a areia movera-se sob seus ps e que as ondas batiam com mais fora contra os rochedos. A inteno inicial de fazer apenas uma experincia 
se transformou em algo totalmente diferente quando sentiu o sabor dos lbios de Andrea.
    Surpreso com sua prpria reao, abraou-a com mais fora e beijou-a de modo possessivo, deliciando-se com a sensao de t-la em seus braos.
    Foi tudo to rpido que Andrea no teve tempo de reagir. Embora a conscincia insistisse em alert-la, pressionou o corpo contra o de David, dando vazo ao desejo 
que a consumia.
    Sentindo-o abra-la com mais fora, entrelaou os dedos entre os cabelos dele, gemendo baixinho.
    Uma gaivota passou, barulhenta, afastando-se em seguida,
    Ao se afastarem, Andrea deu um passo para trs e arrepiou-se quando uma rajada de vento os atingiu. Ento, comeou a caminhar pela areia. David a segurou pelo 
brao.
    - Venha para casa comigo.
    Voltando-se, Andrea o encarou. Os olhos de David refletiam o desejo que o consumia. No, no poderia ir. Caso fosse, jamais se perdoaria.
    - No - disse, a voz tremula. - Eu no quero ir, David. No quero me envolver.
    - Nem eu.
    Ele ento afastou-se, arrependido por ter tentado levar a situao adiante.
    - Mas creio que isto no vai fazer diferena.
    - Como no? Temos controle sobre nossos destinos.  - Muito sria, ela olhou para o mar. - Sei exatamente o que quero e o que no quero para mim.
    - Os objetivos de uma pessoa mudam.
    Por que argumentava daquela maneira se pensava da mesma forma que Andrea?
    - S se permitirmos.
    - E se eu dissesse que desejo voc?
    Andrea, com o corao acelerado, teve que reunir todo seu autocontrole para impedir que sua voz a trasse.
    - Eu diria que est cometendo um erro. Voc tinha razo quando disse que no fao seu tipo.  melhor confiar na sua intuio. E, agora, gostaria que me levasse 
de volta. Quero telefonar para Clarisse e saber como ela est.
    Mais uma vez ele a tocou.
    - Voc no vai poder us-la como desculpa por muito tempo. Indignada, ela o olhou com uma expresso arrogante.
    - H uma grande diferena entre ns, David: eu no uso as pessoas.
    
    
    CAPTULO 4
    
    Os raios prateados do luar invadiam o quarto, projectando sombras no assoalho de tbuas largas. No ar, o aroma adocicado e suave de jasmim.
    Numa das paredes havia um quadro, traos indistintos em vermelho e lils contra uma tela branqussima. Andrea parou para observ-la e admirou-se com a energia 
e o movimento das formas.
    Do outro lado, um espelho imenso ocupava quase toda a parede. Andrea viu-se refletida nele. Uma imagem irreal, quase fantasmagrica, misturada aos raios de luar 
e  escurido do quarto. A impresso que teve foi a de que poderia atravess-lo e sumir para sempre.
    Assustada, Andrea estremeceu. Havia algo de muito estranho em sua prpria imagem refletida no espelho.
    A intuio disse-lhe que sasse dali o quanto antes e, obedecendo-a, virou-se em direo  porta.
    Mas, naquele exato instante, David bloqueou-lhe a passagem. Ao observ-la, viu o desejo e a impacincia refletidos em seus olhos e teve medo. Medo da violncia 
de suas prprias emoes.
    "Eu no quero". . .
    Andrea no sabia ao certo se chegara a diz-lo ou se apenas pensara nisso, mas a resposta de David foi bastante clara:
    - Voc no pode continuar fugindo, Andrea. Nem de mim nem de si mesma.
    Ento, ela entrou por um tnel muito escuro, cujas paredes pareciam envolv-la.
    Quase sem flego, sentou-se na cama, agitadssima. Seu corpo tremia incontrolavelmente e, ao olhar pela janela, constatou que os primeiros raios de sol j atravessavam 
a veneziana do quarto. Sim, estava em seu prprio quarto. .. Nada de perfume de jasmins no ar ou o espelho imenso na parede.
    Tudo no passara de um sonho, disse a si mesma diversas vezes. Um pesadelo. Mas, por que precisava ter sido to real? Ela quase pudera sentir a presena de David, 
os olhos escuros de paixo. . . Por que, por que sonhara com David Brady?
    Havia diversas explicaes lgicas para sua pergunta.
    H duas semanas que ele no lhe saa do pensamento; Clarisse s falava no tal documentrio e o excesso de trabalho no escritrio mal lhe dava chance de dormir 
oito horas por noite. Cansao, preocupao, tenso.
    Ou talvez ela se obrigasse a mergulhar no trabalho para que no tivesse tempo de pensar em outros assuntos. Assuntos, estes, que requeriam muito mais do que 
concentrao.
    Embora no passasse das seis horas da manh, Andrea decidiu no dormir mais. No gostaria de arriscar fechar os olhos e ver a continuao do pesadelo. Jogando 
as cobertas para o lado, levantou-se: duas xcaras de caf bem forte a poriam em forma novamente. O dia ia ser dos piores no escritrio e precisaria de todas as 
suas energias para enfrent-lo.
    A cozinha era espaosa e bastante funcional. Mesmo passando pouqussimo tempo ali, Andrea fazia questo de mant-la bem abastecida.
    Sobre o balco de madeira, inmeros eletrodomsticos reluziam.                                                                               
    Andrea foi at o armrio, apanhou o p de caf e ligou a cafeteira eltrica. Quinze minutos mais tarde, ao sair do banho, o aroma inconfundvel da bebida j 
se espalhava pelo apartamento. Tomou, ento, a primeira xcara de uma s vez. Depois, completou-a novamente e levou-a consigo para o quarto.
    Abrindo a agenda, conferiu os compromissos do dia: uma reunio s dez horas com um cliente do tipo nervozinho que recebera uma oferta de trabalho para uma minissrie 
de televiso; reunio ao meio-dia com sua equipe de trabalho no escritrio; almoo de negcios com o ator mais requisitado da atualidade, Bob Hopewell; e, finalmente, 
os compromissos de rotina na parte da tarde.
    Decidiu-se por uma roupa elegante e prtica: um tailleur leve na cor pssego. Como de costume, em menos de quinze minutos j estava completamente vestida em 
frente ao espelho. Em busca de um acessrio, apanhou o broche em formato de meia-lua. Enquanto o colocava na gola, o pesadelo da noite veio-lhe de novo  mente. 
Nele, sua imagem refletida no espelho no era a de uma mulher confiante e segura de si, mas de algum inseguro, vulnervel.
    Esticando o brao, tocou a superfcie lisa e fria do espelho. A imagem que tinha diante de si era a da verdadeira Andrea Fields, a outra no passava de um sonho. 
Na realidade, jamais se permitiria ser frgil. Como empresria numa cidade como Los Angeles seria massacrada pelos concorrentes caso desse demonstrao de fraqueza. 
Como mulher, se colocaria em posio de desvantagem perante os homens.
    Admirando-se uma ltima vez, fechou o armrio e apanhou a pasta de couro. Vinte minutos mais tarde chegava ao escritrio.
    
    Na verdade, o fato de ser a primeira a chegar no era indito. Desde o incio de sua carreira, ao alugar sua primeira sala num edifcio de terceira categoria, 
Andrea desenvolvera o hbito de ser a primeira a chegar ao servio. Hbito que conservava at ento, mesmo contando com vrias pessoas para assessor-la.
    Acendendo a luz, observou os reflexos emitidos pelos enfeites de lato, que combinavam perfeitamente com a cor da parede. Jamais se arrependera de ter contratado 
um profissional para cuidar da decorao. O ambiente era discreto, elegante e transmitia solidez. Um leigo no assunto jamais obteria tal resultado.
    Consultando o relgio, percebeu que poderia fazer alguns interurbanos para a Costa Leste, cujo fuso horrio era trs horas mais adiantado do que em Los Angeles.
    Deixando apenas a luz da recepo acesa, trancou-se em sua sala e, em menos de meia hora, j havia resolvido diversas questes pendentes com clientes seus em 
Nova York e Washington.
    Satisfeita, resolveu dedicar-se  leitura de alguns contratos antes que o expediente comeasse. Foi ento que ouviu passos na recepo.
    A princpio imaginou que fosse um dos funcionrios mas, reconsiderando, percebeu que nenhum deles costumava chegar meia hora antes do expediente. Decidida a 
ver quem estava l, aproximou-se da porta quando os passos cessaram. Pensou em gritar por socorro, porm logo mudou de idia. Seria intil. Engolindo em seco, apanhou 
um objeto de metal bastante pesado.
    Os passos recomearam indicando que o intruso se aproximava. Respirando fundo, ergueu o objeto com uma das mos enquanto girava o trinco da porta com a outra. 
David conseguiu segurar-lhe o pulso antes que ela o atingisse.
    -   assim que recebe seus clientes, Andrea?
    -  Droga! - Aliviada, deixou o objeto cair sobre o carpete.
    -  Voc me assustou, David. O que faz por aqui a esta hora?
    -  O mesmo que voc. Acordei cedo.
    Como seus joelhos tremessem, incontrolveis, Andrea caminhou at a poltrona e sentou-se.
    -  A diferena  que eu trabalho aqui. O que deseja, David?
    -  Eu poderia alegar que senti sua falta.
    -  Ora, no me venha com essa.
    -  Bem, a verdade  que estou de partida para Nova York, onde farei algumas filmagens, e gostaria que voc desse um recado para Clarisse.
    Pura mentira. Mas, ele no se incomodava de mentir; aquela fora a nica maneira que encontrara de vir v-la antes de partir. Ao acordar aquela manh, havia procurado 
arranjar uma desculpa que o levasse ao escritrio de Andrea, mas jamais poderia admitir a verdade a uma mulher como ela que, ou sairia correndo, ou o poria dali 
para fora.
    -  Est certo - concordou ela j  procura de um bloco de anotaes. - Darei o recado. Mas, da prxima vez, lembre-se de que muita gente j morreu por entrar 
de surpresa num lugar assim como voc acaba de fazer.
    -  A porta estava destrancada e, como no havia ningum na recepo, decidi ver se encontrava algum aqui dentro, antes de deixar um bilhete.
    A explicao pareceu-lhe bastante razovel mas, ainda assim, no o perdoou pelo susto.
    -  Qual o recado?
    David no fazia a menor idia. Enfiando as mos nos bolsos, correu os olhos pelo ambiente sbrio de tons pastel. Tudo ali permanecia na mais absoluta ordem. 
At mesmo os papis sobre a mesa estavam perfeitamente empilhados.
    -  Bonito lugar. Voc  mesmo muito ordeira, no?
    -  Sim, sou - respondeu, impaciente. - Qual o recado para Clarisse?
    -  Por falar nisso, como vai ela?
    -  Muito bem.
    Dando uma volta pela sala, David aproximou-se de um quadro numa das paredes. Era uma marina em tons azulados que transmitia  uma incrvel sensao de paz.
    -  Lembro-me de que voc estava preocupada com  resultado do encontro entre ela e Alex.
    -  Clarisse se divertiu muito e me contou que Alex  um cavalheiro: muito educado e muito inteligente.
    -  Isso aborrece voc?,
    -  Ela nunca sai com homens. Isto , no para um encontro. Sentindo que agia como uma tola, Andrea levantou-se e foi
    at a janela. ,- Algum problema, Andrea?
    -  No, claro que no. S que.. .
    -  S que...
    Ela sabia que no deveria discutir este assunto com David mas, antes que pudesse se conter, as palavras escaparam-lhe da boca.
    -  Ela fala de Alex com tanto entusiasmo, com tanto carinho. . . Os dois passaram o domingo todo juntos velejando no barco dele. Que eu me lembre, ela nunca 
subira num barco antes.
    -  E da?  uma experincia nova,
    -  E disso que tenho medo - confessou num tom baixo. - Sabe o que  ver sua prpria me apaixonada?
    -  No - ele admitiu, recordando-se do relacionamento entre seus pais. No, nunca houve paixo entre eles. - Creio que no.
    -  Bem, posso dizer que no  muito agradvel. Afinal, o que sei sobre Alex? Que  bonito, educado? At a, nada de novo. Alex j jogou seu charme para cima 
de uma centena de mulheres.
    -  Andrea - disse ele num tom divertido, juntando-se a ela -, j percebeu como est agindo? Parece at a me de uma adolescente apaixonada. Se Clarisse fosse 
apenas uma mulher de meia-idade, voc j no teria com que se preocupar. Mas, no acha que o fato de ser uma paranormal a deixa em vantagem perante o resto da humanidade?
    -  A emoo pode atrapalhar seus poderes, David, e impedi-la de ver as coisas com clareza.
    -  A emoo est atrapalhando voc tambm, Andrea? - David percebeu que a fisionomia dela se contraiu. - Ela est permitindo que seu amor por Clarisse faa com 
que exagere um pouco nas preocupaes. Talvez fosse uma boa idia transferir um pouco desta afeio para outro alvo.
    -  Ela  a nica pessoa a quem posso dedicar meu carinho.
    -  E quanto   s  suas necessidades pessoais?  Nunca pensa nisso? Seu lado emocional - murmurou, tocando-lhe de leve os cabelos. - Seu lado fsico. ..
    -  Quer fazer o favor de parar com essa conversa? Andrea teve mpetos de se afastar mas ele continuou a acarici-la.
    -  Sua ttica talvez afaste outros homens. Mas, comigo, no vai funcionar.
    -  No sei por que achei que poderia confiar em voc.
    -  Mas confiou.
    -  Por que no me deixa em paz? - implorou recordando-se do pesadelo daquela noite. O medo, o desejo. . .
    -  Porque desejo voc.
    David se aproximou dela, deliciando-se com a fragrncia suave, quase imperceptvel. quela distncia, pde ver o turbilho de emoes estampado nos olhos azuis.
    -  Quero ficar com voc durante horas e horas num lugar tranqilo, sossegado...  S assim saberei o que existe de to especial em voc que me faz perder o sono.
    Andrea sentiu a garganta seca e as mos geladas.
    -  J lhe disse que no durmo com qualquer um.
    -  timo, assim no haver motivo para comparaes. Naquele instante, ouviram um rudo vindo da recepo.
    -  Parece que j  hora do expediente. Ah, s mais uma coisa, Andrea. No sei quando nem onde, mas quero avis-la de que ainda passaremos vrias noites juntos. 
Pense nisso.
    O primeiro impulso de Andrea foi o de agredi-lo, mas resolveu apelar para o seu senso de profissionalismo.
    -  David?
    Antes de abrir a porta, ele voltou-se com um riso nos lbios.
    -  Sim?
    -  Qual o recado para Clarisse?
    -  Ah, o recado? Diga-lhe que mandei lembranas. At mais.
    
    David no fazia idia das horas ao entrar na sute que ocupava num amplo hotel de Nova York.
    Seu plano inicial era o de permanecer dois dias ali na cidade, mas alguns detalhes haviam fugido do seu controle, obrigando-o a estender a estada.
    De manh, ao sair, deixara instrues  camareira para que no tocasse nas pilhas de papel espalhadas pela mesa. E, de fato, encontrou-as exatamente como as 
deixara.
    A jornada mdia de trabalho destes trs dias de filmagens tinha sido de doze horas, depois das quais a equipe, exausta, era dispensada.   
    Antes de dedicar-se  organizao dos planos para o dia seguinte, resolveu pedir uma xcara de caf ao servio de copa.
    Duas horas mais tarde, chegou  concluso de que a viagem estava sendo bastante proveitosa, apesar dos imprevistos.
    O Instituto Danjason de Parapsicologia o impressionara pelo excesso de formalidade. Jamais poderia imaginar que uma instituio dedicada ao estudo de uma cincia 
to recente pudesse ser 'to tradicionalista. A linguagem dos cientistas com quem conversara era to tcnica que David chegou a temer que os telespectadores pegassem 
no sono ao ouvi-los. Era preciso verificar a edio deste segmento pessoalmente.
    Os testes, contudo, foram bastante interessantes, uma vez que os cientistas se utilizavam de paranormais e de pessoas comuns. O uso de computadores e outros 
aparelhos modernos emprestava seriedade ao trabalho realizado ali, que ainda contava com pouca divulgao.
    Bastante interessante, tambm, foi a entrevista com um corretor da Bolsa de Valores de Nova York que se valia de seus poderes paranormais para fazer negcios.
    David deu uma tragada no cigarro e observou a fumaa subir em direo ao teto.
    Sem fazer segredo do fato, o rapaz enriquecera em pouco tempo. Segundo ele, seu dom podia ser comparado a uma outra habilidade qualquer, tal como escrever muito 
bem ou falar com desenvoltura. Alm disso, diversas empresas do mundo todo j se utilizavam de pessoas paranormais para fechar negcios vultosos. Na opinio do jovem 
superdotado, o poder extra-sensorial devia ter encarado como um recurso a mais que a humanidade poderia contar. Assim como o uso de um computador ultra-sofistcado.
    As palavras do corretor o faziam pensar em Clarisse. Ela, na sua linguagem simples, atingiria muito mais os telespectadores.
    Balanando a cabea, David procurou afastar aquele pensamento. Temia se envolver muito com o assunto e perder a imparcialidade.
    Dando uma ltima tragada no cigarro, o amassou com fora no cinzeiro. Mesmo pensando com objetividade sobre o assunto, no podia deixar de ver Clarisse como 
o centro de todo o documentrio. Por que tambm no coloc-la nos outros programas? Fechando os olhos, pde imaginar o resultado: entre uma entrevista e outra com 
os cientistas formais e sua linguagem tcnica, a figura simples e acessvel de Clarisse conversando com Alex a respeito dos mesmos assuntos de forma muito mais descontrada. 
Contrastes, ngulos diferentes, informao, tudo girando em torno dela.
    Ainda assim, precisava de algo mais forte, com apelo dramtico suficiente para garantir a audincia. Isto o fez pensar em Clarisse e a famlia Van Camp. Tinha 
que conseguir aquela entrevista. . . E, se possvel, mais uma com algum envolvido no caso Ridehour. Ms, para tanto, precisaria enfrentar Andreia.
    Quantas vezes pegara-se pensando nela nestes ltimos dias? Muitas. Quantas vezes deixou que sua mente divagasse, trazendo  lembrana aqueles momentos passados 
na praia? Diversas. Quantas vezes desejou poder t-la novamente em seus braos? Inmeras.
    Andrea. Era perigoso pensar nela como a mulher amorosa e vulnervel que conhecera, ou melhor, descobrira por trs da profissional competente e cuidadosa.
    Num impulso, apanhou o telefone e discou o nmero que j sabia de cor. Na quarta chamada, ela atendeu.
    -  Fields.
    -  Oi.
    -  David?
    Andrea segurou a toalha que tinha enrolado no cabelo, antes que casse.
    - Sim, como vai?
    -  No momento, estou completamente molhada. - Trocando o gancho do telefone de mo, apanhou um robe sobre a cama. - Acabei de sair do chuveiro. Algum problema 
por a?
    "Apenas um", pensou consigo. "Estou a mil e quinhentos quilmetros deste corpo que me enlouquece de desejo." Esticando o brao apanhou o mao de cigarros e constatou 
que fumara o ltimo h poucos minutos.
    - No, por qu? Deveria haver?
    -   que no estou acostumada a receber telefonemas a esta hora, a menos que se trate de emergncia. Quando foi que voc voltou?
    -  Ainda no voltei.
    -  Quer dizer que est falando de Nova York?
    -  Exato.
    David esticou-se na cadeira e fechou os olhos. Estranho, mas, at aquele momento, no percebera como era bom ouvir a voz suave de Andrea.
    -  E voc j acordou? - ela perguntou com ironia. - A ainda deve ser dez horas da manh.
    -  Ainda no deitei - ele respondeu, sem dar importncia ao tom usado por Andrea.
    Antes que pudesse evitar, a* toalha desprendeu-se e caiu no cho. Indiferente, ela passou a mo pelos cabelos molhados.
    -  Entendo...  A vida noturna de Manhattan  muito variada, no?
    Abrindo os olhos, David observou as pilhas de papis espalhadas pela mesa, os cinzeiros cheios de cigarros e as xcaras de caf vazias.
    -  Nem diga - comentou.
    -  Bem, mas voc deve ter tido um motivo muito importante para interromper seus afazeres e me telefonar. O que houve?
    -  Simplesmente queria falar com voc.
    -  Foi o que imaginei - disse, curvando-se para apanhar a toalha. - Sobre o qu?
    -  Nada.
    -  David, voc andou bebendo?
    Ele se aprumou novamente na cadeira.
    -  No, no. Ser que no podemos bater um papo amigvel, sem compromisso?
    -  No sei se isso  possvel entre produtor e empresria.
    -  O que acha de tentarmos? - sugeriu.  - Como tem passado?
    Cautelosa, Andrea sentou-se na beirada da cama.
    -  Bem, e voc?
    -  Est vendo? J  um comeo. Tenho estado exausto. Passei quase o dia todo de ontem entrevistando cientistas e parapsiclogos que se utilizam de computadores 
e equaes matemticas. Conversei com uma moa que afirma ter tido experincias extracorporais, ou seja, experincias em que  possvel fazer o esprito desprender-se 
do corpo e, depois, retornar. Uma espcie de sono consciente.
    Andrea  achou graa.
    -  J ouvi falar sobre isso.
     Diz ela que foi at a Europa dessa forma.
    - Bem, pelo menos, economizou a passagem.
    - Tem razo.
    A conversa ia, aos poucos, tornando-se interessante. - Est tendo  dificuldade em separar o joio do trigo, David? - indagou.
    - Acho que sim. De qualquer forma, acho que ainda vamos permanecer na Costa Leste por mais algum tempo. H uma quiromante famosa em Maryland, uma casa que  
tida como assombrada pela alma de uma garota na Virgnia e um hipnotizador na Pensilvnia, especializado em regresso.
    -  Puxa, fascinante! Pelo jeito, vai se divertir um bocado.
    -  No creio que voc tenha algum negcio  a tratar por aqui, tem?
    -  No, por qu?
    -  Digamos que eu esteja com saudade...
    Andrea tentou ignorar o fato de que tambm sentia falta dele.
    -  Voc me deixa sem jeito.
    -  Ora, nada de charme, Andrea.
    Reclinando-se na cama, tentou recordar-se de quando fora a ltima vez em que se permitira namorar ao telefone. Mas, afinal, que mal faria sentir-se adolescente 
por alguns momentos. E, numa atitude impensada, disse
    -  Quando  que voc volta?
    -  Talvez na quarta ou na quinta-feira da semana que vem.
    -  Tenho dois ingressos para a estria de Double Buff na sexta-feira que vem. Hastings  Reed   meu cliente. Aceita ir. comigo?
    David foi pego de surpresa pela mudana repentina de atitude dela. Mas procurou manter um tom de voz casual.
    -  Est me convidando para um encontro?
    -  E por que no?
    -  Irei busc-la   sexta-feira.
    - s oito, est bem? - combinou, j meio arrependida. - Agora, trate de dormir. Vou trabalhar.
    -  Andrea?
    - Sim?
    -  Pense em mim.
    -  At logo, David.
    Andrea desligou o telefone e sentou-se na cama. O que a teria feito agir daquela forma? J se tinha decidido a ceder os ingressos para alguma amiga, pois no 
gostava muito de sair  noite. E, pior, sabia que qualquer proximidade com David poderia ser muito perigoso. . .
    H quanto tempo no se permitia ser cortejada por um homem? A ltima vez fora h muitos anos e as conseqncias desastrosas ainda estavam bem vivas na sua lembrana. 
Mas, desta vez seria diferente, disse a si mesma. Agora era uma mulher adulta, autoconfiante, capaz de tratar de negcios com homens muito mais difceis do que David 
Brady.
    Suspirando fundo, olhou de relance para o relgio. Era melhor comear a se vestir, caso contrrio chegaria atrasada ao escritrio.
    
    
    CAPTULO 5
    
    Entusiasmada, Andrea comprou um vestido novo. Afinal, como empresria do ator principal, tinha que estar impecvel na estria.
    s cinco para as oito, em frente ao espelho do armrio, admirou-se uma ltima vez. Talvez devesse ter escolhido algo mais simples, ponderou. Mas qual o problema? 
No iria ao cinema na posio de profissional e, sim, de convidada.
    Virando-se para a direita e para a esquerda, concluiu que ao menos tivera o bom senso de escolher um vestido preto. De corpo justo, alas finas e profundo decote 
nas costas, o traje a fazia sentir-se feminina e provocante, acentuando-lhe as curvas perfeitas normalmente escondidas pelas roupas conservadoras que usava para 
trabalhar.
    Um tanto insegura, resolveu levar o casaco do mesmo tecido que acompanhava o vestido. Mais tranqila, escolheu uma corrente delicada para usar rente ao pescoo 
e calou os sapatos. Nesse instante, a campainha soou.
    Sem se apressar, apanhou a carteira prateada sobre a cama e caminhou at  a  porta. Tentando manter a calma, repetia-se mentalmente que encarasse o encontro 
como uma experincia a mais e, respirando fundo, recebeu-o.
    Andrea no esperava que ele lhe trouxesse flores, pois David no lhe parecia ser do tipo romntico. Como ambos ficaram surpresos e um tanto sem jeito, permaneceram 
imveis por alguns segundos, admirando-se mutuamente.
    David nunca a vira to bonita. Bonita no, pensou; simplesmente admirvel. O vestido, de tecido fino e leve, moldava-lhe o corpo esguio de modo provocante, insinuante, 
possibilitando mil fantasias.
    Resoluto, deu um passo  frente. Pigarreando, Andrea deu um passo para trs.
    -  Voc foi pontual - comentou, ensaiando um sorriso.
    -  J me arrependo de no ter chegado mais cedo - ele disse, entregando-lhe as rosas.
    Embora tivesse vontade de abra-las e deliciar-se com o perfume, Andrea manteve a mesma atitude casual, aceitando-as com naturalidade.
    -  Obrigada, so lindas. Gostaria de um drinque enquanto as coloco na gua?
    -  No.
    Para ele, observ-la j era o suficiente.
    -  Volto num minuto.
    Andrea afastou-se sob o olhar atento de David, deslumbrando-se com as costas perfeitas expostas pelo decote. Excitado, quase chegou a mudar de idia quanto ao 
drinque.
    Procurando desviar a mente de tais pensamentos, olhou ao redor de si. Ali no apartamento, como no escritrio, tudo permanecia na mais perfeita ordem. Nada de 
estofados floridos ou cortinas de babado. Apenas cores neutras e mveis de linhas retas. De certa forma o ambiente no refletia a personalidade da moradora, cuja 
verdadeira natureza era a de uma mulher ardente e apaixonada.
    Naquele instante, Andrea voltou com as rosas, que colocara num vaso de cristal belssimo.
    -  Bem, acho que podemos ir. Chegando mais cedo poderemos ver as estrelas de Hollywood descendo dos carros luxuosos. E muito diferente de v-las no escritrio, 
tratando de negcios.
    -  Voc est parecendo uma feiticeira - ele murmurou. - A pele branca contra o vestido negro. . .  puro feitio.
    Andrea apanhou o casaco, sentindo as mos tremulas.
    -  Uma de minhas antepassadas foi queimada viva por ser considerada bruxa.
    -  Isto no me espanta - comentou, ajudando-a a vestir o casaco.
    -  Foi na Europa,  durante a Inquisio. -  Prendendo a respirao procurou ignorar-lhe o  toque macio das mos em seus ombros. - Na verdade, tinha os mesmos 
poderes de Clarisse, mas havia algo de especial nela. Segundo alguns documentos que Clarisse pesquisou, era uma moa de vinte e cinco anos muito simptica. Porm, 
cometeu o erro de alertar os vizinhos para um incndio que no chegou a acontecer na data prevista.
    -  E s por isto ela foi morta?
    -  As pessoas reagem de modo violento diante do desconhecido.
    -  Gravamos uma entrevista com um corretor da Bolsa de Nova York que est fazendo fortuna com seu dom de prever o que est por acontecer.
    -  Os tempos mudam - afirmou, apanhando a bolsa. Ento, deteve-se  porta e comentou: - Esta nossa antepassada era muito pobre. Ela se chamava Andrea.
    Como David no dissesse nada, sugeriu;
    -  Vamos?
    -  Assim que a porta se fechou, David lhe segurou uma das mos e, muito srio, falou:
    -  Estou percebendo que o fato de ter tido uma ancestral queimada como feiticeira  muito traumtico para voc.
    Dando de ombros, Andrea livrou-se do toque dele e apertou o boto do elevador.
    -  E poderia ser diferente?
    -  . . .   no poderia. Mas voc devia tentar no ficar to preocupada.
    -  Acontece que a reao das pessoas diante da paranormalidade sempre fica num extremo: ou condenam ou se encantam. E eu no gosto disso.
    Ao entrarem no elevador, David arriscou:
    -  E voc faz tudo para livrar Clarisse dos extremos.
    -  Exato.
    -  Manter escondido que voc  filha dela tambm.  uma forma de se defender?
    -  No preciso me defender de minha me! - respondeu, no podendo conter a raiva. -  apenas uma questo de convenincia; facilita o meu trabalho.
    -  Bastante lgico. Alis, como tudo no seu modo de pensar e agir.
    Andrea no sabia ao certo se aquelas palavras eram um elogio.
    -  Eu  no gostaria  de ver meu escritrio   cheio de  gente tentando prever o futuro. Seu carro est longe?
    -  No, est bem aqui em frente. Andrea, eu no quis critic-la, apenas perguntei.
    Respirando fundo, ela tentou recuperar a calma.
    -  No estou vendo seu carro - comentou, olhando de relance para uma limusine estacionada  porta do edifcio.
    -   aquele ali.
    -  Puxa! Que beleza! - disse espantada.
    -  Fico feliz que tenha gostado. - O motorista desceu para abrir a porta. - A idia era mesmo agradar voc.
    Andrea j tinha andado de limusine diversas vezes. Ou acompanhando clientes importantes, ou levando-os ao aeroporto. No entanto, jamais vira uma to luxuosa. 
Relaxando-se no assento aveludado, viu David tirando uma garrafa de champanhe de dentro do balde de gelo.
    -  Hum.. . Flores, limusine e, agora, champanhe.. . David, estou impressionada, mas. . .
    -  No v estragar tudo, por favor - ele pediu. - Lembre-se de que estou dando o melhor de min para que voc goste da minha companhia. - Esticando o brao, ofereceu-lhe 
uma taa. - Alis, como estou me saindo?
    -  At aqui, muito bem - afirmou, provando do champanhe. - Nunca fui to mimada.
    -  E como est se sentindo?
    -  Confesso que estou gostando. Eu poderia ficar passeando horas e horas.
    -  Por mim, no existe nenhum problema - disse David, deslizando um dedo pelo pescoo dela numa carcia insinuante.
    -  Podemos ir assistir ao filme um outro dia. O que acha?
    O movimento lento do toque de David a fez estremecer de medo e prazer. Pelo visto, toda sua experincia com os homens de nada valeria diante de David Brady. 
Conhec-lo melhor era uma aventura fascinante e ao mesmo tempo perigosa.
    -  Creio que no seja uma boa idia. Pelo visto, voc freqenta sempre as estrias aqui, no?
    -  Engano seu.
    -  Com tudo isso. . .  - ela olhou a sua volta. - Eu no acredito.
    -  Diz isto por causa da limusine? - ele indagou, erguendo um brinde. -  que esta noite me pareceu muito especial. - Fitando-a com ateno, reparou no modo 
descontrado e elegante como ela se sentava no banco. Era uma elegncia nata, natural, que a fazia destacar-se diante das outras mulheres que j conhecera. - E voc? 
Costuma vir com freqncia s premires?
    -  No; detesto este tipo de evento.
    -  Verdade?
    -   verdade.- ela disse, bebendo champanhe.
    -  Ento,  por que  viemos?
    -  Para  experimentar -  disse-lhe, de  modo   significativo, depositando a taa no suporte enquanto o motorista estacionava.
    -  S para experimentar.
    Havia uma verdadeira multido aglomerada  entrada do cinema  espera das personalidades ilustres que, aos poucos, iam chegando. Os flashes das mquinas fotogrficas 
espocavam repetidamente e os reprteres tentavam a todo custo entrevistar os convidados.
    -  Emocionante, no acha? - comentou David ao dirigi-la  entrada.
    -  No, nem um pouco - respondeu Andrea, tentando fugir das cmeras. - Vamos procurar um lugar mais tranqilo.
    -   o que estou tentando fazer.
    -  Andrea! Querida, que prazer!
    Antes que pudesse perceber o que estava havendo, Andrea viu-se abraada, com muito entusiasmo, por Merinda MacBride, uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood.
    -  Merinda! Como vai?
    -  Mais aliviada agora que a vi. Estas festas so uma loucura!
    Merinda brilhava da cabea aos ps, ou melhor, dos brincos imensos de brilhantes at os sapatos prateados. Muito simptica, lanou um olhar carinhoso a Andrea.
    -  Voc est linda! - disse Andrea, com sinceridade. - Obrigada. Voc veio sozinha?
    -  No, no; vim acompanhada por David. - Aps uma breve hesitao, fez as apresentaes. -David Brady, esta  Merinda MacBride.
    -   um prazer conhec-la - disse, apertando-lhe a mo.
    -  O prazer  todo meu. - Numa frao de segundo, observou-o dos ps  cabea. - Por acaso tambm  cliente de Andrea?
    -  David  produtor.
    Depois de ouvir essa frase, os olhos azuis de Merinda brilharam de modo significativo.
    -  De documentrios - esclareceu Andrea, percebendo o sbito interesse de Merinda por David. - Voc deve ter visto alguns de seus trabalhos na televiso estatal.
    - Claro,  claro - mentiu, pois jamais assistira a qualquer programa da tal estao. - Admiro muito os produtores. Especialmente quando so bonitos.
    -  Tenho alguns roteiros de filmes que chegaram esta semana e que, creio, vo lhe interessar - afirmou Andrea, desviando estrategicamente o assunto.
    -   mesmo?
    A manobra foi bem-sucedida pois, imediatamente, a ateno de Merinda voltou-se para sua empresria. Afinal, Andrea s lhe indicava scripts de qualidade.
    -  Ento os envie para mim, certo?
    -  Segunda-feira sem falta.
    -  Bem, preciso cumprimentar alguns amigos. Espero que se divirtam. Adeuzinho;
    -  Foi um prazer rev-la.
    To logo a atriz se afastou, David. quis saber:
    -  Voc lida com este tipo de gente todo dia?
    -  Ossos do ofcio.
    -  Como  que consegue?
    -  Merinda pode ser um pouco afetada, artificial, mas  uma atriz de talento.
    Embora no concordasse, David resolveu calar-se, pois percebeu que poderia mago-la.
    Antes que chegassem  platia, ainda depararam com alguns amigos, conhecidos e clientes de Andrea que se aproximaram para cumpriment-la.
    -  Voc  muito popular neste meio, no?
    -  Faz parte de meu trabalho.
    Para alvio de ambos conseguiram, por fim, um lugar privilegiado de onde quase no podiam ser vistos.
    Assim que as luzes se apagaram, Andrea mergulhou na tela. Desde pequena tinha a incrvel capacidade de se transportar, de viver o filme toda vez que ia ao cinema. 
No se tratava de fuga, mas, sim, de uma entrega, um envolvimento total.
    O ator principal era um de seus clientes mais queridos. Ao longo dos anos, tornaram-se amigos e, durante as vrias crises existenciais pelas quais ele passara, 
era com Andrea que ele ia desabafar. Aps o divrcio de Hastings, a amizade entre eles havia se solidificado e, por diversas vezes, ele a convidara para jantar em 
companhia de seus trs filhos. Contudo, a partir do momento em que o filme comeava, Andrea o via apenas como personagem da estria.
    Aps quinze minutos de projeo ela j no se encontrava mais em Hollywood mas, sim, numa casa em Connecticut, prestes a presenciar um assassinato. Quando o 
abajur se apagou e ouviu-se o primeiro trovo, Andrea se agarrou no brao de David que, no deixando escapar a oportunidade, abraou-a.
    Desde a adolescncia ele no abraava uma namorada num cinema escuro. No entanto, percebeu que o entusiasmo que sentia era o mesmo de um garoto.
    Esforando-se por se concentrar na trama, teve a ateno desviada pelo aroma suave da colnia de Andrea.
    A tenso na tela crescia no mesmo ritmo que a sua na platia. Ansiosa, Andrea prendeu o flego e chegou-se mais para perto dele, at que o mistrio do filme 
fosse desvendado.
    Finalmente, as luzes se acenderam, para o lamento de David, que nem saberia responder do que tratara o filme.
    -  Foi timo, no acha? - ela indagou-lhe, os olhos brilhantes de entusiasmo. - Adorei.
    -  Sim, foi muito bom - concordou David, fitando-a. - E, a medir pelos aplausos, seu cliente vai ter muito sucesso.
    -  Felizmente - confessou, procurando afastar-se dele. - Fui eu quem o  convenceu a  aceitar o papel. Caso fosse um fracasso a culpa seria, em parte, minha.
    -  E agora, que o pblico parece ter gostado?
    -  Ser graas ao talento de Hastings. Nada mais justo. Se incomoda de sairmos daqui antes que nos cerquem?
    -  De maneira nenhuma.
    Levantando-se, caminharam por entre os grupos de convidados que j se reuniam para conversar nos corredores.
    No entanto, dez metros  frente, algum chamou por Andrea. - Aonde pensa que vai? Fugir?
    Moreno, um metro e noventa de altura, Hastings Reed era o tipo de homem que faz as mulheres suspirarem. J quarento, era uma mistura perfeita de charme, simpatia 
e elegncia.
    Visivelmente satisfeito com o resultado de seu trabalho, Hastings parecia, no entanto, inseguro quanto  aceitao junto ao pblico.
    -  No gostou do filme?
    -   maravilhoso! - Percebendo que o amigo precisava de apoio, Andrea o beijou com carinho no rosto.
    -  Voc esteve timo. Como sempre.
    -  Agora - disse ele, abraando-a - resta aguardar a crtica.
    -  Pois prepare-se para os elogios. Hastings, este  David Brady.
    -  Brady? O produtor?
    -  Exatamente.
    -  Puxa, adoro seu trabalho. - Empolgado, Reed apertou-lhe a mo com firmeza. - Sou presidente honorrio da Associao em Prol da Criana. Seu documentrio sobre 
o assunto foi excelente. Precisamos de mais gente boa como voc.
    -  Fico satisfeito que tenha gostado. Nosso objetivo era o de fazer as pessoas pensarem com maior seriedade  sobre as violncias que se cometem contra a criana.
    -  Asseguro a voc que seu objetivo foi plenamente atingido. Tenho trs filhos e confesso que fiquei sensibilizado com seu trabalho. - Ento, chegando-se mais 
perto, comentou: - Caso resolva algum dia continuar o assunto, me avise. Se eu puder ajudar, no vou cobrar nada. Mas no deixe que Andrea saiba.
    -  Saiba o qu?
    Hastings deu uma gargalhada espontnea e apertou-a contra si.
    -  Esta garota  um furor. No sei o que eu teria feito sem sua orientao. Imagine que eu no queria aceitar este papel, mas ela falou tanto no assunto que 
me convenceu.
    -  Nem tanto assim - corrigiu Andrea, rindo tambm. Reed, ento, olhou-a com mais ateno e elogiou-a.
    -  Puxa, que beleza! Nunca vi voc to elegante. Disfarando o  embarao, Andrea  ajeitou-lhe a gravata-borboleta.
    -  E, se me lembro bem, da ltima vez que nos encontramos, voc estava muito sujo, pois acabava de cair de um cavalo.
    -  Claro que lembro. Vocs vo conosco ao Chasen's?
    -  Bem, no sei...
    -  Andrea, fao questo que participe da festa. Tenho que dar uma entrevista para um dos reprteres, mas dentro de meia hora estou l.
    E, com dois tapinhas amistosos nas costas de David, Hastings misturou-se  multido de convidados.
    -  Ele  bastante... comunicativo, no? - comentou David.
    -   o mnimo que se pode dizer de Hastings. Olhando um relgio na parede, Andrea percebeu que ainda era cedo. - Acho que preciso, ao menos, dar uma passada 
na festa, pois ele jamais me perdoaria se no aparecesse. Se voc no quiser ir, posso apanhar um txi.
    -  Fao questo de  acompanhar voc.
    -  Est bem, mas no pretendo me demorar.
    Mas demorou. A festa esticou-se at as trs da manh.
    Caixas e caixas de champanhe foram abertas, acompanhadas de canaps de caviar e outras delcias. A msica, embora altssima, no chegava a incomodar e, entre 
um bate-papo e outro, as horas foram passando. Todos ali se conheciam, pelo menos de vista.
    Na pista de dana, superlotada, Andrea permitiu-se experimentar momentos de maior descontrao nos braos de David.
    -  Incrvel, no? - ele comentou.
    -  Dizem que no h nada mais doce do que o sucesso.
    -  E acho que  verdade. Especialmente quando misturado com champanhe.
    Olhando  sua volta, Andrea reconheceu que era impossvel no se deixar contagiar pelo brilho, pela alegria da festa: convidados muito chiques, caviar, champanhe...
    -  Normalmente, procuro evitar este tipo de reunio.
    -  Por qu? - ele indagou, deslizando os dedos pelas costas de Andrea em movimentos ascendentes.
    -  No sei dizer. - O ambiente, a bebida e a excitao fez com que Andrea encostasse o rosto ao dele. - Acho que sou uma pessoa muito caseira. Voc  diferente, 
sente-se bem num ambiente sofisticado como este.
    -  E voc, no?
    Andrea balanou a cabea negativamente. Conforme imaginara, conhec-lo melhor era uma aventura bastante perigosa. Seus braos fortes mantinham-na colada a ele.
    -  Voc faz parte do mundo do talento - disse. - Eu lido apenas com nmeros e dados.
    -  E  assim que prefere?
    -  Sim. Gosto muito do que fao.
    David afundou o rosto entre os cabelos de Andrea, deliciando-se com sua maciez.
    -  Eu preferia estar a ss com voc - murmurou. T-la em seus braos parecia um sonho. - Num lugar pequeno, onde a msica tocasse baixinho.
    -  Aqui  mais seguro.
    Apesar do que acabara de dizer, Andrea no reagiu quando David roou os lbios em suas tmporas.
    -  E quem est querendo segurana?
    -  Eu. Preciso me sentir segura para estar bem.
    -  Mas todos que se envolvem com o mundo dos espetculos tm que abrir mo da segurana, da estabilidade.
    -  No  o meu caso - afirmou, erguendo o rosto para observ-lo melhor. Andrea sentia-se muito bem, deslizando na pista de dana ao som da orquestra, nos braos 
de David. - Eu apenas fecho os contratos e deixo os riscos por conta de outros.
    -  Quer dizer que, depois de garantir seus dez por cento, voc desaparece de cena?
    -  Isso mesmo.
    - Eu at poderia acreditar no que est dizendo se no tivesse visto voc acompanhando Clarisse.
    -  Com ela,  diferente.
    -  Entendo. Mas tambm vi voc hoje ao lado de Hastings e percebi como o tratou. Pode tentar se convencer de que trata seus clientes a distncia, sem se envolver, 
mas, pelo que observei, conclu que no  bem assim. Voc tem um corao de manteiga.
    -  Ora, no seja ridculo - protestou, franzindo as sobrancelhas.
    -   uma das coisas que admiro em voc. - Antes que Andrea pudesse evitar, colou seus lbios aos dela num beijo rpido.
    Ela poderia ter-se desvencilhado daquele abrao e sado da pista, mas David a manteve colada a si e continuou a mover-se ao ritmo da msica.
    -  No misturo negcios com sentimentos   pessoais.
    -  Mentira.
    -  Eu talvez manipule a verdade - disse, bastante sria -, mas no minto.
    -  Voc ficou eufrica com o sucesso do filme, esta noite.
    Andrea afastou uma mecha de cabelo que insistia em cobrir-lhe os olhos. David era astuto e enxergava longe. Talvez longe demais.
    -  Prefiro no discutir isso.
    -  Por que voc est agindo assim, Andrea? Se por acaso eu disser que gosto de voc, isso vai deix-la incomodada?
    Surpresa com a revelao, Andrea errou o passo, mas ele, ligeiro, apertou-a com mais fora junto a si.
    -  Eu saberia lidar melhor com este relacionamento se ainda conseguisse irrit-lo, se ainda continussemos a discutir. Um envolvimento maior me assusta.
    -  Mas  voc mexe comigo. -  Naquele  momento,  David sentia o sangue correr mais rpido em suas veias, os msculos se enrijecerem. - H centenas  de pessoas 
aqui; no entanto, s tenho um pensamento:  livr-la deste vestido e fazer amor cora voc.
    Um arrepio a fez estremecer.
    Era preciso esclarecer a situao antes que o relacionamento entre eles lhe fugisse ao controle.
    -  David - disse, apoiando um brao em seu ombro. - Me deixe esclarecer uns detalhes. Primeiro: estamos trabalhando juntos no momento, o que exclui qualquer 
possibilidade de um relacionamento pessoal mais srio entre ns. Segundo: tenho estado muito ocupada, e o pouco tempo livre que me resta prefiro passar sozinha. 
- E, muito  sria, concluiu: - Em terceiro lugar, sou uma pessoa egosta e tremendamente crtica, portanto, detesto envolvimentos.
    -  Est bem - disse ele, beijando-lhe a testa de modo gentil, numa atitude quase paternal. - Vamos embora?
    -  Sim. - Um tanto desapontada com a reao de David perante seu discurso, caminhou at a mesa, apanhou o casaco e a bolsa. - Estou um pouco cansada.
    Sem uma palavra, David conduziu-a por entre os convidados at a sada, onde o motorista os aguardava.
    Confortavelmente instalados na limusine, David fechou o vidro que os separava do motorista e, antes que Andrea percebesse, abraou-a com fora. Segurando-lhe 
o queixo, obrigou-a a encar-lo.
    -  David, eu...
    -  Primeiro - iniciou - sou o produtor do documentrio e voc  a empresria de apenas um dos convidados, o que significa que no estamos trabalhando juntos 
e, portanto, no exclui um envolvimento maior  entre ns. Mesmo porque, j estamos envolvidos.
    Observando-o, Andrea concluiu que seus olhos agora brilhavam de modo diferente de quando danavam. Na verdade, faiscavam de modo to intenso que Andrea procurou 
evit-los. Mas David forou-a a encar-lo novamente.
    -  David, eu...
    -  Voc j teve sua vez - lembrou. - Segundo: somos ambos adultos e muito ocupados, portanto, no temos tempo a perder com falsas desculpas. E, terceiro: quer 
queira, quer no, j estamos vivendo um relacionamento pessoal. Por isso,  melhor ir-se acostumando.
    Furiosa com o modo como David lhe falava, Andrea respondeu-lhe com indignao.
    -  No tenho que me acostumar a nada.
    -  Ora, Andrea, encare a realidade.
    Quando David a beijou, ela sentiu toda a paixo e o desejo que o consumiam. Sua primeira reao foi a de tentar fugir, pois sabia que, caso se entregasse, perderia 
de vez o controle sobre suas emoes. Mas, de alguma forma, parecia saber que ela lutava contra si mesma.
    David segurou-a com mais fora, tornando o beijo mais e mais exigente, derrubando-lhe de vez as defesas.
    Gemendo baixinho, Andrea lanou os braos em torno do pescoo de David e mergulhou os dedos em seus cabelos. Apesar do desejo, tinha conscincia de tudo  sua 
volta: o corpo rijo de David pressionado contra o seu, o veludo do assento acariciando-lhe as costas. Os lbios quentes que a beijavam com volpia.
    Deslizando os lbios, David beijou-lhe o pescoo e a pele acetinada dos ombros, expostos pelo vestido. Mas, sem delicadeza, a fora da paixo que o consumia 
impedia-o de ser gentil. Suas mos percorriam-lhe as curvas perfeitas, detendo-se aqui e ali num ponto mais sensvel.
    Tomada pela mesma paixo, Andrea acariciou-lhe as costas sob o palet, fazendo-o gemer baixinho.
    Desesperado, David a fez deitar-se sobre o banco, mantendo-a imvel sob si.
    Ao fit-lo, Andrea entreabriu os lbios. Acariciando-lhe os cabelos, observou as luzes da rua passando pelo vidro do carro e refletindo-se nas mechas escuras. 
Umas aps as outras, numa sucesso quase hipntica.
    Relutante, admitiu a si mesma que a sensao de estar ali, deitada no banco de uma limusine com David, era fantstica.
    -  Isto  loucura - murmurou, admirada com seus pensamentos.
    -  Eu sei.
    -  Mas isto no devia acontecer. No pode acontecer.
    -  Por qu?
    -  No sei,  no me pergunte. - Ento, num  murmrio, confessou: - No posso explicar. E, se pudesse, voc no entenderia.
    -  Se existe outra pessoa em sua vida, eu no me importo.
    -  No. - Fechando  os  olhos,  continuou  a   acariciar-lhe os cabelos. - No existe ningum.
    "Por que tanta hesitao?", perguntava-se David. Nunca a tivera to perto, to vulnervel... No entanto, era impossvel ignorar o apelo mudo que via
    nos olhos dela.
    -  Talvez no seja aqui e agora, Andrea, mas  inevitvel. Ter que  acontecer mais cedo ou mais  tarde.   mais forte
    que ns.
    Ela sabia que David tinha razo, mas mesmo assim resistiu.
    -  Por favor, David, me deixe em paz. Confuso, ele a fez sentar-se.
    -  Que tipo de jogo  este?
    -  Chama-se sobrevivncia.
    -  Sobrevivncia: essa  boa!
    -  O que isto tem a ver com o fato de estarmos juntos, de fazermos amor? - quis saber.
    -  Nada. Se fosse apenas isso.
    -  Por que complicar as coisas? Tantas pessoas se tornam amantes e no sofrem por isso.
    -  Nem todas. - Suspirando fundo, procurou explicar-lhe o que sentia: - Acontece que no sou uma pessoa qualquer. Se fosse to simples para mim, faria amor com 
voc aqui mesmo, no banco deste carro. No vou negar que desejo voc. - Dando uma pausa breve, concluiu: - Fazer amor com voc seria muito fcil; me apaixonar seria 
muito penoso.
    Antes que ele pudesse det-la, Andrea abriu a porta do carro e desceu em frente ao prdio onde morava.
    -  Andrea!
    David correu at ela e segurou-a pelo brao, mas Andrea o afastou. Revoltado, exclamou:
    -  No pode simplesmente sair e ir embora depois do que acabou de dizer.
    -  Mas   exatamente  o  que estou fazendo - respondeu, repelindo-o mais uma vez.
    Procurando manter a calma, David se ofereceu para lev-la at a porta do apartamento, mas Andrea recusou.
    -  Precisamos conversar.
    -  No - disse, no podendo conter o desespero. - J  tarde, estou cansada e no consigo raciocinar direito.
    -  Se no conversarmos agora, ser numa outra ocasio.
    -  Est bem - prometeu, na  tentativa de v-lo partir o mais breve possvel. - Por favor, agora me deixe subir.
    David resolveu no insistir na certeza de que cedo ou tarde teriam que se entender.
    -  Certo.
    Paciente, aguardou at que Andrea atravessasse a porta do edifcio e, recostando-se no carro, acendeu um cigarro. Sim, num outro dia conversariam com mais calma 
sobre o assunto. Ento, poderiam raciocinar melhor.
    Aps duas tragadas, atirou o cigarro na calada e entrou na limusine. Certamente, teria mais uma noite de insnia pela frente.
    
    
    
    CAPITULO VI
    
    Andrea estava agitadssima e, enquanto aguardava Clarisse, andava de um lado para outro da sala.
    -  Fico feliz que tenha vindo, querida  -  disse Clarisse, trazendo uma bandeja com um bule e duas xcaras de ch. -  to raro voc poder vir passar umas horas 
comigo durante a semana.
    -  Deixei o escritrio nas mos de Abe.  bom poder contar com ele.
    -  Abe  mesmo um amor. Como vai indo o netinho dele?
    - Mimadssimo. O av d tudo o que pede.
    -  Disciplinar  tarefa dos pais; aos avs cabe cumprir todas as vontades dos netos, - S de falar em netos, seus olhos j se encheram de lgrimas. Procurando 
disfarar, Clarisse desviou o olhar e mudou de assunto: - Seu ch est bom?
    -  Est...diferente.
    -   ch de camomila.   Dizem  que acalma as  pessoas, e voc est me parecendo um pouco agitada, Andrea.
    Dando vazo  sua inquietao, Andrea apoiou a xcara sobre a mesinha e levantou-se. Embora  relutasse em  pedir-lhe ajuda, sabia que Clarisse poderia auxili-la 
a enfrentar melhor este momento delicado pelo qual passava.
    -  Mame. - Andrea sentou-se novamente, enquanto Clarisse saboreava o ch, paciente. - Acho que preciso de ajuda.
    -  Voc sempre foi exigente demais consigo mesma, minha filha.
    -  O que vou fazer?
    Recostando-se no sof, Clarisse observou-a com ateno. Sua intuio de me dizia-lhe tratar-se de algo com relao a David Brady. Procurando oferecer-lhe um 
conselho ponderado, refletiu bem sobre o assunto.
    -  Voc est com medo?
    -  Estou apavorada - confessou, levantando-se novamente. - A situao est fugindo ao meu controle.
    -  Andrea, no  preciso que a gente sempre tenha o controle da situao.
    -  Para mim, . - E, olhando-a com um riso nos lbios, acrescentou:  - Voc  deveria entender.
    -  E entendo. Claro que sim.
    Mas, intimamente, Clarisse desejava que sua nica filha no sofresse tanto.
    -  S porque algum magoou voc um dia, no quer dizer que tenha que se defender de todos que se aproximam. Est apaixonada por David?
    -  Acho que sim, mas ainda h tempo de me afastar.
    -  Acha to ruim amar algum?
    -  David no   um homem qualquer.  Ele  forte, astuto. Alm do que... - Dando uma pausa, acrescentou num tom mais sereno: - J me apaixonei antes e me machuquei.
    -  Voc era muito jovem. Aquilo no foi amor mas, sim, uma paixo tpica de adolescente.  natural que tenha sofrido.
    -  E se agora eu estiver confundindo paixo com amor? - indagou, em p no meio da sala, j sem saber para onde ir. - Pode ser que o que sinto por David seja 
apenas uma paixo ou atrao fsica.
    - Voc  a nica que pode saber o que sente por ele. - Clarisse voltara a saborear o ch. - Mas, para ser sincera, no creio que teria vindo me ver em pleno 
meio de semana estivesse preocupada apenas com uma paixozinha passageira.
    No contendo um riso, Andrea sentou-se ao lado da me.
    - Mame, voc  mesmo incrvel!
    - As coisas nunca foram fceis para voc, no  minha filha?
    - Por que diz isso?
    - Sua infncia no foi das melhores, eu sei.
    - Ora, mame, no fale assim. Voc foi tima.
    -  Andrea, seu pai me amava muito e, mesmo sem compreender muito bem meus poderes paranormais, aceitava-os sem restrio. Se eu tivesse fugido por medo de me 
apaixonar, teria perdido os melhores anos de minha vida. No queira ter sempre tudo sob controle.
    -  Mas ele era um homem especial - murmurou Andrea. - No  fcil encontrar algum como papai.
    Clarisse se manteve em silncio por alguns instantes e, ento, pigarreando, comentou num tom casual:
    -  Alex tambm me aceita como sou.
    -  Alex? - perguntou Andrea, vendo que Clarisse ficava vermelha. - Vocs dois esto...   - como perguntar isto  sua prpria me? -  ... namorando a srio?
    -  Ele me pediu em casamento.
    -  O qu?!
    Foi impossvel para Andrea disfarar o espanto. Ou o cime?
    -  Casamento? Mas voc mal o conhece. H apenas poucas semanas que saem juntos! Mame, voc  uma mulher madura e sabe que casamento no  coisa que se decida 
de um dia para outro.
    A preocupao sincera da filha para com ela a fez sorrir, satisfeita.
    -  Voc ser uma excelente me para seus filhos. Pelo menos, BA ter prtica em passar sermo.
    Andrea serviu-se de mais uma xcara de ch.
    -  No  foi essa minha inteno. S no   quero que tome uma atitude impensada.
    -  Tenho certeza de que voc herdou este lado responsvel de seu pai. Minha famlia sempre foi um pouco mais. .. distrada.
    -  Mame. . .
    -  Lembra-se de quando eu e Alex conversvamos a respeito de quiromancia  durante a gravao?
    -  Claro. - Inquieta, Andrea j imaginava o que sua me lhe diria. - Voc teve uma premonio, no teve?
    -  Sim, muito clara, muito forte. Confesso que fiquei perturbada com a idia de que um homem pudesse se sentir atrado por mim, depois de tantos anos. Mas, quando 
peguei na mo dele, senti algo to forte que no tive mais dvidas.
    -  Mas  preciso dar mais tempo  relao, mame.  No duvido de sua premonio, mas...
    -  Querida, estou com cinqenta e seis anos de idade - afirmou, balanando a cabea e erguendo os olhos como se o fato a surpreendesse. - Vivo muito bem sozinha. 
Na verdade, acho at bom viver assim. S que agora tive vontade de dividir o resto de meus  dias  com um  companheiro. Voc est com vinte e oito anos e  perfeitamente 
capaz de se sustentar, mas isto no deve impedir de viver  ao lado  de um homem que a ame.
    -  Meu caso  diferente.
    -  No , no - afirmou Clarisse segurando as mos da filha. - O amor, a carncia, a afeio so coisas comuns aos seres humanos. Se David for o homem certo, 
voc logo ir perceber.
    -  Tenho medo de que ele me rejeite - confessou, apertando-lhe as mos num gesto de desespero. - Eu mesma tenho dificuldade em me aceitar como sou.
    -  Sempre me preocupei com isso, minha filha.
    -  Sim eu sei...
    - Filha, consulte seu corao. Pare de ficar se preocupando e siga apenas o que o corao lhe disser.
    - Ele pode me indicar um caminho que no quero seguir.
    - Ah, isso certamente vai acontecer. - Ento, sorrindo com meiguice, abraou a filha e disse: - Querida, s posso lhe dizer que David Brady  um homem bom. Como 
todos, tambm tem seus defeitos, porm, tem sido um prazer para mim trabalhar para ele. Na verdade, fiquei muito contente quando David me telefonou esta manh.
    - Telefonou? - indagou, surpresa. - Para qu?
    - Para comentar a respeito de umas idias novas que teve para o documentrio. Ele foi para Rolling Hills hoje fazer uma gravao naquela manso que, dizem,  
mal-assombrada. Voc j ouviu falar a respeito, no? Ningum consegue morar l por muito tempo.
    -  Sim, j ouvi qualquer coisa sobre o assunto.
    -   claro que existem diversas opinies a respeito do que acontece por l, mas creio que David fez uma excelente escolha.
    -  E o que voc tem a ver com a casa?
    -  Nada, querida. Foi apenas um bate-papo. Ele sabe que me interesso por este assunto.
    -  Entendo. ..
    -  Mas conversamos  sobre outras coisas tambm.  Ele me pediu para ir ao estdio na quarta-feira prxima. Quarta? Sim, acho que  quarta mesmo. E, ento, num 
outro dia que no me lembro qual, iremos  casa dos Van Camp. Ele pretende gravar na sala de estar da casa de Alice.
    -  Ah...  Na casa dos Van Camp. . .  - Andrea sentiu a raiva crescer dentro de si. - Ele combinou tudo isto diretamente com voc?
    -Sim - afirmou Clarisse, sem entender o porqu da dvida. -. Fiz alguma coisa errada?
    Voc, no. - Indignada, ficou de p. - David  sabe muito bem que qualquer mudana de esquema deve ser comunicada a mim. No se pode mesmo confiar em ningum; 
muito menos num produtor.
    Quanta petulncia... Aquilo j era provocao! Apanhando a bolsa, caminhou em direo  porta.
    -  Mame, voc no vai ao estdio, at que eu descubra o que ele est tramando.
    Percebendo que estava saindo sem se despedir, Andrea voltou e beijou Clarisse com carinho.
    -  E no se preocupe, mame - alertou. - Vou esclarecer tudo direitinho.
    -  Est bem.
    Satisfeita, Clarisse observou a filha sair pela porta. Bem, sua parte "j estava cumprida:  Andrea iria ao encontro de David.
    
    No caminho de volta, Andrea apanhou o telefone do carro e comunicou-se com seu escritrio.
    -  Diane? Me  diga como est a programao desta tarde. Aps consultar a agenda, a secretria respondeu:
    -  Voc tem um cliente marcado para as quatro e meia.  o sr. Montgomery.
    -  Pea a Abe que o receba. No vou poder estar a.
    -  Abe tem compromisso s cinco; no  sei se  poder receb-lo.
    -  Mais  essa!  - Impaciente, ultrapassou  um veculo   at com certa imprudncia. - Quem est livre s quatro?
    -  S Brbara.
    Mantendo os olhos fixos no caminho, digeriu as informaes que recebia e concluiu:
    -  No, eles no vo se dar bem. Diane, telefone para Montgomery e cancele a entrevista. Diga-lhe que se trata de uma emergncia.
    -  Certo. Mas no h nada errado, h? 
    Andrea achou graa.
    -  Ainda no.
    Perfeito. Onde posso encontrar voc, caso precise, Andrea?
    Se surgir algum problema, pode ligar para o meu apartamento, e, se eu ainda no tiver chegado, deixe o recado na secretria.
    - No, definitivamente no   deixaria que David passasse por cima de sua autoridade. Apanhando o guia de estradas dentro do porta-luvas, decidiu ir ao encontro 
dele em Rolling Hills. Precisava encontr-lo naquele mesmo dia.
    
    Quando a primeira gota de chuva caiu sobre o pra-brisa, Andrea praguejou baixinho e, aps pegar o desvio errado para sair da estrada mais de duas vezes e seguir 
por um caminho sem asfalto debaixo da tempestade, comeou a xingar em voz alta. Felizmente, ningum podia ouvi-la.
    Ao encontrar a casa, percebeu por que ele escolhera o local para suas filmagens. E a chuva que caa apenas acentuava a aura de mistrio que envolvia o lugar.
    Como se no bastassem todos os contratempos que tivera que enfrentar, ao descer do carro afundou os ps numa poa de gua lamacenta.
    Olhando pela janela da frente, David a viu estacionando. Numa situao normal, a chegada de Andrea o deixaria feliz, mas naquele momento seria mais uma interrupo 
que teria que fazer nas filmagens, que j estavam atrasadas, e aborreceu-se. O dia no tinha sido dos melhores e tudo parecia dar errado.
    H uma semana no conseguia dormir direito, seu trabalho no saa conforme esperava e s de olhar para Andrea sentia-se tomado pelo desejo.
    Ao receb-la na porta, descarregou toda a raiva: Que diabo est fazendo aqui?
    O cabelo dela e o tailleur que usava estavam encharcados e os sapatos, irrecuperveis.
    Quero conversar com voc, David.
    -  timo.  Telefone para o meu escritrio  e marque uma entrevista. Estou ocupado.
    -  No, David. Vai ser agora! - Entrando, fechou a porta com fora atrs de si. - Desde quando voc pensa que pode marcar compromissos com minha cliente sem 
falar comigo antes? Se quiser que Clarisse v ao estdio quarta-feira, tem que marcar comigo! Entendeu?
    -  Tenho  um  contrato  assinado com  Clarisse pelo tempo que durarem as gravaes; portanto, no tenho que acertar nada com voc.
    -  Pois acho que deveria reler o contrato,  sr. Brady. H uma clusula que diz que todo compromisso dever ser marcado atravs da empresria.
    -  Tudo bem, vou lhe mandar todo o novo esquema das gravaes. Agora, se me der licena.. .
    David tentou abrir a porta, mas ela o impediu. Dois eletricistas que trabalhavam na sala pararam para ouvir a discusso.
    -  Eu ainda no acabei!
    -  Mas eu, j! Suma daqui, Andrea, antes que eu mande um dos rapazes acompanh-la at o carro.
    -  Veja como fala! Ou minha cliente pode "acidentalmente" apanhar uma laringite que a impea de falar por um ms!
    -  Ora.. .  no me ameace. - Bastante alterado, segurou-a pelos braos com violncia. - E, para mim, chega desta conversa. Se quiser mesmo falar comigo, marque 
uma entrevista para amanh.
    -  Brady! Precisamos de voc aqui em cima.
    Ainda por um momento ele a segurou com fora, fazendo de tudo para controlar o desejo que sentia. Foi preciso todo seu autocontrole para no beijar-lhe a boca 
com paixo.
    Transtornado, soltou-a de modo to abrupto que quase a tez perder o equilbrio.
    -  Suma daqui! - ordenou, virando-se para subir as escadas que conduziam ao andar superior.
    Foram precisos alguns segundos at que Andrea se recuperasse e se decidisse a subir as escadas atrs dele. No iria sair dali enquanto no ouvisse um pedido 
de desculpas.
    H muitos anos no encontrava algum capaz de faz-la perder o controle, mas David Brady realmente a deixara exasperada. Jamais encontrara algum to petulante.
    - Srta. Fields, prazer em v-la novamente.
    Alex fumava seu costumeiro havana no topo da escada, enquanto aguardava o reinicio da gravao. Ao v-la, sorriu-lhe de modo gentil.
    - E quero falar com voc, tambm! - exclamou Andrea, sem se deter, deixando-o pasmo. Inconformada, seguiu pelo corredor atrs de David.
    A passagem era estreita e escura, e do teto pendiam teias de aranha. A pintura velha das paredes umedecidas pelo tempo emprestava um aspecto ainda mais tenebroso 
ao local.
    Porm, ao encher os pulmes pronta para gritar o nome de David, Andrea percebeu que no conseguia falar. Um arrepio estranho percorreu-lhe o corpo ao entrar 
no quarto onde ele conversava com os tcnicos da equipe. Um tremor violento a atingiu, fazendo-a parar exatamente onde estava.
    No ambiente, preparado para as filmagens, havia cmeras, fios e luzes para todo lado. Contudo, Andrea no os enxergava. Via, sim, um quarto cujas paredes eram 
forradas por um papel rosado, muito delicado. Ao centro, uma cama com dossel. Sob a janela, uma penteadeira de mogno onde repousava um vaso com rosas brancas. O 
resto da moblia acompanhava o mesmo estilo romntico e compunha-se de uma cmoda e uma banqueta.
    Mas Andrea ainda viu, e ouviu muito mais:" Voc me traiu! Traiu-me com ele, Jssica!"
    "No! Eu juro que no! Oh, pelo amor de Deus, no faa isso! Eu o amo. Eu...".
    "Mentira! Mas esta ser a sua ltima mentira!"
    Os gritos eram horrendos, arrepiantes.
    Ao levar as mos aos ouvidos, Andrea deixou cair a bolsa no cho, com um rudo surdo.
    -  Andrea!
    David segurou-a pelos braos e sacudiu-a, enquanto todos ali presentes paravam para ver o que acontecia.
    -  Est se sentindo mal?
    Esticando os braos, ela puxou-lhe a camisa. Suas mos estavam geladas e tremulas. Embora o olhasse fixamente, seus olhos no o focalizavam.
    -  Coitada  da garota...   -  ela murmurou. - Oh,  meu Deus. ..
    -  Andrea!
    Ela tremia incontrolavelmente, mas o pior era seu olhar turvo, vidrado, perdido. Andrea olhava para o centro do quarto como se estivesse em transe.
    -  Que garota, Andrea? - David perguntou, assustado.
    -  Ele acabou de assassin-la ali na cama com as prprias mos. A garota no pde mais gritar porque ele lhe apertava a garganta at...
    -  Andrea!  - Segurando-lhe o queixo, forou-a a encar-lo. - No tem cama nenhuma aqui dentro.
    -   que...
    Transpirando profundamente, Andrea levou as mos ao rosto. Ento, sentiu um enjo que lhe era bastante conhecido.
    -  Preciso sair daqui.
    Virando-se, abriu passagem entre os tcnicos que se aglomeravam no corredor e desceu as escadas correndo. Desceu os degraus da varanda e saiu na chuva.
    -  Aonde voc vai? - David quis saber ao abra-la. Um raio riscou o cu, ameaador, A tempestade aumentou.
    -  Tenho que... - Atordoada, lanou um olhar perdido  volta. - Vou voltar para a cidade. Tenho que sair daqui.
    -  Eu levo voc.
    -  No! Estou de carro. - Absolutamente em pnico, tentou se afastar, mas David a segurou.
    - Voc no est em condies de dirigir. - A custo, conseguiu lev-la at seu carro. - Fique aqui - ordenou, fechando a porta do automvel.
    Incapaz de reagir, Andrea encolheu-se toda no banco, muito tremula. S mais um minuto e estaria bem, prometeu a si mesma. No entanto, quando David voltou, ela 
ainda no se havia recuperado.
    Atirando a bolsa de Andrea no banco de trs, ele a cobriu com o palet.
    -  Um dos rapazes leva seu carro de volta para a cidade. David deu a partida no carro e acelerou.
    O silncio s era quebrado pelos pingos de chuva que batiam no carro e pelo rudo ritmado do limpador de pra-brisa. Finalmente, passados alguns minutos, David 
resolveu falar.
    -  Por que voc no me contou?
    -  Contou o qu?
    -  Que tem os mesmos poderes de sua me? Encolhendo-se mais, Andrea levou as mos ao rosto e chorou. David no sabia o que dizer. Concentrado no caminho  sua 
frente, incriminou-se por ter tocado no assunto.
    No entanto, por mais descrente que fosse, podia jurar que Andrea vira realmente algo naquele quarto.
    Mas e agora? Como agir? O que dizer?
    Andrea soluava, dando vazo a toda sua angstia. De que adiantaria zangar-se? H muito tempo tomara conscincia de que, por mais que se controlasse, tais vises 
seriam, por vezes, inevitveis.
    A chuva cessou e o sol voltou a brilhar, ainda tmido.
    Andrea manteve-se encolhida sob o palet.
    -  Sinto muito.
    -  No quero que se desculpe; quero que me explique. No sei explicar. - Mais calma, enxugou as faces com as mos. - Eu agradeceria se voc me levasse para casa.
    -  Precisamos conversar. Mas num lugar de onde voc no possa me mandar embora.                                                   
    Fraca e cansada demais para discutir, Andrea recostou a cabea contra o vidro e no reclamou quando viu passar o retorno que levava ao bairro onde morava.
    Seguindo em frente, David pegou a direo das montanhas, alm da cidade. Cinqenta minutos mais tarde, entraram por uma passagem estreita, ao lado de uma casa 
com vigas de madeira e janelas enormes de vidro, circundada por um imenso gramado. A chuva deixara tudo ali mais verde e pequenas gotinhas cintilavam ao sol.
    -  Pensei que voc morasse na cidade.
    -  Morei l muitos anos mas, ento, resolvi vir em busca de ar puro.
    David desceu do carro e apanhou a bolsa de Andrea e mais uma pasta no banco de trs. Ela, por sua vez, vestiu o palet e o acompanhou em silncio at a porta 
da frente.
    A decorao da casa no tinha nada de rstico, sendo at bastante sofisticada.
    Logo atrs da porta, um corrimo trabalhado acompanhava alguns poucos degraus que levavam  sala de estar, num nvel mais baixo.
    Sem uma palavra, David foi at a lareira e acendeu o fogo.
    -  Acho melhor voc tirar estas roupas molhadas - disse num tom casual. - H um banheiro l em cima, no fim do corredor. Atrs  da porta, vai encontrar um  robe 
pendurado.
    -  Obrigada. - Insegura, umedeceu os  lbios. - David, voc no precisa.. .
    -  Vou fazer caf - interrompeu ele, deixando-a sozinha na saa.
    Andrea nunca se sentira to mal. Embora j esperasse por isso, a rejeio de David a magoava. Mesmo j tendo passado pela experincia anteriormente, a dor era 
sempre a mesma.
    Respirando fundo, tentou recuperar a autoconfiana perdida. Nenhum homem a veria fraquejar.
    Procurando reagir, ergueu o queixo e subiu as escadas. Tornaria um banho e, depois que suas roupas secassem, voltaria para  casa. Afinal,  era  perfeitamente 
capaz   de cuidar de  si mesma.
    O banho quente aos poucos comeou a acalm-la. Lavou bem os cabelos e, ao sair do chuveiro, apanhou o robe atrs da porta. Vestindo-o, sentiu o aroma da colnia 
de David que impregnava o tecido aveludado.
    Chegando  sala, encontrou-a vazia, e, depois de colocar as roupas numa secadora eltrica, reunindo foras, resolveu procurar por David.
    A casa era ultramoderna e, em outras circunstncias, adoraria prestar mais ateno aos detalhes que a compunham.
    Acompanhando o aroma de caf, seguiu pelo corredor at chegar  cozinha. Detendo-se  porta, respirou fundo e entrou.
    David estava de p em frente  janela, com uma xcara na mo.
    Andrea cruzou os braos sobre o peito e esfregou as mos nas mangas do robe.
    -  David?
    Ao ouvi-la, ele voltou-se lentamente, incerto a respeito do que deveria dizer. Ela lhe parecia muito frgil. David no saberia descrever o que sentiu naquele 
instante.
    -  O caf est quente. Por que no senta?
    -  Obrigada.
    Procurando agir da forma mais natural possvel puxou um banquinho dos que havia sob o balco.
    -  Se voc preferir comer algo, estou esquentando uma sopa - comentou, indicando uma panela no fogo.
    -  No precisava se incomodar.. . - disse ela, j um tanto tensa.
    Sem uma palavra, David foi at o fogo, serviu um prato de sopa e colocou na frente dela.
    -  E uma antiga receita de famlia. Minha me costuma dizer que um prato de sopa cura qualquer mal.
    O cheiro est delicioso. - Sem saber por que, veio-lhe vontade imensa de chorar, mas Andrea resistiu. - David. 
    -  Primeiro, coma.
    Aparentemente tranqilo, puxou um banquinho e sentou-se em frente a Andrea, do outro lado do balco. Acendendo um cigarro, tomou um gole do caf e observou-a 
brincar com a sopa.
    -  Voc precisa comer - disse.
    -  Por que no me pergunta logo? - indagou Andrea, inquieta. - Prefiro resolver este assunto de uma vez.
    Ela lhe parecia to magoada, to sofrida. De onde viria tanta dor?
    -  No pretendo  submeter voc a nenhum interrogatrio.
    -  Por que no? - quis saber. Seus olhos o desafiaram. - No quer que lhe conte o que houve naquele quarto?
    David soltou uma baforada e apagou o cigarro no cinzeiro.
    -  Sim, quero. Mas no creio que voc esteja em condies de falar sobre isso agora. Pelo menos, no em detalhes. Por que no conversamos sobre outros assuntos, 
Andrea?
    -  No estou em condies? - Em outra circunstncia, ela poderia ter gargalhado. - Nunca se est em condies, David. Posso descrever a pessoa para voc: morena, 
olhos azuis, vestia uma camisola de algodo que ia at os ps e chamava-se Jssica. Tinha  apenas dezoito anos quando o marido a matou num acesso de cime, estrangulando-a 
com as prprias mos. Depois, suicidou-se com um tiro, tal o desespero.  isso que voc quer para o seu documentrio, no ?
    Os detalhes e a frieza com que ela os relatou deixaram-no chocado. Quem era aquela mulher sentada ali a sua frente?
    -  O que lhe aconteceu nada tem a ver com o documentrio, mas tem a ver com o modo como est agindo agora.
    -  Normalmente consigo me controlar - desabafou, afastando o prato de sopa para um lado. - Tenho anos de prtica. Se eu no estivesse to nervosa ao entrar no 
quarto, isto no teria acontecido.
    -  Consegue evitar essas vises? 
    - A maior parte das vezes, sim.
    -  E por que tenta evit-las?
    - Acha mesmo que isto  um dom? - perguntou, levantando-se. - Bem, para algum to bom e caridoso como Clarisse, talvez seja.
    - E para voc?
    - Odeio isto, odeio ser assim - confessou, voltando-se para encar-lo, - Ningum faz idia do que seja ver a desconfiana estampada nos olhos das pessoas, comentando 
umas com as outras. - Tensa, esfregou as tmporas com as mos. - Eu s queria ser normal. .. Quando era criana, tinha sonhos horrveis. Eram cenas to reais. .. 
Mas achava que todo mundo tinha aqueles sonhos e ento comentava com minhas colegas: sua gata vai ter gatinhos. Posso ficar com o branco? E da a alguns dias, os 
gatinhos nasciam e havia, de fato, um nico branco. Pequenas coisas assim. Algum perdia uma boneca e eu indicava direitinho o local que estava.
    Respirando fundo, comentou:
    -  As crianas no ligavam muito, mas os pais ficavam nervosos e preferiam que os filhos se afastassem de mim.
    -  E isto magoava voc.
    -  Sim, muito. Clarisse me compreendia e me ajudava, mas eu sofria muito. Os sonhos continuaram, mas parei de coment-los com as pessoas. At que, ento, meu 
pai faleceu.
    De p, Andrea cobriu os olhos com as mos e, ao perceber que David fizera meno de levantar-se, pediu-lhe que lhe desse apenas alguns minutos. Precisava desabafar.
    Ento, soltando os braos ao longo do corpo, relatou:
    -  Papai havia sado numa viagem de negcios e eu sabia que ele tinha morrido. Uma noite, acordei e tive a certeza de sua morte. Ento, levantei e fui ao quarto 
de mame. Encontrei-a bem acordada, sentada na cama, e percebi que ela tambm j sabia. Nenhuma de ns disse uma palavra sequer. Deitei-me ao lado  dela  e  juntas 
esperamos at que  o telefone tocasse.
    - Voc tinha oito anos.                                                 
    -  Tinha. Depois disso, comecei a bloquear minhas vises. Chegava a passar meses sem que elas aparecessem. Mas, sempre que perco o controle, elas voltam.
    David  lembrou-se de como   a  vira  chegar transtornada  na casa abandonada e de como a vira sair de l, plida e tremula.
    -  E eu fao voc perder o controle?
    -  Parece que sim - confessou, encarando-o.
    -   Devo me desculpar?
    -  Ningum tem culpa de ser como . Nem eu nem voc.
    -  Andrea, entendo sua necessidade  de controlar este seu dom e de evitar que isso interfira em sua vida diria, mas no entendo por que o rejeita.
    j que comeara a se abrir, Andrea resolveu revelar-lhe toda a verdade.
    -  Aos  vinte anos, quando estava tentando me estabelecer como empresria, conheci um rapaz, dono de uma loja perto da praia. Ele alugava e vendia pranchas de 
surfe e coisas do tipo. Fiquei fascinada por ele. Era to diferente de mim, levava a  vida sem preocupao, sem pensar no  amanh. O namoro foi-se desenrolando at 
que chegamos a um ponto onde o noivado   era inevitvel. Ele, ento,  me comprou  uma aliana e prometeu maravilhas para depois do casamento. Acreditei cegamente 
no que dizia e achei que, j que amos nos casar, no deveria haver segredo entre ns.
    - Voc ainda no tinha dito ao rapaz que era paranormal?
    -  No.  - Embora lhe fosse penoso, Andrea prosseguiu: - Apresentei-o a Clarisse, e ento contei-lhe a verdade. Depois disso me olhava como se eu fosse uma...
    -  Sinto muito.
    -  Eu devia ter esperado por aquela reao. - Sentando-se novamente, brincou com o cabo da colher. - Depois daquilo ele nunca mais me procurou.
    Percebendo seu sofrimento, David procurou confort-la. - Talvez tenha sido melhor assim.
    
    Desde ento percebi que a verdade nem sempre deve ser dita. J pensou o que aconteceria se meus clientes soubessem?
    - Portanto, voc e Clarisse escondem o fato de serem me e filha e voc faz de tudo para que no saibam de sua paranormalidade.
    - Exato.  Mas, depois do que houve  hoje, creio que no ser mais possvel.
    - Quanto a isso no se preocupe. Falei para a equipe que havia lhe contado o que anos atrs acontecera naquele quarto. __ Levantando-se, foi apanhar a cafeteira 
para servir caf para Andrea.
    Comovida com tanta compreenso, Andrea pegou a xcara e agradeceu:
    -  Obrigada.
    - Se achar necessrio, pode continuar a guardar seu segredo.
    -  Sim,  muito necessrio. David, o que foi que sentiu ao perceber que eu era uma paranormal? Sinto que  voc ainda est um tanto surpreso, incomodado at.
    -  Talvez tenha razes.  algo que me deixa inquieto. Nunca passei por isso antes e me preocupa o fato de saber que no poderei mais esconder nada de voc.
    -   natural - comentou, levantando-se. - Todo mundo tem direito a manter a prpria privacidade, de se defender. .. Bem, acho que minhas roupas j devem ter 
secado. Ser que poderia me conseguir um txi enquanto me troco?
    -  No - afirmou David,  bloqueando-lhe a sada da  cozinha.
    -  Por favor, no torne as coisas mais difceis do que j so. Nem para mim nem para voc.
    - Eu no seria to tolo. Nada mudou, Andrea. Continuo desejando voc da mesma forma e  s o que importa para mim.
    Mais tarde vai  se arrepender, David. Apertando-a contra si, indagou num tom irnico:
    -  Est lendo meu pensamento?
    -  No brinque.
    -  Talvez j seja hora de algum brincar um pouco com o assunto. E, se estiver lendo o meu pensamento agora, sabe que a nica coisa que quero no momento  lev-la 
para o meu quarto e fazer amor com voc.
    -  E amanh? - quis saber, o corao j batendo acelerado em seu peito.
    -  Que importa o amanh? - disse ele, curvando-se, para beij-la. - A nica coisa importante  saber que nos desejamos e que esta noite vai ser nossa.
    -  Tem razo...
    
    
    
    
    CAPITULO VII
    
    Ao entrar no quarto de David, Andrea se deteve.
    Exatamente como em seu sonho, o quadro, traos indistintos em vermelho e lils contra uma tela branqussima, estava pendurado numa das paredes.
    Arrepiada, voltou-se e viu seu prprio reflexo, s que no num espelho, mas numa janela de vidro.
    - Exatamente como no sonho. . . - murmurou em voz baixa, dando um passo para trs.
    Mas estaria dando um passo em direo ao sonho ou  realidade? Ou  sonho  e realidade se  confundiam  naquele exato momento?
    Em pnico, permaneceu onde estava, se perguntando se teria escolha. Ser que a ela cabia apenas seguir um caminho j predeterminado pelo destino, desde o instante 
em que David Brady entrara em sua vida?
    No  isto que eu quero. . .  - murmurou. Ao tentar  sair do quarto,  David bloqueou-lhe  a passagem puxou-a para junto de si, como ela j sabia que faria.
    - Voc no pode continuar fugindo, Andrea. Nem de mim nem de si mesma.
    Ele a desejava mais do que a qualquer outra. Impaciente, beijou-lhe os lbios com volpia. Apertou-a com mais fora contra si e, ao perceber os primeiros sinais 
de rendio por parte dela, ficou alucinado.
    Os beijos e as mos de David tornaram-se mais. exigentes. Seu corpo musculoso pressionava o de Andrea com insistncia. Ele a segurava como quem guarda um tesouro 
s seu, tomando-a para si, com ou  sem consentimento.
    Mas Andrea sabia que a ltima deciso seria dela. Entregar ou negar-lhe seu corpo era algo que s a ela cabia. E desta deciso surgiriam conseqncias que poderiam 
transformar toda sua vida.
    Andrea sabia que ioda entrega acarretava risco. A cada segundo sua escolha tornava-se mais penosa, at que, com um gemido baixinho, segurou-lhe o rosto entre 
as mos e entregou-se de vez. Por uma noite, ela se deixaria levar por seus instintos, contra os quais cansara de lutar.
    David percebeu que no haveria tempo para jogos amorosos. Andrea retribua-lhe os carinhos com ansiedade, deixando claro que tambm o desejava. Os dois sabiam 
que a paixo era uma faca de dois gumes: tanto trazia prazer como dor e sofrimento. Mas, como adultos, compreendiam o risco que corriam e estavam dispostos a aceitar 
o desafio.
    David ergueu-a nos braos e a colocou em sua cama. Com um nico gesto, afastou-lhe o robe dos ombros, beijando-os. A barba por fazer machucava-lhe a pele sensvel, 
mas Andrea gemeu de prazer.
    Por mais que tentasse, David no conseguia domin-la, pois Andrea respondia a cada carinho seu com uma carcia igualmente alucinante.
    Andrea desabotoou-lhe a camisa e jogou-a para o lado. Em seguida, ajudou-o a livrar-se do resto das roupas. ,   Os msculos bem desenvolvidos retesaram-se sob 
seu toque delicado, provocante. O perfume que David usava era o mesmo que impregnava o robe que lhe emprestara, cujo aroma agreste e msculo parecia conter promessas 
alucinantes.
    David despiu-a por completo, com gestos impacientes. Ento afastando-se, observou-lhe o corpo perfeito, que o fizera cassar tantas noites insone. Os seios alvos 
e arfantes pareciam se oferecer ao toque de seus lbios. vidos por prov-los, David curvou-se e sugou-os com paixo. Andrea arqueou as costas num convite. Amante 
experiente, David segurou-lhe as mos e comeou a explorar-lhe cada curva do corpo com os lbios. Andrea suplicava-lhe para que a possusse, mas ele sabia que o 
momento certo ainda no havia chegado.
    David nunca conhecera uma mulher que o deixasse to alucinado. A fria do desejo que sentia por ela o assustava. Andrea era a mistura perfeita de tudo o que 
admirava numa mulher: deciso, coragem, fragilidade e sensualidade.
    Ainda segurando-lhe as mos, David acariciou-lhe o sexo, e mais uma vez ela lhe pediu que a possusse. Porm, indiferente, ele continuou com os carinhos at 
lev-la ao xtase.
    Soltando-lhe os pulsos, a manteve sob si e penetrou-a com um nico movimento.
    Minutos depois, ambos, exaustos, relaxavam. David rolou para o lado e a trouxe consigo.
    Mais tarde, ao despertar, Andrea viu o claro da lua prateando os lenis da cama. Ainda continuavam abraados. A voz da razo lhe dizia para se afastar, mas 
Andrea no teve coragem.
    Agora que o desejo dos dois j fora saciado, era hora de partir, mas ela sentia uma vontade imensa de permanecer ali, entre os braos de David, at o raiar do 
sol.
    David ainda continuava embevecido com o que acabara de lhe acontecer. Nunca poderia imaginar que o seu desejo tivesse tal fora, tal intensidade. Andrea era 
uma mulher incomparavel. E o mais assustador foi que, mesmo depois de t-la possudo, continuava a quer-la. A nica coisa capaz de lhe explicar o que acontecia 
era o amor. Sim, David concluiu que a amava. Seria intil tentar iludir-se, tantas emoes no podiam apenas ser simples atrao fsica. Estava irremediavelmente 
apaixonado por ela.
    Ao senti-la tremer de leve, aconchegou-a mais junto a si.
    -  Est com frio?
    -  A temperatura caiu.
    -  Se quiser, posso fechar a vidraa.
    -  No.
    David puxou o lenol e cobriu-a. Foi ento que reparou em algumas marcas nos braos dela.
    -  Eu machuquei voc? - perguntou, num misto de remorso e preocupao que a cativou.
    -  Claro que no - comentou, meio constrangida. - Se der uma olhadinha em voc, vai ver que tambm deixei algumas marcas.
    David olhou para o prprio corpo e riu de um jeito charmoso, que, alm de encant-la, a desarmou.
    -  Parece que a coisa conosco  para valer.
    O riso tambm aflorou-lhe aos lbios to espontneo que foi impossvel para ela reprimi-lo.
    -  Est   reclamando?  -   indagou,  beliscando-o carinhosamente.
    Mais uma vez Andrea o surpreendia. De novo excitado, rolou para o lado e cobriu-a com seu corpo.
    -  S se voc tambm reclamar.
    - David, eu.. .
    -  Adoro competir com voc - murmurou, baixando o rosto  para mordiscar-lhe a  orelha. Andrea estremeceu.
    -  Desde que leve vantagem, no ? - ela conseguiu dizer enquanto ele a tocava.
    -  Mocinha, acho que vou me acostumar a tirar vantagem de voc.
    Andrea fazia de tudo para livrar-se das carcias ousadas. - No posso passar a noite aqui.
    - Mas voc j est aqui - murmurou em seus ouvidos, mordiscando-lhe o pescoo.
    - No, no posso ficar.
    - Por qu?
    "Porque fazer amor para me livrar do desejo que me consumia  bem diferente do que passar a noite em seus braos", ela pensou. Mas disse simplesmente:
    - Preciso trabalhar amanh.
    - Eu deixo voc em seu apartamento bem cedo, assim ter tempo de se trocar.
    Ao roar-lhe os mamilos com os lbios, David viu nos olhos de Andrea o quanto ela ainda o queria.
    -  Tenho que estar no escritrio s oito e meia.
    -  Prometo que acordo voc bem cedinho - sussurrou, beijando-lhe os lbios bem de leve. - Afinal, no pretendo mesmo dormir.
    -  No costumo passar a noite na casa de ningum - disse, numa ltima tentativa de convenc-lo.
    -  Mas na minha voc vai passar. Seu tom de voz confiante a irritou.
    -  Como afirma isso com tanta confiana?
    -  Porque ainda no terminamos o que comeamos h pouco, Andrea. Na verdade, aquilo foi apenas o incio.
    Intimamente, ela teve que concordar. Afinal, as reaes de seu corpo contradiziam-lhe as palavras. Dentro de si, o desejo j explodia, indisfarvel. Seria intil 
lutar.
    - Tem razo.
    
    O quarto ainda estava escuro quando ela despertou de um sono leve para puxar os lenis mais para cima. Seus msculos doam deliciosamente, trazendo-lhe recordaes 
dos momentos maravilhosos que vivera nos braos de David.
    Ainda sonada, olhou para o criado-mudo, tentando enxergar as horas no relgio digital. Mas no o encontrou.
    Esfregando os olhos, tornou a procurar. Mas...  claro que no poderia estar ali. Nem o criado-mudo estava l. Na verdade, se encontravam bem distantes, em seu 
apartamento.
    Virando-se, percebeu que David j se havia levantado. Aonde teria ido? Que horas seriam?
    Sentando-se na cama, sentiu-se feliz.
    Jamais vivera uma noite como aquela. Parecia um sonho; um sonho bastante real.
    Contudo, a realidade do dia-a-dia batia  porta, obrigando-a a enfrentar o mundo l fora. Todo cuidado agora era pouco.
    Levantou-se, apanhou o robe aveludado do cho e vestiu-o. O importante era agir como uma mulher adulta, consciente de que o que havia acontecido entre eles fora 
apenas uma atrao fsica; nada de promessas ou falsas juras de amor.
    Ao sentir a fragrncia que impregnava o tecido, afundou o rosto na gola e deliciou-se por alguns instantes. Ento, amarrou o cinto e foi  procura de David.
    A sala de estar ainda estava escura; apenas os primeiros raios de sol surgiam no horizonte. A vista que se tinha dali, atravs das enormes janelas, era linda. 
David estava parado em frente a uma delas, enquanto um fogo recm-aceso queimava na lareira. De repente, para Andrea, um abismo intransponvel se criou entre eles.
    Sem uma palavra, desceu os ltimos degraus da escada e aguardou.
    -  Constru a casa com esta janela voltada para o leste s para poder observar o nascer do sol todas as manhs. Por incrvel que parea, no existem duas alvoradas 
iguais.
    Ela jamais o vira como um homem romntico, que gostasse de admirar o sol ou que preferisse viver numa casa afastada da cidade. Quem seria exatamente David Brady?
    Enfiando as mos nos bolsos, encontrou uma caixa de fsforo esquecida ali e apertou-a entre os dedos.
    -  Nunca tenho tempo para assistir ao nascer do sol - comentou.
    -  Se acontece de eu estar em casa a esta hora, sempre venho para c. A impresso que tenho  a de que este momento enche de energia para enfrentar os problemas 
l fora.
    __Est esperando algum problema para hoje? - indagou, mexendo, nervosa, na caixa de fsforos.
    David voltou-se para encar-la. Descala, vestida com seu robe um tanto largo, ela lhe pareceu mais feminina, mais acessvel que nunca. Pena no poder confessar-lhe 
que j estava enfrentando um problema. Um problema cujo nome era Andrea Fields.
    -  Estive pensando - disse, enfiando as mos nos bolsos traseiros do jeans surrado, enquanto se aproximava. - Quase no conversamos ontem  noite.
    -  No. Parece que nenhum de ns dois estava interessado em falar. - "Nem  o que desejo fazer no momento", acrescentou mentalmente.
    -  Agora vou me trocar - adiantou. - Tenho que estar bem cedo no escritrio.
    -  Andrea. - Desta vez ele no precisou segur-la; bastou cham-la para que ela se detivesse. - O que foi que voc sentiu naquele primeiro dia em que nos vimos, 
em seu escritrio?
    Baixando o rosto, Andrea suspirou fundo.
    -  J falei mais do que devia sobre este assunto ontem  noite, David.
    Andrea tinha razo, embora ele no soubesse exatamente por qu.
    -  Voc falou sobre seus dons com relao a outras pessoas. Quero saber o que houve com relao a mim.
    -  Vou me atrasar para o trabalho - disse, j comeando a subir as escadas.
    -  Por que voc sempre foge das situaes difceis, Andrea?
    -  Eu no estou fugindo! - exclamou, voltando-se para fit-lo, os punhos fechados dentro do bolso. - Apenas no vejo motivo para voltarmos ao assunto. Isso  
algo s meu, muito pessoal.
    -Mas diz respeito a mim tambm - ponderou com calma. - Ontem  noite, voc entrou no meu quarto e disse que era exatamente como em seu sonho. Voc sonhou comigo?
    -  No, eu...
    Andrea teve mpeto de mentir, mas nunca se dera bem com a falsidade. Irritada consigo mesma, resolveu revelar a verdade.
    -  Sim. Os sonhos so mais difceis de ser controlados do que as vises.
    -  Me conte como foi.
    Mas a verdade tinha seus limites, disse a si mesma. Jamais contaria a ele exatamente o que sonhara.
    -  Sonhei com seu quarto. Saberia descrev-lo sem nunca ter pisado nesta casa antes. E agora? Vai me colocar sob um microscpio?
    -  A autopiedade no leva a nada.
    Ouvindo-a suspirar, subiu os primeiros degraus da escada, aproximando-se de Andrea.
    -  Voc sabia que amos ser amantes?
    -  Sim - confessou, com uma expresso indiferente.
    -  E soube disso aquele dia no escritrio, no foi? Quando estava irritada comigo, frustrada por causa de sua me e eu lhe toquei a mo, deste jeito.
    Esticando o brao, tirou-lhe a mo direita do bolso e apertou-a exatamente como o fizera naquele dia.
    Andrea estava de p, contra a parede, cansada de ser pressionada.
    -  O que est tentando provar? Alguma teoria para exibir em seu documentrio?
    Como ser que ela reagiria se lhe dissesse que, a seu ver, tais vises s aconteciam quando Andrea se tornava vulnervel?
    -  Ento, voc sabia, e isto a deixou amedrontada. Por qu?
    -  Tive um pressentimento muito forte de que me tornaria amante de um homem que eu considerava detestvel.  No  um motivo razovel?
    -  Acho que  seria um motivo para se zangar, para  ficar
     Mas no explica seu medo. Voc estava apavorada ela noite, na limusine; e ontem, quando entrou em meu quarto.
    - Ora, no exagere - comentou, tentando soltar sua mo, que ele ainda segurava.
    _ Acha que estou exagerando? - David deu mais um passo  frente e segurou-lhe o rosto com uma das mos. - E voc est com medo agora.
    __ No  verdade. Eu... estou aborrecida porque no pra de me pressionar. Somos dois adultos que passaram uma noite juntos. Isto no lhe d o direito de vasculhar 
meus sentimentos ou minha vida pessoal.
    Ela estava certa. Alis, David jamais agira daquela forma, pois tinha por princpio respeitar a privacidade alheia.
    __ Tem razo. Mas acontece que vi o modo como ficou depois que entrou naquele quarto ontem, em Rolling Hills.
    -  Aquilo j passou.
    Embora no concordasse, resolveu no insistir.
    -  No quero mais ser responsvel por esse tipo de coisa. No quero mais que sofra por minha causa.
    -  A nica responsvel sou eu - afirmou, j mais calma. - Voc no causa nada;  so as circunstncias. David, estou com vinte e oito anos e consegui sobreviver 
at hoje, convivendo com este. . .  dom.
    -  Entendo. Mas tente compreender que tenho trinta e seis anos e nunca enfrentei uma situao como esta.
    -  Sei como se sente.  A primeira reao das pessoas  o medo, a desconfiana ou, ento, a curiosidade. Da mesma forma que se sentem quando vem algo semelhante 
num circo.
    -  Eu nunca disse isso! - A sbita raiva de David a assustou.
    E quando ele a segurou pelos ombros, Andrea no ofereceu resistncia. - No me importa como as outras pessoas reagem ao fato. Eu sou eu. Droga! Passamos a noite 
toda fazendo amor e eu  mal conheo voc. Fico com medo de dizer algo e magoa-la. Ainda assim, no consigo aplacar o desejo que sinto. Se ficasse mais um minuto 
a seu lado na cama no conseguiria resistir.
    Antes que pudesse  raciocinar, Andrea  afastou-lhe  as mos de seus ombros.
    -  No entendo o que voc quer.
    -  Nem eu. - Mais calmo, Davd respirou fundo. - Preciso de um tempo para pensar, para raciocinar com calma.
    Tempo e distncia. Andrea concordava com ele.
    -  Est bem.
    -  Mas o caso  que no quero me afastar de voc enquanto penso.
    Andrea arrepiou-se diante da confisso.
    -  David, eu...
    -  Nunca vivi uma noite como esta que tivemos. O elogio quase a fez fraquejar.
    -  Voc no precisa ser gentil.
    -  Sei que no preciso, mas  a verdade. - Com um riso tmido nos lbios, ele massageou-lhe os ombros. - No  nada fcil admitir isso. Venha, sente-se um minuto.
    Juntos, sentaram-se num degrau da escada, lado a lado.
    -  No tive tempo para pensar a noite passada porque fiquei. . . pasmo.
    Andrea sentiu-se tensa quando ele a abraou, no tentou se afastar.
    -  Estive pensando  esta manh - ele prosseguiu.  - Eu quero voc mais do que a qualquer outra, Andrea. Voc  uma mulher fascinante. Mesmo sem este seu dom. 
O que mais quero  ter uma chance de conhec-la melhor, pois pretendo passar muito tempo a seu lado.
    Andrea ergueu o rosto para fit-lo."
    -  Voc est muito confiante.
    -  Sim, estou.
    - No sei se deveria estar.
    - Talvez, no. Mas j temos um bom comeo: ns nos desejamos. Assim era mais simples, ela decidiu.
    - Mas sem promessas.
    David imediatamente pensou em protestar, mas, reconsiderando, resolveu concordar.
    - Sem promessas.
    Insegura, Andrea sabia que no devia ter concordado. Aquele seria o momento certo para terminar o relacionamento entre eles: uma noite de amor e nada mais. Mas, 
ao dar por si, j era tarde.
    -  Vamos manter os assuntos pessoais separados  dos  profissionais, certo?
    -  Certo.
    -  E, quando um de ns se cansar, daremos um fim nisso.
    - Concorda? - ela indagou.
    -  Concordo. Quer uma declarao por escrito? Sorrindo, ela o observou.
    -  Bem que eu devia pedir.  Os produtores costumam ser embrulhes.
    -  E os empresrios bastante cnicos. 
    -  Cautelosos, eu diria - corrigiu Andrea. - Afinal, somos pagos para isso. E, por falar no assunto, ainda no resolvemos a questo sobre Clarisse.
    -  Acho que este no  bem o momento de falar sobre negcios - ele lembrou, beijando-lhe as mos.
    -  No mude de assunto; temos que resolver a questo ainda hoje.
    -  O horrio comercial  das nove s seis.
    -  Como queira. Telefone, ento, para meu escritrio e... Oh, meu Deus!
    - O que aconteceu?
    - Meus recados! - comentou, passando a mo pelos cabe-os, enquanto ficava de p. - No cheguei a telefonar para saber dos recados!
    -  Puxa! Parece grave - disse ele, levantando-se.
    -  Onde fica o telefone?
    -  Para que tanta pressa?
    -  David, no estou brincando.
    -  Nem eu.
    Sorrindo, David introduziu as mos pela abertura do robe que ela usava e o abriu. Andrea sentiu os joelhos fraquejarem.
    -  David...   - Tentando  escapar aos   beijos  dele,   viu-o mudar de ttica, beijando-lhe o pescoo. - Eu volto j.  s um minuto.
    -  No, no - ele protestou, desatando-lhe o cinto. - Vai demorar muito mais.
    -  Mas tenho uma reunio logo cedo.
    -  No tem, no. Seu primeiro compromisso ser ao meio-dia. - David se perguntava se ela tinha conscincia de estar desabotoando-lhe a camisa ou se o fazia automaticamente. 
- Ns agora vamos fazer amor.
    -  Depois, David - protestou, oferecendo-lhe os lbios.
    -  Antes, Andrea.
    
    
    CAPTULO 8
    
    Andrea tinha tudo para estar satisfeita.
    Desde a primeira noite que passaram juntos, h dez dias, o romance vinha se desenrolando s mil maravilhas. Quando o servio lhes permitia, passavam as noites 
juntos. s vezes, passeavam na praia ao entardecer, ou ento jantavam em algum restaurante da cidade. A paixo que os unira no diminura, mas sim se aprofundara, 
tornando os momentos de amor ainda mais gratificantes. David a desejava de todas as formas: como amante, companheira, amiga.
    Durante o dia Andrea reerguia suas barreiras, as quais,  noite, David destrua. Mas, a seu ver, no poderia se deixar envolver emocionalmente num caso que, 
segundo ela mesma, no passava de um romance passageiro. Continuariam a se ver s at o momento em que o relacionamento lhes trouxesse alegria e prazer. Nada de 
promessas ou compromissos. Por isso, Andrea achava que deveria se preparar para o dia em que David resolvesse abandon-la.
    Mais cedo ou mais tarde este dia chegaria. A espera era angustiante e a deixava ansiosa. Afinal, paixes violentas terminam com a mesma rapidez com que comeam.
    Conhecendo-o melhor, Andrea chegara  concluso de que no tinham quase nada em comum. A atrao era a nica coisa que os unia. Pensando nisso, na fragilidade 
daquele relacionamento, sabia que precisava se preparar para o fim.
    E, no plano profissional, teria que estar preparada para enfrent-lo como produtor.
    Felizmente, quanto a este aspecto, no haveria problema.
    David havia lhe contado sobre seus planos para aumentar a participao de Clarisse no documentrio. Aps ouvi-los, Andrea concordara em marcar mais dias para 
as gravaes. Mas por um salrio a ser combinado. No. tanto pelo dinheiro, mas queria for-lo a promover o novo livro de Clarisse, que em breve estaria  venda.
    Aps muitas negociaes, chegaram a um acordo: a divulgao do livro seria feita em outros dois programas da estao e Clarisse no receberia nada a mais para 
gravar outros segmentos do documentrio, incluindo a entrevista na casa de Alice Van Camp. Ambos saram da sala de reunies satisfeitos com o acordo.
    Clarisse recebeu a notcia do novo contrato a caminho para o estdio, e agradeceu displicentemente. Durante todo o percurso a conversa entre elas girara sobre 
eixos diferentes, como se estivessem falando sozinhas. Clarisse estava absolutamente area.
    -  Voc acha que devo encomendar o bolo ou faz-lo em casa?
    -  Uma divulgao em dois programas do canal estatal no  coisa fcil de se conseguir - Andrea comentou, desanimada com a  distrao da me, procurando um  
lugar no estacionamento do estdio.
    -  Sei disso, querida. O meu editor j disse que vai at me enviar uns exemplares   de antemo.  Filhinha, o  que acha de fazermos uma recepo ntima ao ar 
livre, s para os mais chegados? - E, refletindo melhor, acrescentou: - No sei, no. . . medo que os convidados destruam minhas azalias. Quantos exemplares ele 
ficou de enviar? - quis saber. No sei... Devo ter escrito em algum lugar.  O clima nesta poca  muito instvel. E se chover? Em junho do ano passado, choveu quase 
todos os dias.
    - Pea que mandem, no mnimo. . .   Junho?! - Seu p escapou da embreagem fazendo o carro morrer, depois de um tranco. - Mas. . . estamos em maio! Falta s um 
ms. Me, voc est falando sobre exatamente o qu?
    - Sobre o meu casamento,  claro!
    Andrea agarrou-se firme no volante e voltou-se para encar-la.
    - Mas, um dia destes, voc comentou a respeito de se casar durante a primavera.
    -  Tem razo. Alis, segundo a Astrologia, outubro  meu ms favorvel, mas Alex est to. . .   - Enrubescendo, pigarreou impaciente. Andrea, voc vai deixar 
o carro aqui?
    Resmungando, deu novamente a partida e saiu em busca de uma vaga.
    -  Mame, como pode marcar casamento com um homem que conheceu h to pouco tempo?
    -  Voc acha mesmo que o tempo  importante? - perguntou, sorrindo de modo meigo. - Na minha opinio,  se trata apenas de uma questo de sentimento.
    -  Os sentimentos mudam.
    -  Nada neste mundo  definitivo, querida. No se tem garantia de nada,
    -  Isso  o que me preocupa.
    Ao descer do carro, Andrea prometeu a si mesma ir falar com Alex Marshall. Afinal, algum tinha que encarar a realidade com um mnimo de seriedade. Sua me mais 
parecia uma adolescente apaixonada.
    - No precisa se preocupar, Andrea - disse Clarisse ao caminharem juntas pela calada. - Eu sei o que estou fazendo. Mas, mesmo assim, quero que tenha uma conversa 
com Alex.
    -  Mame,  claro que me preocupo com seu bem-estar.
    -  Entendo como se sente - afirmou Clarisse, apertando-; lhe as mos carinhosamente. - Meu cabelo est bom?
    Andrea beijou-lhe o rosto e tranquilizou-a:
    -  Voc est linda.
    -  Obrigada. - Ao se aproximarem da porta do estdio, riu um tanto nervosa e comentou: - Acho que tenho andado muito vaidosa. Mas Alex  um homem to bonito! 
Preciso me cuidar, no acha?
    -  Sem dvida.
    "Bonito, charmoso, educado. Que defeitos ter?", Andrea pensou. No sossegaria enquanto no os descobrisse.
    -  Clarisse!
    Mal haviam cruzado a porta de vidro quando Alex veio pelo corredor em sua direo, os olhos brilhando de emoo.
    - Voc est linda!
    Segurando-lhe as mos, Alex voltou-se para Andrea, visivelmente comovido.
    -  Srta. Fields. - Relutante, soltou uma das mos de Clarisse para cumpriment-la. - Devo dizer que  mais dedicada que meu prprio empresrio. Eu havia planejado 
ir buscar Clarisse em casa.
    -  Ora, Andrea gosta de movimento - comentou Clarisse, num tom pacificador. - Alm do que, sou to distrada que, se no fosse por ela, perderia todos os meus 
compromissos.
    -  Fique tranqila - disse Andrea. - Vou ver se j esto  sua espera.
    Consultando o relgio, abriu a porta  prova de som do estdio quando David se aproximou.
    -  Bom-dia, Andrea. Veio para ficar?
    -  Estou apenas cuidando de minha cliente. Ela est. ..
    Ao olhar para trs, por sobre os ombros, as palavras fugiram-lhe. Ali, em pleno corredor, Clarisse e Alex trocavam um beijo apaixonado. Pasma, Andrea continuou 
a olh-los enquanto um turbilho de emoes a invadia.
    - Parece que j esto cuidando muito bem de sua cliente - ele murmurou. Como no houvesse resposta, puxou-a para  sala ali perto. - Quer sentar?  -- No. No, 
eu... 
    -  Calma, Andrea.
    Numa frao de segundo, a raiva substituiu o espanto. - Ela  minha me!
    - Isso mesmo - David foi at a mquina de caf e trouxe duas xcaras. - E voc  filha dela, no sua tutora.
    -  No posso ficar aqui parada enquanto ela... ela...
    -  Beija o homem por quem est apaixonada? - sugeriu, estendendo-lhe uma das xcaras.
    - David, ela no est raciocinando direito. - Com um gole, esvaziou a xcara. -  Parece at  uma garotinha  de colgio.
    - Est to... 
    -  Apaixonada - repetiu a palavra de uma maneira que Andrea no gostou.
    -  Detesto quando me interrompe! Profundamente irritada, ps a xcara vazia de lado.
    -  Sei disso.  Oua, por que no nos encontramos hoje  noite na sua casa? Podemos comear fazendo amor na sala, seguindo, ento, at o quarto e, finalmente, 
terminamos no chuveiro. O que acha?
    -  David, Clarisse  minha me e me preocupo com ela. Eu devia. ..
    -  Se preocupar mais consigo mesma - concluiu, pousando-lhe as mos nos quadris. - E comigo. - Insinuante, resvalou-as pelas costas. - Voc devia estar muito 
preocupada comigo.
    -  Quero que voc...
    -  Sei exatamente o que quer. - Seu tom de voz era grave e rouco, fazendo-a arrepiar-se. Curvando-se, David roou-lhe de leve os lbios. - Sabe que sua respirao 
se altera toda vez que fao isto? Depois, seu corpo comea a tremer.
    Quase sem foras para protestar, tentou empurr-lo.
    -  David, fizemos um acordo, lembra-se? Estamos em hora de trabalho.
    -  Me processe - disse, deslizando as mos por sob a blusa dela. - O que est usando por baixo  desta blusa, Andrea? Estou louco para descobrir.
    -  Nada de especial. - Surpresa, pegou-se acariciando-lhe o peito. - David, por favor, estou falando srio. Fizemos  um trato. - Ele contornou-lhe o lbio inferior 
com a ponta da lngua. - No vamos misturar. .. no...
    Esquecendo-se de tudo, puxou-o para mais perto e beijou-lhe a boca com paixo.
    S David era capaz de despertar-lhe um desejo to intenso, to avassalador. Era impossvel resistir ao toque experiente daquelas mos fortes.
    Ele retribuiu-lhe o beijo com a mesma volpia. O medo de serem vistos excitava-os ainda mais.
    Num gesto de abandono, Andrea lanou os braos em torno do pescoo de David e pressionou seu corpo contra o dele.
    -  Oh, perdo! - Clarisse parou  entrada da sala, pigarreando. Baixando o olhar, concluiu que no ficaria bem observ-los, por mais contente que estivesse. 
- Vim apenas dizer que j esto  nossa espera.
    Recompondo-se, absolutamente sem jeito, Andrea respondeu:
    - timo. J estou indo.
    Esperando at que a porta fechasse, praguejou furiosamente.
    -  Agora esto empatadas - disse David. - Voc a viu e ela a pegou em flagrante.
    Bastante brava, lanou-lhe um olhar letal.
    -  Isto no  brincadeira.
    -  Sabe o que descobri a seu respeito nestes ltimos dias, Andrea? Voc leva as coisas muito a srio.
    -Talvez tenha razo. Mas j pensou se fosse um dos rapazes da equipe que entrasse aqui?
    -  E da? Ele veria o produtor beijando uma mulher muito atraente. S isso.
    __Ele veria voc me beijando durante o expediente. Isto  totalmente antiprofissional, ser que no entende? O boato ia se espalhar por a em questo de minutos.
    __ E da?
    __ E da? David, isto  exatamente o que no quero. Por acaso se esqueceu do nosso trato? No quero o pessoal da equipe ou quem quer que seja bisbilhotando nossa 
vida pessoal.
    Erguendo as sobrancelhas, ele pensou sobre o assunto e, ento, falou:
    -  No me lembro de termos discutido a  questo em detalhes.
    -  Claro que discutimos - alegou, apanhando a bolsa. - Logo no princpio.
    -  Pelo que me lembro, a idia era mantermos nossa vida profissional separada da pessoal.
    -  Foi o que falei.
    -  Mas o que voc est querendo  manter em segredo o fato de sermos amantes.
    -  Simplesmente  no  quero   que   publiquem   a   notcia  no jornal.
    Para sua prpria surpresa, David percebeu que estava furioso.
    -  Para voc, no existe meio-termo, no? - indagou, enfiando as mos no bolso.
    -  No, no existe. - Suspirando, Andrea deu um passo  frente. - Quero apenas evitar as fofocas. Tanto agora como quando o romance acabar.
    No era preciso ser telepata para saber que, desde o incio, Andrea j se preparava para o fim do relacionamento entre eles. A idia magoou-o profundamente.
    -  Entendo. Bem, como queira. - Caminhando at a porta, abriu-a. - Vamos tentar levar a coisa a seu modo.
    No, ele no saberia dizer por que o comportamento dela o irritava tanto. Afinal, as regras de Andrea eram bastante razoveis e lhe facilitavam a vida. Ela no 
lhe fazia cobranas mas tambm no aceitava que as fizesse, A mesma poltica adotada por ele em seus relacionamentos anteriores. Andrea no permitia que suas emoes 
interferissem na vida profissional; exatamente o que ele alegava no passado.
    O problema era que David no pensava assim em se tratando de seu romance com Andrea.
    
    Um problema com uma das cmeras obrigou o diretor a suspender a gravao por alguns minutos. Aproveitando o intervalo, Andrea cruzou o estdio e foi ao encontro 
de Alex.
    Observando-a, David admirou-lhe a graa no andar e lembrou-se dos momentos que passaram juntos. Ponderando, concluiu que era preciso achar um modo de faz-la 
ver que no era s desejo que sentia por ele, mas que tambm o amava.
    -  Sr. Marshall. - Andrea j trazia o discurso pronto e estava decidida a no se deixar abater. - Poderamos conversar por um instante?
    -  Claro. - J esperando por isso, Alex guiou-a at a porta do estdio. - Pelo visto teremos uns minutos para tomarmos um cafezinho.
    Juntos, caminharam at a sala onde ela e David haviam estado. Desta vez, ela foi at a mquina e trouxe duas xcaras. Contudo, antes que pudesse dar incio ao 
discurso que j preparara, Alex comeou a falar.
    -   sobre Clarisse que deseja conversar? - Puxando um de seus havanas do bolso, indagou: - Voc se importa?
    -  No, no. Sim, sr. Marshall,  sobre ela que quero conversar.
    -  Ela me contou que voc estava pondo objees aos nossos planos' de casamento - comentou, entre uma baforada e outra. - Confesso que fiquei um tanto confuso 
a princpio, mas, ento, Clarisse me explicou que, alm de empresria, voc tambm  filha dela. Vamos nos sentar?
    Uma conversa amigvel no era exatamente o que Andrea tinha em mente, mas, no querendo parecer grosseira, concordou.
    -  Fico satisfeita que Clarisse tenha lhe contado a verdade.
    Torna as coisas mais fceis para mim. Tenho certeza de que o senhor agora compreende como me sinto; me preocupo muito com mame.
    -  Eu tambm.
    Observando-o recostar-se no pequeno div, Andrea estudou-o com ateno e logo percebeu por que sua me se apaixonara por ele. Alex era extremamente charmoso.
    - Voc, melhor do que ningum, deve saber que criatura adorvel  Clarisse.
    -  Sim, sei. - Bebericando o caf, procurou lembrar-se do que planejara dizer. - Clarisse  mesmo adorvel, mas o fato  que vocs se conhecem h muito pouco 
tempo, sr. Marshall.
    -  Por favor, me chame de Alex.
    -  No faz nem dois meses que se encontraram.
    -  Me apaixonei por ela cinco minutos depois de conhec-la, srta. Fields. Ou melhor, Andrea, se me permite. Afinal, serei seu padrasto.
    Padrasto. . . Andrea nunca pensara neste aspecto. Surpresa, limitou-se a observ-lo, a xcara suspensa a meio caminho da boca.
    -  Tambm sou pai - ele prosseguiu - e conheo a reao dos jovens, quando se trata de amor entre pessoas mais velhas.
    -  A questo no  essa.
    - Claro que . Voc  importante para Clarisse e meus filhos tambm so importantes para mim. Gostaria muito que vocs aceitassem o fato de que nos amamos.
    Confusa, Andrea ps a xcara de lado.
    -  Sr. Marshall, isto , Alex, eu no sei o que dizer. Voc e jornalista h mais de vinte e cinco anos, viajou o mundo todo, conheceu coisas incrveis. Clarisse 
 uma mulher muito simples.
    -Simples e cativante. Principalmente para um homem como eu. A vida no tem sido fcil para mim desde que fiquei vivo. E realmente venho pensando em me aposentar. 
- Ao recordar-se do momento em que Clarisse segurou-lhe a mo e revelou a todos o segredo, Alex sorriu. - Sabe de uma coisa? Ando cansado desta vida agitada, e quando 
conheci Clarisse percebi que podia ser feliz ao lado dela.
    O discurso que Andrea preparara tornara-se intil. Alex Marshall estava sendo totalmente sincero. Clarisse era mesmo uma mulher de sorte.
    Ponderando bem, resolveu deixar de lado suas idias preconcebidas e aceitar a realidade.
    Mais calma, ergueu os olhos e o encarou, sorrindo.
    -  Alex, alguma vez j provou da comida que Clarisse prepara?
    -  Claro, diversas vezes. Alis, ela me disse que j deixou pronto um molho de macarro para hoje  noite. Sua comida ... extica, diferente de tudo que j 
provei.
    Bem, depois disso, no havia mais nada a dizer. Andrea no tinha mais nenhum argumento.
    -  Acho que mame tirou a sorte grande.
    Alex levantou-se e estendeu-lhe a mo. Ento, surpreendendo-a, beijou-lhe carinhosamente a testa.
    -  Obrigado.
    -  Bem, acho melhor voltarmos ao estdio ou logo viro  nossa procura.
    -  Creio que Clarisse, com seus poderes, no demoraria a nos encontrar.
    -  Isso no aborrece voc? - ela indagou, curiosa, parada  porta.
    -  E por que deveria? Faz parte de seu jeito de ser. Eu amo sua me exatamente como ela .
    -  Que maravilha!
    Ao entrarem no estdio, Clarisse imediatamente voltou-se para fit-los. Ento, ao perceber que tudo correra bem, sorriu aliviada.
    Andrea aproximou-se e, como de costume, deu-lhe dois beijinhos. _S h uma coisa da qual no abro mo - comentou.
     - O que ?
    - Fao questo de lhes dar de presente a festa do casamento.
    Encantada, Clarisse abraou-a.
    __ Querida, quanta gentileza. Mas  tudo to trabalhoso.
    __ Para a noiva, realmente . Preocupe-se apenas em escolher o vestido e o enxoval. Eu vou cuidar do resto.
    __ Bem, j que insiste. . .
    -Ser uma satisfao para mim. Preparem a lista de convidados e deixem os detalhes por minha conta.
    Um dos rapazes da equipe veio lhes pedir que voltassem ao cenrio. Alex conduziu Clarisse at l enquanto Andrea retomava seu lugar perto de David.
    -  Como ? Sente-se melhor? - ele quis saber.
    -  Um pouco - mentiu. Afinal, jamais admitiria a verdade. - Assim que as gravaes terminarem comearei a cuidar dos preparativos para o casamento.
    -  No, no. Isso vai ter que esperar at amanh, porque pretendo mant-la bastante ocupada esta noite.
    
    David era mesmo um homem de palavra. Andrea mal havia chegado em casa, tirado os sapatos, quando a campainha tocou.
    -  David - exclamou. - Voc disse que ainda tinha alguns compromissos.
    -  E j cumpri todos. Que horas so?
    -  Quinze para as sete - afirmou, aps consultar o relgio. - Pensei que s fosse chegar bem mais tarde.
    -  E ficou chateada por eu ter vindo  antes?  - brincou, desabotoando-lhe os primeiros botes da blusa.
    -  No, mas voc poderia ter telefonado...
    -  Acontece que j conheo seu esquema. - Devagarinho, comeou a provoc-la com seus beijos. - s sete, voc liga a secretria eletrnica e fica impossvel falar 
com voc. Por isso, resolvi vir direto.
    Andrea deu um passo para a frente, aproximando-se mais de David. Esticando os braos, deslizou as mos por seu peito musculoso.
    -  Est com fome?
    -  Muita.
    -  A nica coisa que posso servir a voc  um peixe com molho branco que tenho no freezer.
    Tombando a cabea para trs, Andrea deliciou-se com os beijos de David.
    -  Bem, ento, teremos que  arranjar outro jeito de matar a fome.
    Escorregando as mos pela cintura delgada, ele abriu-lhe o fecho da saia e a retirou.
    Andrea ergueu-lhe o suter e ajudou-o a tir-lo pela cabea.
    -  Tenho certeza de que encontraremos alguma outra forma. .. - disse, explorando o peito msculo enquanto desabotoava-lhe a camisa.
    Descontraindo-se, resolveu seduzi-lo bem devagarzinho.
    Tendo a blusa meio aberta, pressionou o corpo dele. Olhando-o com paixo, deslizou as mos por suas coxas com movimentos sugestivos que o fizeram gemer baixinho. 
Excitada, explorou-lhe o corpo com a boca at que David, no resistindo, deitou-a no cho, cobrindo-a com seu corpo.
    Alucinado com as carcias de Andrea, despiu-a por completo, livrando-se, em seguida, de suas prprias roupas.
    -  Voc me faz perder a cabea, Andrea.
    Mal contendo o desejo, David penetrou-a com um s movimento decisivo, quase bruto.
    A urgncia que os consumia tornou o ato violento, selvagem. Pela primeira vez perceberam que se haviam livrado de todas as barreiras e preconceitos, entregando-se 
plenamente um ao outro.
    Minutos depois, atingiam o xtase.
    
    Olhando-a com carinho, David comentou:
    - Gosto de v-la nua.
    Um tanto constrangida, Andrea permaneceu calada.
    -  Venha, moa, vamos tomar uma chuveirada.
    Com um movimento rpido, ele ficou de p, trazendo-a consigo.
    -  Mas por que no jantamos primeiro, David?
    Como no conseguisse convenc-la, ergueu-a nos braos e caminhou em direo ao banheiro.
    -  David! Me ponha no cho. Que coisa mais boba.
    -  Adoro carregar mulheres nuas - ele disse, colocando-a no cho ao lado do box.
    -  Pelo visto, j  um hbito seu - disse num tom irnico ao abrir as torneiras do chuveiro.
    -  Tenho tentado me regenerar ultimamente  - comentou sorrindo, puxando-a consigo para a gua.
    -  Meu cabelo!
    Inutilmente tentou evitar que o jato de gua os molhasse, mas era tarde. Resignada, apanhou o sabonete e comeou a ensaboar-se.
    -  Voc est me parecendo bastante alegre esta noite. Hoje, no estdio, pensei que estivesse aborrecido comigo.
    -  E mesmo? - indagou, fazendo-se  de desentendido - Que motivos eu teria para me aborrecer com voc?
    Apanhando o sabonete das mos dela, ps-se a ensabo-la com movimentos lentos.
    -  No sei, quando conversvamos na... - As carcias a impediam de raciocinar. - Esquea. O importante  que est aqui comigo.
    A confisso o alegrou.
    -  Verdade?
    -  Verdade - confirmou, abraando-o com entusiasmo. - Gosto de voc. Fora do estdio.
    Gostar talvez no fosse o suficiente, mas j era um comeo, ele pensou.
    -  Gosto de voc. Fora do escritrio.
    Ao sair do chuveiro, Andrea ouviu a campainha tocar.
    -  Ah. . . no.. . Quem pode ser a esta hora?
    -  Deixe que eu atendo - ofereceu-se ele, enrolando uma toalha nos quadris.
    Praguejando, Andrea pegou o robe que mantinha pendurado atrs da porta. Se fosse algum do escritrio, como iria explicar o fato de David Brady, produtor, estar 
em sua casa quela hora, com uma toalha enrolada no corpo?
    Como no podia fazer nada, resolveu aguardar os acontecimentos ali mesmo onde estava. Mas, ento, lembrou-se das roupas espalhadas pelo cho da sala e levou 
a mo  testa.
    Depois de alguns minutos, resolveu ir ver quem havia chegado. Caminhou pelo corredor at a sala e teve uma grande surpresa.
    A mesa havia sido posta com uma toalha de linho branca, loua azul-clara e copos de cristal. Sobre o aparador, dois castiais de prata sustentavam quatro velas, 
j acesas.
    -  Espero que tudo esteja a seu contento, sr. Brady.
    -  Sem dvida que est - disse ele ao rapaz, assinando uma nota.
    -  Quando quiser,  s telefonar e viremos apanhar tudo. E, com um breve aceno, o rapaz os deixou.
    -  David...  O que  isso?
    -  Bem, aqui temos um delicioso coq au vin - anunciou, erguendo a tampa de uma das travessas.
    -  Mas como. . .
    -  Encomendei o jantar para as oito.
    E, consultando o relgio, constatou a pontualidade do servio. Num gesto descontrado, vestiu a cala, deixando a toalha sobre o sof.
    Andrea aproximou-se da mesa para poder admirar melhor os detalhes.
    - David. . .   lindo. Nunca imaginei uma surpresa destas!
    -  Lembro-me que, uma vez, voc me disse que gostava de ser mimada. - Vestindo o suter, aproximou-se,  abraando-a com carinho. - Gosto de satisfazer suas vontades.
    Embora ela se mantivesse calada, David notou-lhe os olhos midos, denunciando a emoo.
    - Vou me vestir.
    - No. Voc est linda assim.
    Lutando contra as lgrimas, Andrea respirou fundo.
    -  No me demoro.
    Mas David segurou-lhe o queixo e obrigou-a a encar-lo. Ao v-la chorar, secou-lhe o rosto com a ponta do dedo.
    -  Por que est chorando?
    -  No sei. . .
    -  Costuma agir assim quando um homem lhe oferece um jantar?
    -  No, claro que no. Mas eu no esperava pela surpresa. David segurou-lhe uma das mos e beijou-lhe os dedos suavemente:
    -  Sou um produtor humilde mas tenho classe.
    -  No foi isso que eu quis dizer - esclareceu, olhando-o bem dentro dos olhos. - David, no me acostume mal.
    Ele entendia a preocupao de Andrea; temia am-lo e um dia perd-lo. Talvez aquele fosse, no fundo, o mesmo medo seu. Mede que resolvera abandonar desde o dia 
em que a levara a passear na praia.
    -  Acho que  tarde demais para desistirmos, Andrea.
    Pensando nas desiluses do passado, Andrea chegou  concluso de que era intil tentar fugir. Se um dia o relacionamento entre eles acabasse, voltaria a viver 
a vida do modo como fizera at ento. Mas, naquele instante, nada a impediria de ser feliz.
    
    
    CAPTULO 9
    
    -  Mais um ponto a ser esclarecido - ditou Andrea .- no item nmero quinze, clusula B. Conforme o estipulado, minha cliente exige que uma bab a acompanhe diariamente 
ao estdio para cuidar da criana. As despesas correro por conta do contratante. O trailer que servir como camarim nas gravaes externas deve conter um bero 
e...
    Pela terceira vez, Andrea perdia a linha de raciocnio durante o ditado.
    -  Fraldas? - sugeriu Diane.
    -  O qu? - ela indagou, desviando a ateno da janela.
    -  S tentei ajud-la. Quer que eu leia novamente o pargrafo?
    -  Sim, por favor.
    Enquanto a secretria relia, Andrea olhou, distrada, para o contrato que tinha nas mos e lembrou-se:
    -  Um  cercadinho.  Puxa,  nunca  vi  algum  to  exigente. Jamais pensei que ela fosse dar uma boa me.
    -  De fato, no combina muito com a imagem de mulher fatal que ela insiste em transmitir.
    - Espero que como atriz principal deste seriado para a TV a nossa cliente crie um novo estilo. Bem, Diane, termine com o chavo de costume.
    -  Quer a carta pronta para hoje?
    -  O que voc perguntou?
    -  para hoje, Andrea? - Diane a observou com um riso nos lbios. - Quer que a envie agora?
    - Ah, sim, sim. - Ento, consultando o relgio, constatou j ser cinco da tarde. - Oh, perdo, Diane. J est na sua hora, eu no tinha percebido.
    -  No tem problema. - Fechando o bloco de anotaes, a secretria ficou de p. - Voc me parece um tanto distrada hoje. J est planejando o fim de semana 
prolongado?
    -  Prolongado?
    -  Ora, vai me dizer que no se lembrou do feriado? - Inconformada, balanou a cabea. - Est todo mundo agitadssimo.
    -  No - comentou, arrumando a pilha de papis sobre a mesa. - No tenho plano nenhum para o feriado.
    Balanando a cabea, procurou entender o que se passava consigo. No conseguia mais se concentrar no trabalho, o servio acumulava-se dia a dia, sua vida estava 
um caos.
    Ento, erguendo os olhos, percebeu que a secretria aguardava instrues.
    -  Bem, mas estou certa de que voc tem seus planos. A carta pode esperar at tera-feira, j que segunda o correio no funciona.
    -  Para ser franca, estou apostando tudo neste fim de semana. - E, verificando o horrio, acrescentou: - Bem, acho que j  hora.. .
    -  Pode ir, Diane, e divirta-se. Cuidado com o sol!
    -  No se preocupe: no pretendo pr os ps para fora de casa durante os trs dias.
    Quando a porta fechou, Andrea tirou os culos e espreguiou-se na cadeira. O que estava acontecendo? Por que no conseguia se concentrar mais do que cinco minutos 
num assunto qualquer?
    "Excesso de trabalho?", indagou-se, olhando para os papis  sua frente. No, sempre fora acostumada a trabalhar muito. Pouco sono? Talvez. O fato de estar dormindo 
sozinha tambm poderia contribuir. Mas.. . que bobagem. Uma coisa nada tinha a ver com a outra. H dias que David sara da cidade a negcios e Andrea achava que 
o fato em nada a influenciava.
    Mas Andrea teve de admitir que sentia saudade dele.
    Apanhando um lpis, rolou-o de um lado para outro. E, por acaso, sentir saudade seria crime? Sentir saudade no significava que dependia dele, mas apenas que 
se acostumara  sua companhia.
    Aborrecida consigo mesma pela falta de disciplina e determinao, afastou tais pensamentos da mente e retomou o trabalho. Por dois minutos.
    Tudo por culpa de David, pensou, deixando o lpis tombar sobre a mesa. O jantar romntico  luz de velas e agora aquele buqu de margaridas enviado de Chicago 
diretamente para o escritrio. .. Num gesto automtico, esticou a mo e tocou uma das flores dispostas num vaso sobre sua mesa. David tentava de todas as formas 
transform-la numa boboca romntica. E estava conseguindo.
    Era preciso dar um fim naquilo tudo.
    Resoluta, ps os culos e retornou ao trabalho decidida a no pensar mais em David.
    Minutos mais tarde; uma batida leve na porta a tirou de novos devaneios.
    -  Entre - exclamou, voltando  realidade.
    -  Voc no vai embora? - indagou Abe, fechando a porta atrs de si.
    Embora? Mal trabalhara a tarde toda.
    -  H alguns detalhes que preciso verificar. Abe, o contrato de Forrester vence dia primeiro de junho e precisamos cuidar da renovao. O ltimo filme dele foi 
o maior. . .
    - Cuidarei disso tera-feira pela manh, sem falta. Agora preciso ir preparar a carne.
    - Como?
    - Estamos planejando um grande churrasco l em casa, neste fim de semana - comentou, dando uma piscadela marota. -  o nico jeito de minha mulher me deixar 
cozinhar. Posso reservar um pedao especial para voc?
    Andrea sorriu.
    -  No, no. Obrigada. Ainda me lembro bem da ltima vez que comi de seu churrasco.
    -  Aquele dia eu estava sem sorte, o aougueiro me serviu mal.
    Colocando os polegares no cinto da cala, Abe imaginava como seria bom poder passar trs dias no campo, longe da poluio. Nada de terno e gravata ou sapatos 
apertados.
    -  Isso  o que todos dizem. Bom feriado, Abe. Tera-feira recomeamos com fora total, est bem?
    -  Perfeito - concordou, j de sada. - Caso mude de idia quanto ao churrasco,  s aparecer por l.
    -  Certo, obrigada mais uma vez.
    Tentando se concentrar novamente em seus afazeres, ouviu o riso alegre dos funcionrios saindo para o feriado.
    Parado  porta, David observou-a. Enquanto todos deixavam o servio, agitados, Andrea permanecia sentada  mesa, cuidando da papelada. Imediatamente, o cansao 
que o fizera dormir durante o vo desapareceu.
    O cabelo de Andrea, impecvel, emoldurava-lhe o rosto bastante srio. O tailleur elegante realava-lhe o porte ereto, mesmo ao escrever. Uma mulher incrivelmente 
profissional. Nada de pulseiras ou anis, nada de rendas e babados.
    O nico toque de romantismo ali era dado pelas margaridas que lhe enviara naquela manh. Ao v-las, sorriu satisfeito. Olhando para Andrea, sentiu o corao 
pulsar mais forte.
    Continuando suas anotaes, Andrea mantinha a ateno voltada para o trabalho.
    Continuando a olhar para os papis, perguntava-se como poderia estar perdendo tempo com divagaes tendo tanto servio  frente. Mas at mesmo durante a leitura 
de um contrato importante via-se nos braos de David.
    Exausta, tirou os culos e esfregou a nuca, procurando aliviar a tenso.
    Ento, de repente, uma intuio fortssima a fez erguer os olhos na certeza de que o encontraria.
    E, realmente, l estava David parado  porta.
    O fato de Andrea t-lo notado antes mesmo que tivesse chance de se manifestar no o aborreceu. Era preciso comear a se acostumar com seus poderes.
    Andrea teve vontade de ir correndo ao encontro dele e atirar-se em seus braos para que David a erguesse e juntos rodopiassem. Porm, no o fez; jamais se permitiria 
uma atitude to tola, to frvola. Em vez disso, ps o lpis sobre a mesa e comentou, simplesmente:
    -   bom v-lo de volta.
    -  Tive um pressentimento de que a encontraria aqui - afirmou, desejando poder abra-la. Mas apenas enfiou a mo no bolso e se recostou contra o batente da 
porta.
    -  Ah.. . um pressentimento?
    -  Sim. - Aos poucos, foi se aproximando da mesa. - Voc est linda.
    Recostando-se na cadeira, Andrea aproveitou a oportunidade para estud-lo.
    -  E voc me parece cansado.
    -  A viagem foi muito longa, mas espero que seja a ltima. - Esticando o brao, apanhou uma das margaridas do vaso e colocou-a entre os cabelos dela. - J tem 
algum programa para esta noite?
    Mesmo que tivesse, negaria, mas, por mera formalidade, consultou a agenda, fazendo-se de difcil.
    -  No.
    -  E para amanh?
    Virando a pgina, verificou. 
    - Parece que no. 
    - E domingo?
    - Acho que mereo pelo menos um dia de descanso. -Segunda-feira?
    - Por ser feriado, nada ir funcionar. Pensei em passar o dia lendo alguns roteiros e cuidando das plantas.
    -  Entendo. No sei se j percebeu, mas o expediente j terminou.
    -  Sim, j percebi - Seu corao j batia acelerado no peito, alterando-lhe a respirao.
    Sem uma palavra, David ofereceu-lhe a mo. Aps uma breve hesitao, Andrea segurou.
    -  Vamos para a minha casa?
    Ela teve vontade de recusar o convite, mas decidiu aceit-lo. Levantou-se e apanhou a bolsa e a pasta.
    -A pasta fica. 
    - Mas preciso...
    -  No, Andrea. - Curvando-se, beijou-lhe as mos com delicadeza. - Por favor.
    Concordando, Andrea deixou a pasta sobre a mesa e fechou o escritrio.
    Por estranho que pudesse parecer, Andrea no se sentia constrangida de ser vista de mos dadas com David, numa atitude que considerava tpica de uma adolescente.
    Ele no a beijara nem abraara, mas o simples fato de se darem as mos j lhe aquecia o sangue, fazendo-o correr mais rpido em suas veias.
    Satisfeita, concordou em deixar seu carro na garagem. Era bom poder desfrutar a companhia dele de modo descontrado.
    Ao se aproximarem do carro de David, Andrea notou uma valise no banco traseiro.
    - Voc ainda no passou na sua casa depois que chegou de viagem?
    - No.
    Sorrindo, ficou feliz que ele tivesse querido v-la antes de mais nada.
    -  Tenho uma valise igual a esta - comentou, sentando-se no banco de passageiros.
    -  Esta  a sua - afirmou, dando a partida no motor.
    -  Minha? - Surpresa, virou-se para trs a fim de verific-la de perto. - Mas no me lembro de lhe ter emprestado minha mala.
    -  E no emprestou. As minhas esto no porta-malas. Deixando o estacionamento, tomaram uma das vias principais
    de Los Angeles, congestionada devido ao feriado prolongado.
    -  Se no emprestei, o que ela est fazendo aqui?
    -  Na vinda para c, passei no seu apartamento e pedi  empregada que arrumasse umas roupas para voc.
    -  Umas roupas?
    Andrea olhou bem para a mala e, franzindo as sobrancelhas, voltou-se para ele.
    -  Voc  um bocado petulante, David. O que acha que vou faz...
    -   muito simptica a sua empregada - ele a interrompeu. - Eu apenas quis que voc se sentisse mais  vontade durante o fim de semana. Pensei em mant-la nua, 
mas no seria o traje ideal para um passeio nas montanhas.
    -  Ah. .. pensou, ? Voc s pensa em si. Como acha que tem o direito de invadir minha vida desta forma? E se eu tivesse outros planos?
    -  Seria uma pena - comentou, pegando o desvio que seguia em direo s montanhas.
    -  Pena para quem?
    -  Para os seus planos, pois no pretendo perd-la de vista durante os prximos trs dias.
    -  Ah. ..  no pretende? - indagou irritadssima. - E o que eu pretendo no importa? Talvez voc ache muito romntico...  raptar uma mulher durante um fim de 
semana, mas, quanto  mim, prefiro ser consultada. E pare j o carro!
    - De jeito nenhum - comentou.
    Na verdade, j esperava por este tipo de reao. No fundo aguardara-la com ansiedade. Afinal, h dias que no se divertia um pouco. Sorrindo, acendeu um cigarro.
    - Pois no vejo graa nenhuma nisso.
    Seu riso de satisfao apenas irritava-a ainda mais.
    - Que pena.
    - Voc vai se arrepender - ameaou, recostando-se no assento, os braos cruzados sobre o peito.
    -  S no me perdo por no ter tido esta idia antes. Apoiando o brao na janela aberta, concentrou-se na estrada tranqila que levava  serra.
    Furiosa, Andrea manteve-se em silncio a maior parte do percurso, pensando numa forma de faz-lo pagar por toda petulncia.
    Finalmente, David estacionou na passagem pedregosa ao lado da casa. No mesmo instante, Andrea apanhou a bolsa e saiu do carro. Bastante ligeiro, David contornou 
o automvel e a segurou pelo brao, forando-a a encar-lo. Andrea virou-se, apontando-lhe a bolsa como se fosse uma arma.
    -  Ah, quer brigar? - ele perguntou.
    -  Ora, eu no lhe daria este gostinho - respondeu, livrando-se dele. - Estou indo embora, isso sim.
    -  No diga! - Sorrindo, observou-lhe os sapatos de salto fino e a saia justa. - Neste trajes, no venceria os primeiros dois quilmetros.
    -  Isso  problema meu.
    Meditando alguns segundos,  ele comentou:
    -  Bem, creio que precisarei ser mais convincente.
    E, num gesto rpido, abraou-a pela cintura e a colocou sobre um ombro.
    - Ora... me ponha no cho!
    A princpio, Andrea procurou no reagir, mas, depois, mudou de idia e passou a golpe-lo nas costas com a bolsa.
    -  Num instante - anunciou, caminhando em direo  porta.
    -  Ponha-me no cho, j! Isso no tem graa nenhuma.
    -  Pois eu estou me divertindo muito. - Retirando as chaves do bolso, abriu a porta. - E trate de ficar quieta ou pode se machucar.
    -  No vou mais tolerar isto. - E, com agilidade, tentou dar-lhe um pontap bem localizado, mas David foi mais rpido e segurou-lhe as pernas. - Droga! Me coloque 
no cho, David. Oua, no sei o que deu em voc, mas, se me pedir desculpas j, prometo esquecer o incidente. Certo?
    -  Errado - retrucou, quase chegando ao quarto.
    -  Ento, vamos fazer um trato. Me ponha no cho e prometo no esgan-lo.
    -  J?
    -  Imediatamente.
    -  Como queira.
    Erguendo-a, colocou-a deitada em sua cama.
    -  Mas.. . O que esta havendo com voc? - indagou, atnita, tentando sentar-se.
    -  Acho que estou enfeitiado. - Surpresa com a resposta, Andrea no tentou afast-lo ao v-lo se aproximar. - Pensei em voc todos estes dias - afirmou, afagando-lhe 
a nuca. - Desejei voc todos os minutos em que estive em Chicago.
    -  Mas.. .  Isso  loucura.
    -  Pode ser, mas, de volta para Los Angeles, conclu que a queria s para mim estes trs dias.
    Sua carcia suave e insinuante a fez arrepiar-se.
    -  Se ao menos tivesse me dito, eu...
    -  ...teria arranjado uma desculpa. Talvez concordasse em passar uma noite aqui, mas arranjaria um pretexto para voltar.
    -  No  verdade.
    -  No? Ento, por que nunca quis passar um fim de semana comigo?
    - Por diversos motivos.
    - Entendo - disse, segurando-lhe as mos. - E o principal  o  fato de no querer passar muito tempo a meu lado, estou certo? - Quando ela ameaou protestar, 
ele a impediu. - Voc tem medo que nos tornemos muito ntimos.
    - Ora, no seja ridculo. No tenho medo de voc.
    -  De mim, no - concordou, puxando-a para junto de si. - De ns.
    - David...
    Tremula, Andrea disse a si mesma que tudo no passava de desejo. Era o desejo que fazia seu corao disparar, como agora, deixando-lhe as mos geladas. Excitada, 
deslizou as mos pelas costas rijas de David, sentindo-o reagir  carcia.
    -  No quero pensar em nada por enquanto.
    -  Mais cedo ou mais tarde, teremos que enfrentar a realidade, mocinha.
    -  No - murmurou, beijando-o de leve. - O amanh no existe. S o agora. David, eu quero voc muito.
    Seus beijos provocantes o enlouqueciam at que, transtornado, ele desistiu de contra-argumentar, deixando que a paixo falasse mais forte.
    
    Na tarde do dia seguinte os dois saram para um passeio.
    -  A caminhada lhe far bem.
    J sem flego, Andrea apoiou-se numa rvore.
    -  Duvido. Estou mais morta que viva.
    Ao sarem de casa, seguiram pela trilha de terra, cruzaram o riacho, e foram em frente. Segundo os clculos de David, j deviam ter andado quase dois quilmetros.
    -  Olhe  sua volta, no  lindo?
    As rvores verdinhas agitadas pela brisa suave cobriam quase toda a montanha e o vale, l embaixo. Pssaros de diversas cores cantavam alegres pulando de galho 
em galho quebrando o silncio com seus cantos.  grama misturavam-se flores campestres vermelhas e brancas. Sem dvida, a vista era mesmo belssima.             
'
    - Sim,  uma beleza. Vivendo em Los Angeles, as pessoas at se esquecem de que h lugares como este.
    -  Foi por isso que me mudei para c. J estava cansado da vida na cidade grande.
    -  Trabalho, festas, reunies, coquetis. . .
    -  Exatamente.  uma tranqilidade vir para c depois de um dia de servio. Ver o sol se pr, a chuva caindo,  muito bom.
    Andrea meditou sobre o assunto, apoiando-se no brao de David.
    -  H dias em que tudo d errado no escritrio; ento chego em casa, tiro o telefone do gancho e ouo um disco de Mozart.
    -  A msica clssica acalma.
    -  Sem dvida, mas, antes, esmurro meu travesseiro - disse rindo, divertida.
    David achou graa e comentou:
    -   uma boa ttica. - Ento, beijando-lhe a testa, acrescentou: - Espere s at ver a vista l do alto.
    Desanimada, Andrea massageou o msculo das coxas.
    -  Vamos fazer o seguinte: eu vou para casa e depois, quando voc voltar, me conta como  a vista.
    -  Ora, deixe de preguia. Faz bem respirar um pouco de ar puro. Lembre-se de  que passamos  quase o dia  todo na cama. Precisamos nos movimentar.
    -  Tem razo, mas voc se esqueceu de que tambm j cortamos lenha! Para mim, chega de ar puro por hoje.
    Observando-a, David concluiu que a Andrea que o acompanhava nada tinha a ver cora a empresria sria e compenetrada. Mas, ainda assim, sabia como provoc-la.
    -  Creio que estou em melhor forma do que voc.
    -  Isto  o que voc pensa!
    Determinada a provar sua boa forma fsica, Andrea o acompanhou montanha acima pela trilha de terra at que o suor lhe escorresse pelo rosto.
    Finalmente, msculos doloridos, resolveu desistir.
    - Para mim, basta - afirmou, decidida, sentando-se numa pedra. 
    - S mais cem metros e comeamos a descer.
    - De jeito nenhum.
    - Andrea, conheo um atalho para a volta.
    - No haver volta; pretendo dormir aqui esta noite. Se quiser me trazer um sanduche e um cobertor, eu agradeo. 
    - Eu carrego voc nos braos.
    -  No.
    - E se eu lhe oferecer uma recompensa?
    -  Bem... posso at pensar.
    -  Que tal abrirmos uma garrafa de Cabernet que venho guardando h muito tempo?
    -  De que safra?
    -  Setenta e nove.
    -   um bom comeo. Acho que a recompensa vale mais uns passos.
    -  E, para acompanhar, podemos fazer os medalhes de fil que tirei do freezer.
    -  Tem razo; eu j havia esquecido. - Ento, fingindo meditar sobre o assunto, lambeu os lbios e concluiu: - Os medalhes valem a metade do caminho.
    -  Voc  exigente, no?
    -  De fato.
    -  E o que me diz de ganhar dzias de flores?
    -  Quando chegarmos em casa, as lojas j estaro fechadas. Ningum vai querer aceitar a encomenda.
    -  Para que encomendar quando temos tantas flores aqui mesmo?
    -  Vai mesmo colher flores para mim? - indagou, lanando-lhe os braos em torno do pescoo. - Bem, acho que vale o resto do percurso.
    Sorrindo, recostou-se contra uma rvore enquanto David comeava a apanhar algumas flores.
    Ficar ao lado de David era maravilhoso, cada segundo se tornava especial.
    E, para completar sua felicidade, iria ganhar flores colhidas na hora. Assim que chegassem em casa, colocaria as flores num jarro perto da janela e...
    De sbito, Andrea ficou estarrecida. Os pssaros deixaram de cantar. Voltando-se para David, viu-o como se fosse atravs de uma lente. De repente a dor, o pnico.
    -  No!
    -  Embora pensasse haver gritado, sua voz no passou de um sussurro.  Insistindo,  afastou-se da rvore e foi em sua direo.
    - David! Pare!
    Ao ouvi-la David aprumou-se e amparou-a num abrao apertado. O terror estampado nos olhos dela era o mesmo de quando estivera em Rolling Hills.
    -  Andrea, o que foi? - Embora a abraasse, Andrea ainda tremia incontrolavelmente. - O que aconteceu?
    -  Pare de colher flores, por favor - suplicou.
    -  Est bem, est bem. - Afastando-a, observou-lhe o rosto plido. - Mas, por qu?
    -  H algo errado, no sei dizer o qu.
    -Mas so apenas flores do campo - argumentou, exibindo-lhe o pequeno mao que j tinha nas mos.
    -  No  com elas. Voc ia apanhar aquelas ali, no ia? - perguntou, apontando em direo a umas florzinhas prximas a uma pedra.
    -  Sim, ia. Vamos l dar uma olhada.
    - No - protestou, segurando-o pelo brao. - No toque nelas.
    - Calma.
    Pondo no cho as flores que tinha nas mos, David apanhou um galho seco e foi at o local. Andrea o seguiu e, ao se aproximarem, apontou-lhe um determinado ponto.
    Cauteloso, remexeu a vegetao rasteira com o galho, quando ouviu o guizo da cascavel. Em tempo, puxou Andrea pelo brao e correram at a trilha.
    - Quero voltar para casa - ela disse.
    Ambos percorreram o caminho de volta em silncio, o que contribuiu para que ela se sentisse rejeitada, pois no momento que o viu ameaado, descobriu que o amava. 
Ao entrarem na cozinha, David apanhou dois copos no armrio e ofereceu-lhe uma dose de conhaque.
    Andrea tomou a bebida aos poucos enquanto ele esvaziou o copo num s gole.
    -  Voc vai me levar de volta para Los Angeles?
    -  Ora, que bobagem - alegou, tomando a segunda dose. - Arrumo minha mala num instante...
    -  Voc no vai a lugar nenhum - afirmou David, num tom absolutamente calmo. - Sente-se, Andrea.
    -  David, no admito que me interrompa.
    -  Mas que mulher teimosa! - exclamou, batendo o copo com fora na pia. - Ser que ainda no me conhece o suficiente?
    Bastante alterado, David gritava a plenos pulmes. No com ela, mas consigo mesmo.
    -  Ser que entre ns s pode haver sexo e negcios? - Ns concordamos em...
    -  Voc provavelmente salvou minha vida - disse, olhando para as prprias mos, imaginando o que poderia ter acontecido. - No sei o que lhe dizer...
    Controlando-se, Andrea engoliu em seco.
    -  Eu preferia que no dissesse nada. David aproximou-se, mas no a tocou.
    -  No posso ficar calado. Estou grato pelo que fez, mas no sei como lidar com a situao.
    - No tem problema, est tudo bem - disse, sabendo que a emoo iria tra-la. - Eu no. . .
    -  Me  diga  - pediu  David,   acariciando-lhe   o   rosto. - Como posso ajudar voc?
    Andrea sentia-se absolutamente vulnervel. Mas o carinho estampado nos olhos de David a convenceu.
    -  Por favor, me abrace.
    No mesmo instante ele a trouxe para junto de si, apertando-a contra o peito num abrao reconfortante. No, ele se enganara: havia muito mais do que sexo e negcios 
entre ambos. Havia respeito, amizade e compreenso.
    -  Quer falar sobre o que aconteceu?
    -  Foi horrvel. Vi voc debruado sobre as flores e ento veio o pressentimento, a viso...
    -  Bem, parece que falhei em nosso acordo: no tenho flores para lhe oferecer.
    -  No importa - disse, beijando-lhe o pescoo.
    -  Vou ter que arrumar uma forma de compens-la. Afastando-se, David segurou-lhe as mos. Foi ento que viu o machucado profundo aberto na palma.
    -  Andrea, o que houve com sua mo?
    -  No sei - afirmou, observando-a. - Di quando tento fech-la.
    -  Venha.
    Levando-a at a pia, lavou o ferimento com gua fria.
    -  Ui! Est doendo. 
    - Calma.
    Aborrecido por v-la machucada, sugeriu que subissem para o banheiro, onde guardava os medicamentos.
    Feito o curativo, David obrigou-a a tomar um banho enquanto cuidava do jantar. Andrea aprovou a idia, mas, exausta, resolveu deitar-se s por alguns minutos. 
Tirando as botas, es-   . tendeu-se na cama com o propsito de cochilar.
    David, por sua vez, teve uma idia: pediria ao vizinho que lhe permitisse colher umas papoulas do jardim e faria uma surpresa a Andrea.
    Minutos mais tarde, ao retornar, subiu as escadas certo de encontr-la no banho, quando a viu deitada.
    Parado  porta do quarto, observou-a ali to frgil, to desamparada.
    Aproximando-se, sentou-se na beirada da cama e comeou a refletir para saber o que sentia por ela. No havia mais dvidas de que a amava. O incidente daquela 
tarde veio apenas despertar-lhe uma certeza adormecida.
    Incapaz de resistir, tocou-lhe suavemente os cabelos, afastando-os para o lado.
    Meio adormecida, ela se mexeu e abriu os olhos.
    -  David?
    -  Eu lhe trouxe um presente - disse, entregando-lhe as flores.
    -  Oh!
    Em seus olhos, ele viu refletidas a surpresa e a timidez que seus gestos romnticos lhe provocavam.
    - No precisava.
    - Precisava, sim. - Carinhoso, beijou-lhe os lbios bem de leve, como numa carcia. Dentro, de si, o desejo crescia, inquietando-o.
    -  David?
    Mais uma vez ela lhe chamava, s que agora tinha a cor dos olhos alterada pela paixo.
    -Quietinha. . .
    Acariciando-lhe os cabelos, deliciou-se com a maciez sedosa dos fios dourados.
    -  Alguma vez j lhe disse que  linda?
    Seus lbios se encontraram novamente sem a fria do desejo insatisfeito, mas com a certeza dos que se descobrem.
    -  Faa amor comigo, David - pediu, puxando-o para perto de si,
    - Eu farei, Andrea.  Talvez esta seja a primeira  vez que faremos amor.
    -  Como assim?
    - Depois eu lhe explico.
    Ento, devagar comeou a acarici-la, explorando cada curva do corpo macio, onde queria perder-se.
    Andrea correspondia aos carinhos de David, observando-lhe as reaes.
    Afastando-se, David tirou a camisa com muita calma e em seguida comeou a desabotoar-lhe a blusa. Curvando-se, tocou-lhe os mamilos j intumescidos, provocando-os. 
Andrea contorceu-se de prazer, afundando os dedos em suas costas. Erguendo-se, David livrou-a do jeans. A pele macia era um convite ao toque.
    Aos poucos a urgncia da paixo os fez perder a calma, obrigando-o a livrar-se de seu prprio jeans e unir-se a ela.
    Deitando-se sobre Andrea, roou o peito peludo nos seios arfantes, sempre observando-a. Ver-lhe o rosto transfigurado pelo prazer excitou-o ainda mais.
    Ao senti-lo penetr-la, Andrea gemeu chamando-o baixinho.
    Extasiados, moveram-se no mesmo ritmo at que atingiram juntos o orgasmo.
    
    
    CAPTULO 10
    
    Alice Robbins tinha despontado para o sucesso nas telas de cinema nos idos de sessenta. Bonita e ambiciosa, trocara a vida pacata de sua cidadezinha pelo glamour 
de Hollywood.
    Seu primeiro casamento terminara num divrcio rumoroso, cujas audincias acabavam sempre nas primeiras pginas dos jornais, com fotos polmicas.
    Desfeito o casamento, sua carreira deslanchou. Crticos de todo o pas elogiavam-na por seu talento e beleza. Cada novo papel sempre se transformava em um grande 
sucesso.
    Contudo, aos vinte e oito anos, quando sua fama alcanava o apogeu, Alice apaixonara-se por Peter Van Camp. A seu lado viveria um amor seguro e adulto.
    Quase vinte anos mais velho, Peter era um bem-sucedido homem de negcios, dono de uma imensa fortuna.
    Aps um breve noivado que alimentara as colunas sociais, casaram-se em Paris, onde passaram a lua-de-mel.
    Felicssima com a nova vida, Alice adotou o sobrenome do , tanto particular quanto profissionalmente. Menos de um ano aps ter-se casado, deu  luz um filho, 
abandonando temporariamente a carreira.
    Durante quase uma dcada, dedicou-se  famlia e ao lar com a mesma devoo com que construra sua carreira.
    Aos primeiros rumores de sua volta s telas, manchetes sensacionalistas surgiram por toda a imprensa, atribuindo seu retorno s facilidades promovidas pela fortuna 
do marido.
    Quatro semanas antes do lanamento do filme, seu filho Matthew fora seqestrado.
    David pesquisara os fatos de antemo.
    Embora no houvesse voltado mais s telas, o nome de Alice continuava nas colunas sociais e sua popularidade se mantinha.
    Quanto ao seqestro e  libertao do garoto, pouco foi esclarecido  imprensa. Em parte porque a polcia nunca fora a favor da convocao de Clarisse De Basse 
e, tambm, porque a atriz se negara a dar maiores declaraes aos jornalistas.
    Nem Alice nem seu marido jamais haviam dado qualquer entrevista falando do assunto e, mesmo tendo concordado em participar do documentrio, David sabia que seria 
preciso muita diplomacia. Para tanto, levou consigo apenas um mnimo necessrio de tcnicos de sua equipe.
    Alice Van Camp desenvolvera, aps a tragdia, um certo repdio  imprensa.
    Sua manso em Beverly Hills era guardada por cercas eletrificadas e muros muito altos, atrs dos quais um guarda uniformizado verificava a identidade dos que 
chegavam. Aps ultrapass-los, percorriam-se ainda uns quinhentos metros para chegar  residncia da famlia.
    A casa, muito imponente, era toda construda em tijolo aparente e sustentada por enormes colunas brancas. Das janelas pendiam pequenas jardineiras floridas.
    Comentava-se que Peter Van Camp a construra em homenagem  esposa pelo ltimo papel que representara antes do nascimento de Matthew.
    Ladeando o caminho que levava  manso, belssimas cerejeiras em flor.
    "Puxa, queria que Andrea visse isto", pensou David ao estacionar o carro logo atrs do caminho de externas.
    O pensamento veio-lhe automaticamente, sem que pudesse ter tempo para avali-lo. Alis, como sempre ocorria quando se separavam.
    Mas, afinal, o que sentia por Andrea?
    Apaixonada, competente, reservada, frgil, Andrea era um mistrio a ser desvendado por partes.
    Talvez fosse essa a causa de sua atrao por ela. As demais mulheres que conhecera eram exatamente o que aparentavam: sofisticadas e ambiciosas. Mas Andrea, 
no.
    David sabia que, como empresria, ficara muito satisfeita com o contrato de Clarisse para trabalhar no documentrio. Como filha, temia pelas repercusses de 
sua participao.
    Ela o intrigava, o preocupava, fazia-o perder o sono, fazia-o rir. Era uma mulher adorvel.
    -  Algo preocupa voc? - indagou Alex quando o viu hesitar diante da porta.
    -  No, por qu? - redargiu,  irritado consigo  mesmo.
    -  No sabia que voc agora tambm lia pensamentos.
    -  No, no - respondeu o reprter, ignorando a ironia.
    -  Isto eu deixo por conta de Clarisse.
    -  Perdo, Alex. No quis ser grosseiro - alegou, tocando a campainha.
    - No se preocupe.
    - O fato de Clarisse ser paranormal no o... Naquele instante, um mordomo uniformizado abriu a porta e convidou-os a entrar, conduzindo-os  sala de estar.
    Ali, a decorao seguia o melhor estilo hollywoodiano. Os estofados de tons fortes contrastavam com os tapetes persas. Os lustres, enormes, mais pareciam cascatas 
de pingentes de cristal.
    - Um tanto espalhafatoso, no acha? - comentou Alex.
    -  Sem dvida - afirmou David, dando mais uma olhada  sua volta. O ambiente, de to suntuoso, mais parecia uma tenda rabe destas cheias de brocados e brilhos. 
- Mas  digno de uma atriz de Hollywood.
    Belssima, Alice Van Camp parou  entrada da sala. O porte, o charme e a simpatia eram os mesmos de quando surgira nas telas.
    Para surpresa de David, Alice era, pessoalmente, bem mais baixa do que aparentava no cinema, mas seu magnetismo compensava a estatura pequena.
    -  Sr. Marshall!
    Estendendo-lhe a mo, Alice caminhou at Alex. O cabelo loiro preso no alto da cabea ressaltava-lhe a pele clara, rosada como a de um beb.
    -   um prazer receb-lo. Admiro demais seu trabalho, embora tenha minhas restries com relao a alguns jornalistas.
    -  Sra. Van Camp, o prazer  meu. Devo confessar que  muito mais bonita pessoalmente do que nas telas.
    Alice sorriu com muito charme. O mesmo charme que havia feito os homens suspirarem nas platias por mais de uma dcada.
    -  Obrigada,  sempre bom ouvir um elogio. E voc  David Brady, no? - indagou, voltando-se para ele, os olhos claros muito brilhantes. - Tive oportunidade 
de assistir a diversas produes suas. Meu marido gosta muito de documentrios. Alis, nem sei por que se casou comigo.
    -  Obrigado. Sempre fui seu f.
    -  Agradeo. S espero que no diga por a que assiste aos meus filmes desde que era criana. - Um riso espontneo iluminou-lhe o olhar. Ento, voltando-se para 
os tcnicos, comentou: - Bem, depois que me apresentar sua equipe, poderemos comear a trabalhar.
    A admirao que David lhe tinha como f aumentou ainda mais aps os primeiros dez minutos de convivncia. Muito gentil, Alice conversou com cada um dos tcnicos, 
do diretor ao iluminador. Aps os cumprimentos, voltou-se para Sam,  espera
    de instrues.
    Aps discutirem a respeito dos detalhes do trabalho, Alice sugeriu que passassem ao terrao, onde seria gravada a entrevista.
    Paciente, aguardou at que todo o equipamento fosse montado e deu ordem a uma das criadas para que servisse refrigerantes e sanduches para toda a equipe.
    Terminados os testes de luz e som, foi dado incio  gravao.
    Alex comeou.
    -  Sra. Van Camp, durante muito tempo foi conhecida como uma das atrizes mais talentosas e mais queridas de Hollywood.
    -  Obrigada, "Alex. Minha carreira sempre foi muito importante para mim, assim como minha casa e minha famlia.
    -  E  sobre a famlia, em especial sobre seu filho Matthew, que gostaramos de falar. H quase dez anos sua famlia passou por momentos muito difceis, no?
    -   verdade. Por pouco escapamos de uma tragdia da qual, creio, jamais me recuperaria.
    -  Esta  a primeira entrevista que a senhora d sobre o assunto. Por que s agora concordou em nos oferecer este depoimento?
    Alice recostou-se na cadeira de vime, sorrindo com timidez.
    - Para tudo existe um momento certo. Durante muitos anos eu simplesmente me recusava a tocar no assunto do seqestro de meu filho. Achava intil relembrar um 
fato que me causou tanto sofrimento. Mas hoje, quando vejo uma notcia sobre o rapto de uma criana, fico imaginando o sofrimento  desses pais.
    -  Na sua opinio, esta entrevista pode ajudar as famlias de crianas desaparecidas?
    -  Certamente no ajudar a encontrar seus filhos, mas espero que lhes traga um pouco de conforto. - Alice estava visivelmente comovida. - Alis, quem me convenceu 
a dividir esta experincia com o pblico foi Clarisse De Basse.
    -  Foi ela quem lhe pediu que concedesse a entrevista? Sorrindo, Alice balanou a cabea.
    -  Clarisse nunca me pediu coisa alguma, s que, em conversa, disse-me ter muita confiana neste trabalho e acabei concordando em participar.
    -  A senhora confia muito nela, no?
    -  Foi Clarisse quem encontrou meu filho.
    A frase foi dita com tanta sinceridade, cora tanto sentimento, que Alex deixou-a pairando no ar por alguns segundos, antes de recomear.
    -  Poderia nos contar como foi que conheceu Clarisse De Basse?
    Atrs das cmeras, mais afastado, David, de p com as mos nos bolsos, ouvia o relato. Lembrou-se da verso que Andrea lhe contara, segundo a qual Alice e Clarisse 
haviam sido apresentadas atravs de um conhecido.
    -  Ns tnhamos um amigo em comum - a atriz respondeu. - Na primeira vez que a vi, ela me disse coisas absolutamente espantosas a meu respeito. Eu, que s queria 
saber algumas previses, fiquei impressionadssima. Clarisse relatou fatos e experincias do passado que tiveram profundos reflexos em minha personalidade. Coisas 
muito particulares que at a imprensa desconhecia. Devo confessar que nem tudo o que eu ouvi foi de meu agrado, mas era sem dvida verdadeiro. Ento, continuei a 
consult-la e pouco a pouco tornamo-nos amigas.
    -  A senhora acreditava em clarividncia?
    Franzindo as sobrancelhas, Alice considerou bem a questo.
    -  A princpio, eu a consultava por pura diverso, pura curiosidade. Embora tivesse optado por uma vida reclusa aps o nascimento de meu filho, nunca deixei 
de apreciar coisas fora do comum. Clarisse era realmente fora do comum.
    -  Portanto, tudo comeou como que por brincadeira?
    -  Ah, sem dvida. Quando ouvi falar dela, pensei que fosse apenas uma mulher muito esperta, mas, ao conhec-la, conclu que se tratava de algo muito srio, 
muito especial. Isto no quer dizer que eu acredite em qualquer um. No entanto, creio que alguns de ns nasceram com dons especiais, uma certa dose de sensibilidade 
extra.
    -  Sra. Van Camp, poderia nos contar exatamente como foi o rapto de seu filho?
    -  Foi h quase dez anos. - Por um instante, Alice fechou os olhos. - Para mim,  como se tivesse sido ontem. O senhor tem filhos, sr. Marshall?
    - Sim, tenho.
    -  E, tenho certeza de que os ama muito, no?
    -  De fato.
    -  Ento, creio que poder fazer idia do sofrimento que passei. Um misto de terror e culpa; eu no estava com ele quando o levaram. Naquela poca Jenny era 
bab de Matthew. Era uma pessoa de nossa confiana que j trabalhava conosco h algum tempo. Embora um tanto jovem, tinha um profundo senso de responsabilidade. 
Quando decidi voltar s telas, contava principalmente com seu apoio; eu ficava tranqila sabendo que Matthew estava sob seus cuidados.
    -  Seu filho j tinha quase dez anos quando a senhora resolveu retomar a carreira artstica, no?
    -  Sim, mas Matthew sempre foi uma criana independente. Durante as filmagens, Jenny sempre o levava  tarde ao estdio e depois iam passear no parque. Se eu 
soubesse quanto perigo havia naqueles passeios eu os teria impedido. Eu e meu marido sempre o criamos afastado da imprensa; no por temermos por sua segurana, mas 
para que tivesse uma infncia normal. Mas, vez por outra, algum fotgrafo o reconhecia c publicava uma foto do garoto.
    -  Isto a aborrecia?
    -  No - afirmou, sorrindo. - De certa forma j estava Costumada a isso. Peter e eu nunca quisemos viver enclausurados aqui. Contudo, creio que, mesmo sendo 
mais rigorosa, no teria conseguido evitar o rapto. - Suspirando, deu a entender que preferia no pensar na questo. - Mais tarde, ficaramos sabendo que seus passeios 
ao parque estavam sendo vigiados.
    -  A princpio a polcia chegou a desconfiar que a bab tivesse alguma ligao com os criminosos.
    -  Sim, mas era uma hiptese totalmente absurda. Jamais duvidei de Jenny; nem por um minuto. Felizmente, desvendado o caso, a polcia inocentou-a de qualquer 
envolvimento. Ela trabalha para ns at hoje.
    -  Os investigadores consideravam a verso de Jenny um tanto duvidosa.
    -  Na tarde do seqestro ela chegou em casa absolutamente transtornada, culpando-se pelo que acontecera. Matthew jogava bola com diversas crianas enquanto ela 
o observava. Ento, uma jovem aproximou-se pedindo-lhe uma informao, alegando ser nova na cidade. Enquanto isso, os criminosos o apanharam. Quando Jenny olhou, 
viu Matthew sendo posto num carro estacionado na sada do parque. Ela ainda tentou correr, mas foi intil. Dez minutos aps ter chegado em casa, recebemos o primeiro 
telefonema.
    Alice, muito emocionada, levou a mo  testa.
    -  Desculpem-me, mas ser que poderamos fazer uma pausa?
    -  Corta! Recomeamos em cinco minutos - avisou Sam. David, bastante preocupado, aproximou-se de Alice.
    -  Precisa de algo, sra. Van Camp? Gostaria de um copo de gua?
    -  No - disse ela, com o olhar perdido no horizonte. - Mesmo depois de tantos anos  muito difcil para mim.
    -  Quer que chame seu marido?
    -  Infelizmente pedi a Peter que sasse de casa durante a gravao. Ele no se sente muito  vontade na presena da imprensa.  uma pena no t-lo aqui comigo.
    -  Se no est se sentindo bem, podemos suspender o trabalho por hoje.
    __ No ser preciso - afirmou, respirando fundo. - Matthew hoje j est na faculdade. Felizmente tudo acabou bem. Penalizado com sua dor, David segurou-lhe as 
mos com carinho. 
    - Felizmente.
    -  Ele  um rapaz maravilhoso, mas quando penso no que poderia ter acontecido... - Bastante nervosa, desviou o olhar para longe, disfarando a emoo. - Voc 
conhece a filha de Clarisse, no?
    - Sim - afirmou David, surpreso com a mudana de assunto.
    -  Eu e Clarisse nos damos muito bem. Ela, como me, entendeu melhor que ningum meu sofrimento. Voc tem um cigarro?
    Depois de acender o cigarro, Alice pareceu relaxar.
    -  A filha dela  uma pessoa tima. Imagine que ela se recusou a me aceitar como cliente.
    -  Como?
    Teria entendido bem?
    -  Foi logo depois do rapto - afirmou Alice, bem-humorada. Andrea pensou que fosse apenas uma maneira que encontrei de demonstrar minha gratido. E talvez fosse. 
A verdade  que no consegui convenc-la a me aceitar. Eu a admiro pela integridade e pela seriedade com que encara seu trabalho. Tanto que, anos depois, quando 
Andrea j era uma empresria de renome, voltei a procur-la, mas ela se manteve irredutvel.
    Era inacreditvel.
    -  Andrea sempre tem atitudes surpreendentes - comentou.
    -  Ela  uma mulher que sabe o que quer - disse Alice, apagando o cigarro. - Bem, acho que. podemos recomear.
    Em poucos instantes, a atriz voltava a falar de seu drama com a mesma naturalidade de antes.
    -  Ns pagaramos qualquer resgate. A princpio, Peter e eu relutamos em avisar a polcia, pois os seqestradores foram muito claros quanto a isso. Mas Peter, 
sendo um homem ponderado, achou que precisvamos de ajuda. Recebamos telefonemas de hora em hora e, embora concordssemos em pagar o resgate, os criminosos sempre 
faziam mais exigncias. Era como se quisessem nos testar. Enquanto negocivamos, a polcia tentava localizar o carro e a moa que Jenny vira no parque, mas de nada 
adiantou. Quarenta e oito horas depois ainda no tnhamos nenhuma pista.
    -  Ento, a senhora decidiu pedir a ajuda de Clarisse De Basse.
    -  No sei exatamente quando a idia me veio, s sei que estava exausta, no conseguia dormir, nem comer. Ento, lembrei-me de que certa vez Clarisse havia me 
ajudado a encontrar um broche de brilhantes que eu tinha perdido. Desesperada como estava, eu apelaria para qualquer ajuda.
    Encontrando dificuldade para continuar falando, Alice respirou fundo tentando recuperar o controle.
    -  Sei que a polcia e Peter me censuraram por t-la chamado, mas eu acreditava nela. Quando Clarisse chegou, sentamos para conversar como amigas e contei-lhe 
exatamente o que havia acontecido, sempre com a ajuda de Jenny. A polcia a tratou bastante mal, indiferente. Clarisse lhes disse que estavam procurando Matthew 
no lugar errado. - Inconscientemente, Alice enxugou uma lgrima que lhe corria pelo rosto. - Ela afirmou que os raptores no haviam sado da cidade, como pensava 
a polcia, que a princpio desconfiou de suas instrues. Ento, Clarisse me pediu que a levasse ao quarto de Matthew e lhe desse uma roupa que ele tivesse usado 
antes do seu desaparecimento. Durante alguns minutos ela ficou sentada na cama de meu filho, segurando uma camisa, absolutamente quieta. Lembro-me que foram minutos 
de extrema tenso.
    A lembrana daqueles momentos parecia muito penosa para Alice Van Camp.
    -  De repente, Clarisse comeou a falar num tom muito calmo. Afirmou que o mantinham numa casa dentro de Los Angeles e no em San Francisco, como supunha a polcia. 
Ento, descreveu a rua e, depois, a casa: branca de janelas azuis, numa esquina. Nunca me esquecerei da descrio que fez do quarto onde o mantinham preso: escuro, 
as janelas fechadas, sem moblia. Matthew tinha horror ao escuro. Segundo Clarisse, havia duas pessoas na casa, alm do garoto: um homem e a mulher que falara com 
Jenny. No quintal havia um carro estacionado que ela no soube precisar muito bem. Mas garantiu-me que Matthew estava bem.
    E a polcia seguiu a pista dada por Clarisse? - Como disse, a princpio eles se mostraram relutantes, mas enviaram algumas viaturas para procurar pela casa que 
Clarisse descrevera. No sei quem ficou mais surpreso com a descoberta: Peter, eu ou a polcia. Matthew foi resgatado sem um arranho"porque felizmente, os raptores 
estavam despreparados para a batida policial. O terceiro criminoso estava em San Francisco, de onde nos telefonava. Mais. tarde, Matthew descreveria o quarto onde 
esteve exatamente do mesmo modo que Clarisse.
    -  Sra. Van Camp, muitos acreditavam, e acreditam, que tudo no passou de um golpe publicitrio para promover o lanamento de seu primeiro filme depois do nascimento 
de seu filho.
    -  No me importo com o que pensem. Felizmente, recuperei meu filho.
    -  E, na sua opinio, Clarisse De Basse foi a responsvel por isso?
    -  Tenho certeza de que sim.
    -  Corta! - disse Sam. - Sra. Van Camp, gravaremos apenas mais algumas tomadas de ngulos diferentes e estar dispensada.
    Satisfeito, David concluiu que j podia ir embora. Alice Van Camp, com seu depoimento humano e sincero, convenceria os incrdulos de que o seqestro fora, de 
fato, real e que Clarisse De Basse era acima de tudo uma pessoa sria, que utilizava seus dons em benefcio do prximo.
    Agora ele compreendia o porqu da relutncia de Andrea em que a entrevista fosse feita: o relato exigiu grande sacrifcio da parte de Alice.
    Entretanto, no querendo interromper, aguardou o final das filmagens at que todos sassem juntos. Alice despediu-se de um por um e acompanhou-os  porta.
    -  Uma mulher notvel, no? - comentou Alex, ao se dirigirem ao carro.
    -  Nem diga - concordou David. - Mas voc tambm tem uma noiva muito especial.
    -  Tem razo. - Impaciente, foi logo acendendo um charuto. - Mas veja s quem fala.
    Franzindo as sobrancelhas, David apoiou-se em seu carro.
    -  Eu e Andrea no temos um relacionamento muito profundo.
    -  No  assim que Clarisse pensa.
    -  E ela aprova esse relacionamento?
    -  Claro que sim. Por qu? No deveria? Pouco  vontade, David acendeu um cigarro.
    -  No sei...
    -  Voc ia me perguntar algo quando chegamos. O que ?
    -  Alex, Clarisse no  uma pessoa comum. Isto no o perturba?
    -  Certamente que isto me intriga - confessou, soltando uma baforada. - Mas o que sinto por ela supera o problema. Encaro o fato da seguinte maneira: ela  uma 
pessoa com um sentido a mais que as outras. Sei que voc e Andrea esto tendo dificuldades; Clarisse no sabe guardar segredos.
    -  Sim, no tem sido fcil.
    -  Sabe qual o problema com os rapazes de sua idade?  que se consideram muito velhos para correr riscos e muito jovens para confiar no impulso. Felizmente, 
j ultrapassei esta fase h muito.
    E, com um aceno, afastou-se, pedindo a Sam que lhe desse uma carona.
    David achava que Alex acertara em cheio. Talvez fosse mesmo muito velho para correr riscos. Mas, deixando a prudncia de lado, resolveu ir ao encontro de Andrea.
    Aps um dia difcil no escritrio, Andrea estacionava seu carro absolutamente exausta. Na verdade, o cansao devia-se  sua preocupao com a entrevista de Alice 
Van Camp. Durante toda a tarde no conseguira parar de pensar na amiga e em seu depoimento. Como conseqncia, parte do trabalho que deixara de fazer a acompanhava 
dentro da pasta.
    Trancando a porta do carro procurou mais uma vez convencer-se de que precisava recuperar seu poder de concentrao ou terminaria por perder os clientes.
    Trocando a pasta de mo, virou-se e deu de cara com David.
    -  Adoro fazer surpresa - ele comentou, pousando-lhe as mos nos quadris.
    Ao mesmo tempo surpresa e satisfeita, Andrea teve vontade abra-lo, mas se conteve, limitando-se a sorrir.
    -  Qualquer dia ainda vai acabar com uma costela quebrada. Mas o que o traz aqui hoje? No esperava v-lo esta noite.
    -  Algum problema?
    -  No - comentou, deslizando a mo pelos cabelos de David. - Acho que posso dar um jeito. Como foram as gravaes?
    Astuto, David cortou logo o assunto que, certamente, poderia dar margens a discusses. E discusso era o que menos queria.
    -  Excelente. - Curvando-se aproximou os lbios, do pescoo fino e  delicado,  deliciando-se  com  a fragrncia suave.
    Adoro esse seu perfume.
    -  David, estamos num local pblico.
    -  Eu sei - afirmou, displicente, mordiscando-lhe a orelha.
    -  David!
    Aps uma tentativa sua de afastar-se, David beijou-lhe os lbios de modo apaixonado, deixando-a ainda mais encabulada.
    -  No consigo tir-la do pensamento - confessou, voltando a beij-la ainda com mais volpia. - s vezes chego a crer que fui enfeitiado de verdade.
    -  No diga nada; venha.
    -  Mas nunca temos chance de conversar. - Ento, obrigando-a a encar-lo, afirmou bastante srio: - Mais cedo ou mais tarde teremos que falar sobre nosso relacionamento.
    Era isso o que Andrea mais temia, pois sabia que qualquer conversa mais sria os levaria ao rompimento. Ambos eram muito diferentes um do outro.
    -  Deixe para depois - pediu-lhe, recostando o rosto em seu peito. - Por enquanto, vamos aproveitar estes momentos de prazer.
    Entre frustrado e inquieto, ele concordou.
    -  Por que veio me ver esta noite?
    -  Porque  quero   am-la.   No  consigo   permanecer  muito tempo longe de voc.
    -  Para mim, isso  o bastante - afirmou, sem saber ao certo se tentava convencer a ele ou a si prpria. - Venha, vamos para o meu apartamento.
    
    
    CAPTULO 11
    
    Em junho, Andrea tratava dos ltimos preparativos para o casamento de Clarisse.
    -  Tem certeza de que quer me ajudar? - indagou Andrea, dando a David uma ltima chance de desistir.
    -  Tenho.
    __ Mas vai demorar para acabar.
    -  Por acaso est querendo se livrar de mim?
    -  No.
    Embora ele sorrisse, Andrea ainda duvidava que estivesse sendo sincero.
    -  Alguma vez j fez isso?
    Distrado, David deslizou as mos pelos braos de Andrea, que usava uma blusa de seda de mangas compridas. Alis, ele j havia notado que as sedas e o perfume 
eram o seu fraco.
    -  No, mas sempre h uma primeira vez para tudo na vida. - Ento, vai ter que fazer exatamente o que eu lhe disser.
    -  No confia em mim? -. perguntou, acariciando-lhe o pescoo bem de leve.
    Inclinando a cabea para um lado, ela brincou:
    -  Ainda no sei se voc  digno de confiana, mas, dada a circunstncia, correrei o risco. Sente-se - disse, indicando uma das cadeiras da mesa, Ento, apanhou 
um lpis bem apontado e lhe entregou. - Primeiro, quero que v riscando os nomes que eu lhe der. Os que sobrarem so das pessoas que j confirmaram a presena. Depois, 
coloque na frente de cada nome o nmero de pessoas da famlia, est bem? Preciso entregar esta lista para o bufe o quanto antes.
    -  Parece simples.
    -  Diz isso porque nunca lidou com um fornecedor - murmurou Andrea sentando-se  mesa.
    -  O que  isto? - ele quis saber referindo-se a uma pilha de papis que se destacava das demais pela altura.
    -  Pessoas que j mandaram presente. E no faa baguna. Quando terminarmos esta primeira etapa, cuidaremos dos convidados que vm de outras cidades. Preciso 
reservar os apartamentos amanh mesmo.
    Curioso, David examinou as diversas pilhas espalhadas organizadamente sobre a mesa.
    -  Pensei que quisessem um casamento simples, sem muita pompa.
    -  Isto no existe. Perdi duas manhs  procura de uma floricultura de confiana e quase uma semana at encontrar um bufe que ainda aceitasse se encarregar da 
festa. Donde se concluir que o melhor mesmo  fugir para casar. Nada de festas e chateaes.
    - Voc seria capaz?
    -  De qu?
    - De fugir para casar.
    Andrea pendeu a cabea para trs e deu uma gargalhada.
    -  Acho que se um dia eu enlouquecesse e decidisse me casar, preferiria um daqueles casamentos rpidos que se tm em Las Vegas.
    Franzindo as sobrancelhas, David procurou descobrir o significado real daquelas palavras. Seria um aviso?
     uma soluo nada romntica. -Combina com meu jeito de ser.
    -  Voc no  romntica? - indagou, incrdulo, segurando-lhe uma das mos, num gesto inconsciente de posse.
    -  No - confessou, entrelaando os dedos aos dele. - Romantismo e profissionalismo no combinam.
    -  E se estiverem separados?
    -  O romantismo cria fantasias e nos faz imaginar coisas que no existem. Gosto de iluses, mas no na vida real.
    - E do que voc gosta na vida real? - ele perguntou, ao perceber o nervosismo repentino de Andrea.
    -  Sucesso - afirmou, numa meia-verdade.
    -  Voc j se pode considerar uma pessoa bem-sucedida, sua agncia  conhecida no pas todo. O que mais?
    Sua esperana era detectar um sinal que fosse, um gesto qualquer. Pela primeira vez David sentiu medo de no ser amado.
    -  Eu...
    Afinal, aonde ele pretendia chegar com aquelas perguntas? O interrogatrio j a deixava confusa.
    -  Quero ter certeza de que venci por meu prprio esforo.
    -  Foi por esse motivo que se recusou a aceitar Alice Van Camp como cliente?
    -  Ela lhe contou?
    Ento, lembrou-se de que no haviam conversado sobre a entrevista de Alice. Alis, Andrea vinha desviando do assunto h dias.
    -  Sim, mencionou o fato.
    Pouco  vontade, Andrea puxou o brao, livrando-se do toque de David, que no conseguia entender aquele tipo de atitude. Diversas vezes j tivera a oportunidade 
de observar que sempre que conversavam sobre um assunto srio ela ficava muito tensa.
    -  Foi muito gentil da parte dela me procurar quando eu ainda lutava com dificuldade - comentou, dando de ombros. - Mas sabia que era apenas um gesto de gratido 
para com mame e no quis aceit-la.
    -  Porque o assunto aborrece voc e, para mim,  motivo suficiente para exclu-lo.
    Baixando os olhos, Andrea fixou-os nas mos fortes de David, que seguravam as suas. Nunca ningum se oferecera para fazer algo em seu benefcio. S Clarisse. 
A situao era absolutamente desconcertante para ela.
    -  Eu no sei o que dizer.
    -  No diga nada.
    Respirando fundo, procurou controlar um pouco a tenso.
    -  Se Clarisse concordou em falar sobre o caso  porque ela prefere que o segmento seja rodado.
    -  Mas no estamos falando sobre Clarisse. Estamos falando sobre voc, Andrea. J lhe disse uma vez que no quero mais v-la sofrer por este motivo. E  srio.
    -  Sim, acho que  mesmo. Saber que voc cortaria o segmento s por minha causa faz com que me sinta muito especial.
    -  Se eu soubesse, teria lhe dito antes. Emocionada, Andrea fez uma breve pausa e, ento, disse:
    -  No, no. Eu me odiaria se soubesse que eliminou este segmento por minha causa. O fato ocorreu h muitos anos, David, e j  tempo de eu aprender a lidar 
com a realidade.
    -  Voc lida com a realidade bem demais. Sem jeito, Andrea se limitou a sorrir.
    -  De qualquer forma, quero que mantenha este segmento no documentrio, com a promessa de que vai caprichar no trabalho.
    -  Combinado. Quer ir assistir s gravaes?
    -  No, Alex vai estar l para fazer companhia a Clarisse
    -  afirmou, resignada.
    -  Ele  apaixonado por ela.
    -  Eu sei - disse, e brincando com o lpis, acrescentou:
    -  A cerimnia deles vai ser linda.
    David sorriu para ela e admirou-a pelo carter forte  e pela determinao.
    -   melhor comearmos a trabalhar.
    Durante duas horas trabalharam lado a lado, a tenso se desfazendo aos poucos. Leram e releram listas de convidados, confirmaram endereos e discutiram qual 
o melhor menu a ser servido.
    Andrea surpreendeu-se com a boa vontade de David em ajud-la e, ao terminarem os preparativos, delegou-lhe a incumbncia de ajud-la a receber os convidados 
durante a festa.
    - Se eu precisasse de um empresrio, daria a preferncia  voc, Andrea. Nunca vi algum to organizado!
    -  Isso  um elogio? - No exatamente.
    -  Foi o que imaginei - comentou, fitando-o de relance. - Bem, agora s falta entregar as previses ao bufe. Obrigada pela ajuda, David.
    -  Gosto muito de Clarisse.
    -  Eu sei e fico satisfeita com isso. Agora, acho que voc merece uma recompensa. - E, olhando-o com olhos marotos, indagou: - Alguma sugesto?
    -  Bem, que tal aquele caf? 
    -   para j. Vou prep. .. Oh, meu Deus!
    -  Qual o problema? - ele quis saber, apanhando um cigarro.
    -  Vai comear a Ilha da Fantasia no canal 12. Enquanto ela corria para a televiso, ele balanava a cabea... inconformado.
    -  Eu nunca percebi que voc era viciada nessas bobagens.
    -  Psiu! - Aliviada ao ver que perdera s o comecinho, sentou-se no sof. - Tenho uma cliente que.. .
    -  Eu sabia...
    -  Ela  muito talentosa. Pena que tenhamos conseguido contrato apenas para quatro episdios. .. Tomara que ela se saia bem.
    Resignado, ele juntou-se a Andrea no sof.
    -  Mas estes filmes no so repetidos?
    - Este aqui, no. Alis, este. .. Veja! L est ela!
    Bastante atenta, Andrea acompanhava cada gesto, cada fala de sua cliente.
    Observando-a, David concluiu que aquela tambm era uma forma de misturar vida profissional com relacionamento pessoal, pois Andrea torcia pela loira na tela 
como quem torce por um amigo em dificuldades.
    -  Puxa, ela  mesmo excelente atriz - afirmou Andrea durante os comerciais. - Creio que depois deste trabalho no lhe faltaro propostas.
    -  De fato, a moa trabalha bem. - Pelo menos nisso eles concordavam. - Onde foi que ela estudou arte dramtica?
    -  Susanne nunca estudou arte dramtica. Um dia, resolveu apanhar um nibus e vir ao meu escritrio com um porta-flio super simples e quase sem experincia 
de trabalho.
    -  Costuma aceitar clientes nesta situao?
    -  No. Nestes casos, costumo dirigir o candidato  sala de Abe que, com seu jeito paternalista, acaba convencendo o candidato a desistir.
    -  Entendo. Mas com esta- foi diferente.
    -  Sim. foi. Susanne plantou-se na recepo durante dois dias, at que, por fim, resolvi receb-la. No primeiro instante em que a vi, eu soube que ela venceria. 
Soube por experincia, no por...  - Calando-se, deu a entender que no fora por causa de seus dons que havia resolvido empresariar a garota. - Susanne tinha garra 
e , sem dvida, muito bonita. Na primeira semana ela visitou diversos diretores, at que o desta srie se interessou por ela.
    -  Ela deve ser mesmo corajosa para ter-se plantado durante dias numa das agncias mais famosas de Hollywood.
    -  Sem determinao, no se chega a lugar algum.
    -  Foi esta a causa do seu sucesso, Andrea?
    -  Sim, em parte - confessou, recostando a cabea no ombro dele. - No me diga que acredita em sorte.. .
    -  No. No comeo pensava que era s uma questo de trabalhar bastante, mas, com o tempo, vi que  preciso coragem.
    Depois que se completa um documentrio que se torna um sucesso,  preciso reiniciar tudo outra vez.
    -  . .. me parece bem difcil - falou Andrea, aconchegando-se a ele. - E por que voc continua neste ramo?
    -  Porque toda vez que assisto a um programa meu na televiso  como se eu ganhasse um presente de Natal.
    -  Sei como se sente.  Fui uma vez  entrega do  Oscar, quando dois de meus clientes iam concorrer. Embora meu nome nem aparecesse, fiquei orgulhosa de ter contribudo 
com o sucesso. - Ento, suspirando, acrescentou: - Eu nunca me preocupei com a fama, seno estaria trabalhando do outro lado das cmeras. E voc? J quis ser famoso?
    -  No, quero apenas que meu trabalho seja reconhecido.
    -  Mas ningum duvida do seu talento como produtor. E no digo isto porque...  - "...o amo", completou mentalmente.
    -   .. .por causa de nosso relacionamento - ela falou, temendo que David percebesse o que lhe passara pela cabea,
    -  Obrigado.
    De repente, surgiu um brilho intenso nos olhos de Andrea que David no soube explicar.
    -  Na verdade, nunca tive vontade de produzir para o cinema - confessou. - Prefiro lidar com a realidade do dia-a-dia e, nas telas, s h lugar para a fantasia.
    - No  verdade. Oua, tenho um roteiro que...  - Andrea. . .
    -  David, por favor, me oua. S um minuto.
    Tentando impedi-la de continuar, David deitou sobre Andra no sof.
    -  Prefiro brincar com a sua orelha.
    -  Pode brincar quanto quiser, mas s depois que me escutar.
    - Mais um acordo?
    Erguendo-se um pouco, David encarou-a e viu o brilho entusiasta que lhe iluminava o olhar.
    -  Que roteiro? - quis saber, vendo-a sorrir, satisfeita.
    -  J trabalhei certa vez com George Steiger, sabe quem ?
    -  Sim, j nos conhecemos.  um escritor excelente.
    -  Pois bem, ele acaba de escrever seu primeiro roteiro que, por acaso, veio parar em minhas mos.
    -  Por acaso?
    Na verdade, fora uma troca de favores entre ela e o escritor, mas Andrea decidiu que isso no vinha ao caso.
    -  No importa.  lindo, David. Trata da histria dos ndios cherokees vista atravs dos olhos de uma criana. No se trata apenas de um bom roteiro;  uma histria 
real, comovente. Por que no tenta?
    Segundo David, Andrea daria uma excelente vendedora, pois sabia como persuadir o cliente a levar sua mercadoria.
    -  Mesmo que eu aceitasse, voc acha que Steiger ia me querer como produtor?
    -  Por acaso eu disse a ele que o conhecia.
    -  Mais um acaso?
    -  Sim - afirmou, deslizando as mos at os quadris estreitos de David. - Ele j viu diversos trabalhos seus e conhece sua reputao. Steiger est em busca do 
produtor certo.
    -  E?
    Distraidamente, Andrea acariciou-lhe as costas, bem devagar.
    -  Bem, ele me pediu que comentasse com voc a este respeito. Mas de modo bem informal.
    -  Sem dvida que este  um modo informal - murmurou, pressionando-a mais com seu peso. - Est falando como empresria?
    -  No - disse, muito sria, segurando-lhe o rosto entre as mos. - Como amiga.
    A resposta sincera tocou-o fundo no corao.
    -  E ento? Vai ler o roteiro?
    David beijou-lhe uma das faces, depois a outra, como a vira fazer com Clarisse diversas vezes, numa demonstrao de carrinho. Esperava que ela compreendesse 
a inteno de seu gesto.
    -  Acho que voc poderia me conseguir uma cpia.
    -  Por acaso trouxe uma comigo para casa. - Feliz, lanou-lhe os braos em torno do pescoo. - Voc vai adorar. Eu o li inteiro, numa noite s; no conseguia 
largar.
    -  Neste caso, prefiro que voc me entregue mais tarde.., - disse, beijando-lhe o pescoo. - Tenho algo mais urgente a fazer antes.
    Afundando o rosto nos cabelos dourados de Andrea, mordiscou-lhe a orelha, provocando-a. Em resposta, ouviu de seus lbios um gemido baixinho que o excitou ainda 
mais.
    -  Como eu te quero, Andrea.
    Abraando-o com mais fora, Andrea sorriu, num convite.
    -  Eu tambm te quero muito, David. Faa amor comigo... Satisfeito, ele beijou-lhe os lbios com muita calma mas com paixo; um beijo intenso que a fez suspirar. 
Ento, deslizando a boca, percorreu-lhe o pescoo at insinuar a lngua entre os seios que a abertura da blusa deixava entrever.
    Devagar desabotoou-lhe um por um os botes e abriu-lhe o suti rendado, expondo os seios rosados. Acariciando-os, observou os mamilos se intumescerem sob seu 
toque, mordiscando-os de leve. Andrea gemeu de prazer e arqueou ainda mais o corpo, numa entrega irresistvel.
    Sem perda de tempo, David ajudou-a a se livrar do resto das roupas e, em seguida, despiu-se. Caminhando at o interruptor, apagou as luzes da sala e desligou 
a televiso, vindo juntar-se
    a ela no sof.
    Aproximando-se, admirou-lhe o corpo perfeito e deitou-se sobre ela, deliciando-se com a maciez de sua pele sedosa.
    Deslizando-lhe as mos pelos quadris, escorregou-as at as coxas. Procurando proporcionar-lhe ainda mais prazer, David explorou-lhe as regies mais ntimas com 
movimentos ritmados que a levaram ao delrio.
    Incapaz de conter-se por mais tempo, ele, ento, possuiu-a com delicadeza, at que alcanassem o clmax. Ambos adormeceram, os corpos ainda entrelaados.
    Mais tarde, ao despertar, David comentou:
    -  Daqui a pouco vamos acabar dormindo aqui mesmo no sof.
    -  No me importo.
    Para ela, aqueles momentos de intimidade eram muito gratificantes e poderiam durar uma eternidade.
    -  Estive pensando em que poderamos facilitar muito mais as coisas para ns mesmos.
    -  Indo para a cama? - indagou, tocando-lhe os cabelos revoltos.
    -  No exatamente. Pensei em algo mais.. .  duradouro. - Como dizer-lhe que gostaria de t-la morando consigo? - Toda vez que queremos passar a noite juntos 
 uma correria.
    -  No me incomodo. Gosto de estar com voc.
    Mas David se incomodava e, quanto mais gostava de estar com Andrea, menos apreciava a correria que cada encontro acarretava. Ao sair do escritrio, tinha que 
passar em sua casa, apanhar uma muda de roupa para o dia seguinte e todos os seus objetos pessoais.
    Mas, se lhe dissesse a verdade, se lhe dissesse que a amava e a queria consigo, como Andrea iria reagir? Talvez, assustada, simplesmente o abandonasse, pondo 
um fim quele relacionamento. No, ainda no se considerava apto a correr tal risco. Cauteloso, resolveu abordar o assunto pelo lado prtico.
    -  Ainda assim, creio que poderamos arranjar melhor nossos encontros.
    Andrea abriu os olhos e moveu-se um pouco, j inquieta.
    -  De que jeito?
    -  Seu apartamento fica mais prximo da cidade e... - Sim, e da?
    Os olhos azuis j haviam perdido o brilho sonhador de quando se amavam e David j se arrependia de ter tocado no assunto.
    - S trabalhamos de segunda a sexta e minha casa, por  outro lado,  tima para se passar o fim de semana. Me parece bastante razovel que morssemos aqui durante 
a semana e passssemos o sbado e o domingo nas montanhas.
    Andrea no respondeu; sua mente fervilhava com inmeras idias e medos. O que David lhe propunha no era uma simples soluo para um problema como fazia crer, 
mas, sim, um ;compromisso.
    -  Est propondo que moremos juntos?
    Sua fisionomia impassvel e o tom impessoal de voz no permitiram a David deduzir o que lhe ia no ntimo.
    -   basicamente o que j estamos fazendo, no?
    -  No. Temos apenas dormido juntos.
    Ele teve vontade de sacudi-la at que Andrea entendesse o que estava tentando lhe dizer. Como faz-la enxergar a realidade?
    No entanto, reprimindo este mpeto, sentou-se no sof e comeou a se vestir.
    Subitamente desconfortvel, Andrea apanhou a blusa e colocou-a.
    -  Voc ficou chateado, no ?
    -  Digamos que eu esperava outra reao de sua parte.
    -  Mas, David, eu ainda nem tive tempo de pensar no assunto.
    Furioso, ele voltou-se para encar-la, fuzilando-a com o olhar.
    -  Se ainda precisa de tempo para pensar  sinal de que no est interessada.
    -  Ora, voc no est sendo justo.
    -  No, no estou! - disse, ficando de p, consciente de que precisava sair dali antes que falasse demais. Mas j estou cansado de ser justo com voc.
    -  Diabos! - De p, ela o encarou. - De repente voc chega e me prope para morarmos juntos e, s porque peo tempo para decidir, voc j perde a pacincia. 
Isto  ridculo.
    -  Me tornei ridculo desde que comecei a sair com voc. Imediatamente, ele se arrependeu do que acabara de dizer.
    Embora soubesse que aquele era o momento certo para sair dali, David no o fez; segurou-a pelos braos com fora, forando-a a encar-lo.
    -  Voc no entende? Quero mais do que uma noite de sexo com voc, Andrea. Estou farto destes encontros clandestinos quando nosso horrio de trabalho permite.
    Indignada, ela se afastou.
    -  Voc faz com que me sinta uma. ..
    -  No - protestou sem se aproximar dela. - Estou apenas retratando a verdade.
    Andrea sempre soubera que, um dia, aquele relacionamento iria acabar. Apelando para seu orgulho, endireitou-se e afirmou:
    -  No sei o que voc quer de mim.
    Encarando-a, David percebeu a batalha que ela travava contra as lgrimas.
    -  No, no sabe mesmo. E  exatamente este o problema. Dito isto, ele a deixou antes que dissesse algo do qual se arrependesse para sempre.
    
    
    CAPTULO 12
    
    Muito nervosa, Andrea supervisionava a colocao de cadeias dobrveis no jardim da casa de Clarisse. Recontando-as, certificou-se de que o nmero de lugares 
estava correio e, ento, verificou a disposio das mesinhas protegidas por guarda-sis coloridos.
    Enquanto os empregados do bufe se ocupavam dos ltimos preparativos na cozinha, a florista com suas duas assistentes espalhavam pequenos arranjos em pontos estratgicos. 
Compostos por uma orqudea cercada de pequenas flores coloridas, os vasinhos   emprestavam  uma   atmosfera   ainda   mais   alegre    ocasio.
    Tudo corria conforme o previsto.
    Parada ali, sob o sol da manh, Andrea desejou ter outra coisa em que pensar. Mas os preparativos, j no final, no requeriam mais sua presena.
    Sua me estava prestes a se casar com o homem que amava, a preparao da festa ia bem e Andrea nunca se sentira to infeliz. Tinha vontade de estar em casa, 
com portas e janelas fechadas, debaixo das cobertas. No fora David que lhe dissera, certa vez, que a autopiedade no levava a nada?
    Bem, ele agora sara de sua vida, lembrou-se. A separao j durava duas semanas. Mas tanto melhor.
    Sem David por perto para confundir-lhe as emoes, estava dedicando mais tempo ao escritrio e chegara a considerar at a possibilidade de admitir mais alguns 
funcionrios, tal o volume de trabalho.
    Alis, dado ao acmulo de afazeres, corria o risco de ter que cancelar as duas semanas de frias no Caribe. Estava  beira de fechar dois contratos milionrios 
que exigiam sua presena em Los Angeles.
    Ser que ele viria ao casamento?
    Por que continuava a pensar nele? Afinal, David a deixara sem maiores explicaes exatamente no instante em que ela procurava manter-se fiel ao acordo que haviam 
estabelecido.
    David sara do apartamento batendo a porta atrs de si e nunca mais lhe telefonara.
    Quantas vezes lutara contra a vontade de lhe telefonar.. . Num certo dia, chegara mesmo a tentar, mas no o encontrou em casa. Aonde teria ido? No era do seu 
estilo sair pela noite.
    Quantas noites sonhara com ele... Assustada, sentava-se na cama certa de encontr-lo a seu lado.
    Mas agora estava tudo acabado. Fora apenas uma poca boa de sua vida que, infelizmente, no teve o final esperado. Pena.
    De repente, percebeu que um dos empregados precisava de ajuda e, satisfeita por distrair-se, foi at l.
    Ao entrar na cozinha, deparou com o cozinheiro preparando um dos pratos principais, enquanto Clarisse, sentada  mesa vestida num robe, extraa-lhe alguns segredinhos 
culinrios.
    -Mame, voc no devia estar se aprontando?
    Muito tranqila, Clarisse acariciou o gato que se enrolara em seu colo.
    - Ah, ainda tem tempo.
    -  Uma mulher nunca tem tempo suficiente para se preparar no dia do casamento.
    -  O dia est mesmo lindo, no? Sei que  bobagem considerar isto como um bom pressgio, mas acho que tudo vai dar certo.
    -  Voc tem o direito de considerar qualquer coisa como pressgio.
    A meio caminho da cafeteira, Andrea mudou de idia e, em vez de servir-se, abriu a geladeira, preferindo uma taa de champanhe. Afinal, no era todo dia que 
uma filha preparava o casamento da prpria me.
    -  Venha, eu ajudo voc a se vestir.
    Antes de subirem, Andrea passou pela sala e apanhou duas taas para levar consigo, junto com a garrafa.
    -  No sei se devo comear a beber desde j - disse Clarisse. - No quero ficar tonta.
    - Pois devia ficar - opinou Andrea, sentando-se na cama de casal de Clarisse. - Alis, ns duas deveramos ficar ligeiramente altas. E melhor do que ficarmos 
nervosas.
    -  Ora, mas no estou nem um pouco nervosa - disse Clarisse com um riso plcido nos lbios.
    Andrea abriu o champanhe; a rolha voou pelos ares.
    -  Toda noiva fica nervosa. At eu, que no tenho nada a ver com isto, j estou.
    -  Minha filha. - Clarisse apanhou uma das taas, j servidas. - Voc no deve se preocupar comigo.
    -  No posso evitar, mame - confessou, beijando-lhe as faces. - Eu te amo.
    Comovida, Clarisse segurou-lhe as mos.
    -  Sinto o maior orgulho de voc, filha. At hoje s me deu alegrias.
    - Mame, eu no s te amo como tambm te adoro! - Obrigada, querida. - Sentindo-lhe as mos frias, disse - Mas me diga o que est acontecendo.
    
    No era preciso ser paranormal para saber que Clarisse se re-feria a David. Apoiando a taa no criado-mudo, Andrea levantou-se.
    -  No temos tempo a perder, mame. Voc precisa se..,
    -  Vocs discutiram e sinto que est magoada. Suspirando fundo, Andrea voltou a sentar-se.
    -  Eu sempre soube que, um dia, tudo ia terminar, e j estava preparada.
    -  Mesmo? - Balanando  a cabea,  Clarisse tomou  um gole de champanhe e voltou-se novamente para a filha. - Por que motivo tem tanta dificuldade em aceitar 
carinho de outras pessoas? Exceto de mim. Ser que criei voc de modo errado?
    -  No, absolutamente.  apenas meu jeito de ser. De qualquer forma, David e eu. .. Tudo no passou de uma paixo que acabou.
    Clarisse meditou sobre o assunto.
    -  Mas voc o ama.
    Se estivesse na presena de outra pessoa, Andrea negaria a verdade, mas com sua me podia se abrir,
    -  Isto  problema meu e estou procurando enfrent-lo do melhor modo possvel. - Ento, sentindo que fraquejava, resolveu mudar de assunto. - Mas, num dia como 
este, no devemos discutir estas coisas.
    -  Num dia como este quero ver minha filha feliz. Na sua opinio, o que  que David sente por voc?
    Andrea sempre se esquecia de que Clarisse era teimosa e determinada.
    -  Atrao. Creio que ele se interessou por mim porque no me entreguei logo de incio. E, nos negcios, estvamos em p de igualdade.
    -  Perguntei quais os sentimentos dele - repetiu, diante da resposta evasiva.
    -  No sei - confessou, erguendo-se. - Ele me deseja. Desejava. Formamos um par perfeito na cama, mas acho que David queria mais...   Ele gostava de me interrogar, 
me fazer pensar.
    -  E voc no queria.
    -  No gosto de me sentir examinada, vasculhada. Sentada, Clarisse observou-a andar de um lado para outro
    do quarto, bastante agitada. Quanta emoo armazenada em seu ntimo...   Por que Andrea no se abria de vez?
    -  Tem certeza de que era este o intuito de David ao lhe fazer tantas perguntas?
    -  No tenho certeza de nada. S sei que ele  do tipo extremamente lgico, que gosta de investigar a fundo tudo o que lhe interessa.
    -  Alguma vez parou para pensar que era por voc que ele se interessava, no pelo seu corpo?
    -  No importa, est tudo acabado. Ambos chegamos  concluso de que um compromisso mais srio est absolutamente fora de questo.
    -  Por qu?
    -  Porque no  o que ele. . . o que ns queremos. Fizemos um acordo desde o comeo.
    -  O que deu incio  discusso?
    -  Ele sugeriu que morssemos juntos.
    -  Bem, para alguns esta  uma forma de compromisso.
    -  Mas, para ns, era apenas uma questo de convenincia. - Seria o motivo que a magoara? - Pedi um tempo para pensar e ele ficou bravo. Muito bravo mesmo.
    -  Ele ficou magoado. - E, antes que Andrea pudesse protestar, acrescentou: - O orgulho   fez com que vocs dois se ferissem mutuamente.
    A afirmao a deixou transtornada. Nunca havia parado para pensar no que fizera.
    -  Eu no quis ferir David. Quis apenas. . .
    -  Se proteger - completou Clarisse. - Muitas vezes uma coisa leva a outra. Quando se ama algum de verdade temos que correr alguns riscos.
    - Acha que eu deveria procur-lo?
    -  Faa o que seu corao mandar.
    -  Parece to simples.
    -  Mas  a coisa mais apavorante do mundo, filha. Sentando-se novamente, Andrea recostou a cabea no ombro de Clarisse.
    -  Oh, mame, e se ele no me quiser?
    -  Voc vai chorar, vai sofrer e, depois, vai recolher os restos espalhados pelo cho e tocar a vida para a frente. Sei que  forte o bastante para superar qualquer 
crise, minha menina.
    Apanhando a sua taa, Andrea ergueu um brinde.
    -  A que brindaremos primeiro?
    Aps uma pausa para meditar, Clarisse afirmou, bastante convicta:
    -   esperana, que sempre nos ajuda a viver.
    
    Andrea trancou-se no quarto que sua me mantinha reservado para ela, desde que se mudara para l. Talvez fosse boa idia passar a noite ali depois que a festa 
acabasse, os noivos partissem em lua-de-mel e tudo ficasse tranqilo.
    Quando a noite casse trazendo consigo o silncio, poderia pensar melhor sobre o que lhe acontecia e, quem sabe, reunir coragem para no dia seguinte seguir o 
conselho de Clarisse.
    Dentre tantas dvidas que lhe ocorriam, Andrea tinha apenas uma certeza: ela o amava. E, se por este motivo tivesse que correr alguns riscos, no se importaria.
    Endireitando os ombros se aproximou do espelho e observou a prpria imagem refletida.
    A pedido de Clarisse escolhera um vestido bem romntico como h muito no usava. Era todo em renda azul-clara com forro do mesmo tom em seda. A gola alta subia 
at o pescoo e a saia farta descia at os tornozelos.
    O modelo no fazia seu estilo habitual, mas Andrea teve que admitir a si mesma que se sentia muito bem vestindo algo to delicado. Apanhando o pequeno arranjo 
de flores que usaria, imaginou qual seria a sensao de se preparar para viver para sempre com o homem amado.
    Uma noiva devia sentir o mesmo arrepio na espinha que ela mesma sentia agora, s ao imaginar. Devia ser uma espcie de vertigem num misto de excitao e ansiedade.
    Experimentando todas estas sensaes, Andrea apoiou-se na cmoda.
    Seria uma premonio? Balanando a cabea, procurou afastar a idia absurda de sua mente e, ao consultar o relgio, constatou que j era mais do que hora de 
estar prontas para receber os convidados.
    Os filhos de Alex foram os primeiros a chegar. Andrea os conhecera na vspera, quando foram todos jantar juntos, e ainda se sentia pouco  vontade na presena 
deles.
    Em pouco tempo dezenas de convidados comeariam a chegar.
    -  Andrea!
    Caminhando pelo gramado, Alex veio ao seu encontro.
    -  Voc est linda.
    Muito bem vestido, Alex exibia a elegncia e o charme de sempre.
    -  Espere s at ver a noiva.
    -  Estou mesmo ansioso por t-la aqui comigo para receber os convidados. Como sabe, costumo falar para milhes de pessoas todas as noites no noticirio, mas 
isto aqui  muito diferente.
    -  Estou mesmo ansioso por t-la aqui comigo para receber em tom brincalho, ajeitando-lhe a gravata-borboleta. - Por que no toma um aperitivo e relaxa um pouco?
    -  Tem razo, acho que  isso que vou fazer.
    Andrea o observou caminhar em direo  mesa onde estavam as bandejas com os copos e, ao voltar-se, deparou com David.
    Parado  entrada do jardim, tinha os cabelos revoltos pelo vento morno da manh ensolarada.
    Com o corao j acelerado, Andrea se perguntava se a surpresa lhe agradava ou no.
    David no se aproximou e, ao perceber que deveria dar o primeiro passo, Andrea apertou com fora o pequeno arranjo de flores que trazia nas mos.
    Para David, Andrea mais parecia um anjo com seu vestido fluido e delicado.
    O vento que arrastava consigo o perfume das flores agitava-lhe a saia farta numa carcia. Observando-a aproximar-se, todas as horas sofridas que passara durante 
aquelas duas semanas vieram-lhe  mente.
    -  Fico feliz que tenha vindo.
    At aquela manh, ele estivera determinado a no ir, mas, ao dar-se por si, j se havia vestido.
    -  Pelo visto, as coisas esto correndo conforme o previsto. Est tudo muito bonito.
    No, nada corria conforme o previsto. . .
    -  A cerimnia est para comear. To logo os ltimos convidados se acomodem, irei buscar Clarisse.
    -  Deixe os convidados por minha conta, Andrea.
    -  No precisa se incomodar, eu. ..
    -  Eu prometi.
    -  Sua resposta a deixou sem argumentos. - Obrigada. Com licena.
    Entrando em casa, foi para o seu quarto para se recompor antes de enfrentar Clarisse.
    
    Ao som da pequena orquestra que tocava sobre um tablado armado a um canto do jardim, Andrea ocupou seu lugar. Ento, olhando para Alex, sorriu encorajadora.
    Aos primeiros acordes da marcha nupcial, Clarisse surgiu  porta.
    Vestida num longo de seda rosa que lhe ressaltava a pele clara, atravessou a passadeira, tendo os olhos fixos em Alex.
    Os convidados se levantaram e Andrea notou que o noivo estava embevecido.
    Ambos deram-se as mos e a cerimnia teve incio.
    A pedido da noiva, tudo foi muito rpido, resumindo-se ao mnimo essencial.
    Com o corao apertado e uma incrvel sensao de perda, Andrea assistiu  promessa de sua me de se manter sempre fiel ao marido.
    Tendo os olhos rasos de gua, abriu os braos para abraar a noiva.
    -  Oh, mame, quero que seja muito feliz.
    -  J sou, querida. E voc tambm ser.
    E, antes que Andrea pudesse dizer mais alguma coisa, Clarisse se afastou, sendo imediatamente abraada pelos filhos de Alex.
    Havia providncias a serem tomadas e Andrea preferia manter-se ocupada; isto a ajudaria a se controlar emocionalmente. Em poucas horas poderia ficar sozinha, 
mas por enquanto precisava sorrir, o que a fazia sentir-se uma perfeita idiota.
    Aps todos os cumprimentos, David se aproximou da noiva:
    -  Clarisse, voc est linda.
    -  Obrigada, David, estou satisfeita que tenha vindo. Ela precisa tanto de voc.
    -  Ser?
    Suspirando, Clarisse segurou-lhe as mos com muito carinho.
    -  Mas  claro que sim. V, fale com ela, Andrea sabe melhor que ningum como disfarar os sentimentos.
    - Est bem, eu irei.
    -  timo. Agora, sirva-se. Os pratos esto deliciosos.
    -  Felicidade, Clarisse. Beijando-lhe as faces, David se afastou.
    
    Andrea estava absolutamente exausta. A orquestra tocava para alguns casais que danavam e o champanhe era servido  vontade. O bolo imenso foi cortado pela noiva, 
que ergueu um brinde aos presentes.
    -  Creio que gostaria  de  saber que me comuniquei com Steiger e acabo de ler o roteiro. - Aproximando-se, David mantinha os olhos fixos nos pares que danavam. 
-  fascinante.
    Se ele preferia falar sobre negcios, tanto melhor. 
    - E ento? Vai produzi-lo?
    -  Estou pensando ainda. Tenho uma reunio com Steiger segunda-feira.
    -  Que bom! - exclamou, sem esconder a satisfao. - Vai dar tudo certo, tenho certeza.
    -  Se for assim, voc ter sido a responsvel pelo sucesso. - Fico contente.
    -  No dano uma valsa desde os treze anos - ele comentou, segurando-a pelo cotovelo. - Minha me, naquela poca, me obrigava a danar com minha prima.
    Conduzindo-a para junto dos outros casais, comentou:
    -  Voc est tensa.
    Procurando no pensar na sensao agradvel de t-lo junto de si, Andrea concentrou-se no ritmo da msica.
    -   por causa da festa. Quero que tudo saia perfeito.
    -  No tem que se preocupar mais com isso. A festa est sendo um sucesso.
    Clarisse danava com Alex como se no houvesse ningum mais a sua volta.
    -  No, no tenho que me preocupar - afirmou, suspirando. - Mas sinto como se tivesse perdido minha me.
    -  Com o tempo esse sentimento vai passar. Num gesto carinhoso, ele beijou-lhe a testa.
    Tanta gentileza a deixou absolutamente sem defesa.
    -  David - disse, erguendo o rosto para fit-lo. - Senti muito a sua falta.
    Era difcil para ela revelar seus sentimentos. Ao faz-lo, desfez-se do pouco orgulho que ainda lhe restava.
    David abraou-a com mais fora.
    -  Andrea. ..
    - Por favor, no diga nada. S queria que voc soubesse.
    - Precisamos conversar.
    Ela j ia concordar quando foi anunciado ao microfone que todas as moas solteiras deveriam se aprontar, pois a noiva iria jogar o buqu.
    -  Venha, Andrea - disse uma amiga, puxando-a pela mo. - Vamos ver quem ser a prxima.
    Andrea seguiu a moa sem vontade; precisava conversar com David. Sabia que sua felicidade estava em jogo.
    Olhando para trs, na direo de David, de repente Andrea s teve tempo de erguer o brao para se proteger do buqu, que lhe caiu na cabea.
    Embaraada, agradeceu os cumprimentos e votos de felicidade.
    -  Mais um sinal? - indagou Clarisse, beijando-a.
    -  Sinal de que voc tem boa pontaria. - Curvando-se,
    afundou o rosto entre as flores, aspirando-lhe o perfume. - Voc deveria guard-lo.
    -  Nada disso. At logo, minha filha, estarei de volta dentro de duas semanas.
    Aps um abrao apertado, os noivos despediram-se de todos e saram em viagem de npcias.
    Os ltimos convidados partiram no final da tarde e, aproveitando aquele momento de silncio, David abraou-a.
    Exausta fsica e mentalmente, Andrea no o rejeitou, limitando-se a aproveitar ao mximo a proteo daqueles braos fortes.
    -  Andrea, por que no deixamos o orgulho de lado e admitimos a verdade? No d mais para esconder.
    Erguendo o rosto j banhado pelas lgrimas, ela o fitou.
    -  Oh, David, eu te amo tanto. Vou precisar muito de voc.. Me perdoe...
    -  Eu  que devo lhe pedir perdo. Agi como um imbecil, deixando voc numa fase to difcil. Mas, no fundo, sabia que s o tempo a faria ver que no h como 
fugir  realidade. Acho que te amei desde o primeiro instante em que nos vimos. Temerosa, arriscou:
    -  Voc ainda quer morar comigo?
    -  No, creio que no.
    A rejeio doeu-lhe fundo no peito e a fez querer fugir dali, desvencilhar-se daquele abrao. Mas David a impediu.
    -  Por favor, me deixe em paz - implorou-lhe, j sem um trao de orgulho.
    -  No quero mais morar com voc, Andrea.  Quero me casar com voc.
    Emocionada, Andrea deu vazo s lgrimas, que lhe correram abundantes pelo rosto.
    -  Oh, David, esperei tanto por este momento. ..
    -  No mais do que eu, querida. . .



F  I  M

Digitalizado por
Projeto_romances
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Digitalizado por Vanessa

Sem Promessas, sem compromissos                Nora Roberts




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